A ODALISCA
Alberto Malanca
Sozinha
-dócil monja de carnal religião-
em seu quarto enclausurada
rumina a odalisca
-preocupada-
pensando no encontro
com o temido e
poderoso sultão.
Ante um baú ajoelhada
a cativa escolhe com muito cuidado
os véus que essa noite vestirá
(com lentos gestos depois despirá)
para ao seu senhor melhor agradar
no instante sublime da erótica dança.
Vasculhando no fundo da caixa,
bem guardado -que a pode arruinar-
ela encontra um pequeno rosário
inocente dolorosa lembrança
de anos distantes de liberdade.
Reabre feridas
um fosco cenário.
O barbudo janízaro
arrebatado,
fogo que queima
a sua amada cidade,
o galope noturno
desenfreado;
de suados marujos
barbárica a festança.
Recorda ainda um país
diferente -idioma
áspero, inusitado-
do eunuco vaidoso
os severos conselhos,
ameaças, castigos
de repente. E ferro
que prende -gelado-
seus brancos
delgados artelhos.
Quando o harém resplende ao luar
(entre perfumes e exóticas fragrâncias)
mais uma vez no espelho ela remira
o umbigo descoberto, seu quadris.
Sensualmente deve agora rebolar
perante seu sultão,
seu único juiz.
Talvéz o príncipe potente,
ébrio de haxixe e de cheiroso vinho,
tenha vontade de deitar com ela.
Noite de fogo,
de paixão ardente
de imperioso amor.
De afago
de carinho.
Mas seja atenta, bela odalisca,
aprenda a arte de segurar o encanto:
muitas escravas ardem nesse harém
e cada qual pode tomar seu canto.
12/09/2000