HOJE EU ESTOU MEIO ROMÂNTICO
Mário Prata

 

Foi numa grande festa na pequena cidade que o fato se deu.
O grande homem, olhando a pequena mulher, pensou:
- Que pequena.
A pequena mulher, sentindo os grandes fuidos em sua cabeça, pensou:
- Grande.
Pequenas piscadas, grandes sorrisos, uma só cumplicidade.
E foi assim que eles foram.
Ele pegou nas pequenas mãos da mulher com sua grande mão.
Com seus grandes olhos, procurou os pequenos dela, grande ternura, pequena timidez.
Com o grande dedo da grande mão direita passou, levemente, uma pequena alegria para os pequenos lábios do pequeno sorriso.
Ele sorriu, mostrando dois grandes dentes e deu um beliscão no pequeno nariz que ficou vermelho como o pequeno coração que disparou dentro do seu pequeno corpo.
Com o seu grande coração conquistou o pequeno sim e fizeram grandes planos e pequenas despesas.
Um pequeno período de noivado e pensaram na grande festa do grande dia.
Num pequeno hotel da pequena cidade, numa grande cama, o pequeno corpo esticou-se atravessado e foi recolhido num grande abraço.
Grandes horas, pequenos segundos, grandes prazeres, pequenos gemidos, pequenas lágrimas, um grande suor, pequenos ais, grandes beijos, pequenos dentes, grandes mordidas, grande língua, seios pequenos contidos por um grande peito.
Pequenos saltos, grandes suspiros.
Um grande amor.
Depois de grandes dias e pequenas brigas, vieram as pequenas diferenças.
Grandes anos, pequenos segundos, pequenos filhos, grandes festas, pequenas viagens, pequenos passeios, grandes almoços, pequenos pileques, grandes barrigas, pequenos partos, grandes fadigas, pequenas férias, grandes trabalhos, pequenos salários, grandes dores de cabeça, pequenos comprimidos, grandes ansiedades, pequenas alegrias, grandes insônias, pequenas noites, grandes desilusões, pequenos senões, grandes tempos, pequenos tempos.
Grandes brigas, pequenos nãos.
Passou um grande tempo, apenas um pequeno amor sustentava a grande casa já repleta de filhos pequenos e grandes.
Sentaram-se na grande poltrona da pequena sala para resolver o grande problema: o grande amor ficara pequeno.
A sua grandeza foi diminuindo e as pequenas razões da mulher ficando grandes.
Foi quando ela percebeu que era uma grande mulher.
E ele, ficando cada vez mais pequeno, também.
Ela pegou uma pequena faca e enfiou na pequena barriga dele.
Saiu uma grande quantidade de sangue e o pequeno corpo ficou ali, esticado, no grande tapete atravessado, recebendo pequenos olhares.
Vieram os filhos pequenos e grandes e deram grandes gritos.
Para a polícia ela deu pequenas explicações e conseguiu uma grande pena: dos pequenos e grandes filhos e da justiça.
Anos mais tarde, teve uma pequena morte numa pequena sala de uma grande penitenciária e o jornal deu apenas uma pequena nota de um amor que um dia foi tão grande.

Esta crônica foi retirada do livro "100 Crônicas", de Mário Prata, patrocinado pelo "O Estado de São Paulo", editado por Cartaz Editorial, São Paulo, 1997.


desde 03/10/1999

||Mario Prata||

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