Cena 2

LAURA - Eu não tinha coragem!

AMANDA - E agora o que vamos fazer o resto das nossas vidas?
Ficar em casa vendo as paradas passarem?
Divertir-nos com o zoológico de vidro, querida?
-Tocar eternamente esses discos de vitrola batidíssimos
que seu pai deixou como dolorosa recordação de sua passagem?
Não vamos fazer carreira no comércio
- disso já desistimos, porque nos dava indigestão de fundo nervoso!
(Ri com cansaço.)
Que nos resta para a vida inteira senão depender dos outros?
Eu sei tão bem o que acontece às mulheres solteironas que
não estão preparadas para trabalhar fora!
Tenho visto casos tão comoventes no Sul
- solteironas toleradas com esforço,
vivendo da tolerancia mal-humorada do cunhado ou da cunhada!
- jogadas num quartinho do tamanho de uma ratoeira,
aconselhadas por um e outro parente a visitar outros parentes,
mulherzinhas frágeis, como pássaros sem ninho
- comendo as migalhas da humilhação a vida inteira!
É esse o futuro que delineamos para nós?
Juro que é a única alternativa que me ocorre!
Não é muito agradável como alternativa, não acha?
Bom, é verdade que algumas moças conseguem se casar.

Macunaíma, Cena 2, À Margem...

Cena 7

TOM-Não fui para a lua. Fui para muito mais longe...
pois o tempo é a distância maior que existe entre dois lugares...
Pouco depois daquela noite fui despedido por escrever poemas
na tampa de uma caixa de sapatos.
Parti de Saint Louis.
Desci os degraus desta escada de incêndio pela última vez
e segui, daí em diante, os passos de meu pai,
tentando encontrar no movimento, na mudança,
o que eu perdera no espaço...
Viajei bastante por esse mundo afora.
As cidades giraram em torno de mim como folhas mortas caindo,
folhas de cores deslumbrantes mas cortadas de seus ramos.
Muitas vezes eu quis me deter,
mas era impelido para diante por alguma coisa.
Era algo que me colhia de surpresa, de repente.
Talves fosse uma melodia conhecida,
talvez fosse apenas um pedaço de vidro transparente...
Ou as vezes estou andando por uma rua,
à noite, numa cidade desconhecida,
antes de encontrar amigos ocasionais.
Passo pela vitrina iluminada de uma loja de perfumes.
A vitrina está cheia de pedacinhos de vidro colorido,
garrafas pequenas, transparentes, de cores delicadas,
fragmentos de um arco-íris destruído...
Então, repentinamente, minha irmã toca meu ombro.
Volto-me e a olho fundo nos olhos...
Oh, Laura, Laura! Tentei tanto deixa-la para trás,
no passado, mas eu lhe tenho sido mais fiel do que pretendia!
Tiro um cigarro do maço, atravesso a rua,
vou ao cinema ou entro num bar, bebo qualquer coisa,
falo com o estranho que me está próximo
- faço qualquer coisa para apagar as velas que você acendeu!
pois hoje em dia é o relâmpago que ilumina o mundo!
Sopre suas velas , Laura, e agora...
adeus!

 


Fragmentos de T.W.


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