De 1997 até 2003* houve um aumento de 160,1% de pessoas que fizeram transplantes de córneas no Brasil. Esse crescimento de transplantes e doações se deve a muitos fatores, entre esses ao aumento de doações, a qualificação de profissionais de saúde para captar e executar transplantes e um maior controle do Estado para o cadastramento com as Centrais de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos (CNCDOs). Mesmo com isso tudo, há uma demanda reprimida para córneas e muito pode ser feito para atender as listas de espera de todo o País. Captação e banco de olhos Segundo o oftalmologista Elcio Sato, docente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e presidente da Associação Pan-americana de Banco de Olhos (APABO), estima-se que haja no Brasil cerca de dez mil pacientes na fila para transplantes de córnea e necessidade maior conscientização. “Os bancos de olhos estão funcionando melhor. Há médicos capacitados para fazer transplantes em todo o Brasil, mas há desconhecimento, temores populares e principalmente falta de doadores”, diz Sato. A habilitação de profissionais para a captação de córneas, abordagem familiar, a estruturação dos bancos de olhos, um trabalho de doação ativa e a transparência das informações com as centrais de controle e captação são fatores responsáveis pelo crescimento das doações de córneas. “Hoje em dia, estamos passando de um modelo voluntário para outro remunerado e profissional”, diz o médico. Indicação e contra-indicação Para obter a córnea adequada é importante que se faça uma obtenção, análise e a devida preservação por profissionais treinados, pois uma boa córnea para transplante depende de rigorosos controles de qualidade, que fica a cargo dos bancos de olhos. “Em geral, córneas provenientes de pacientes com Aids, hepatite B e C, raiva e septicemia são contra-indicadas”, diz o oftalmologista. Contudo, antes de descartar as córneas, a participação dos responsáveis pelos bancos de olhos é determinante. Ceratopatia bolhosa, herpes ocular, opacidades corneanas secundárias a infecções, traumas e ceratocone representam as doenças mais relacionadas ao transplante de córnea. “Vale ressaltar que o ceratocone é indicação mais comum, mas nem todos os casos devem fazer o transplante”, diz o oftalmologista. Habilidade e doenças preexistentes Um bom diagnóstico precoce e o tratamento de muitas doenças oculares pode muitas vezes evitar o transplante de córnea. Quando feitos, em torno de 80% dos transplantes são bem-sucedidos. Em alguns casos, é possível ainda o retransplante, mas os índices de rejeição são baixos. “Tudo depende de doenças preexistentes e do quadro clínico do paciente, que pode piorar ou melhorar o resultado do transplante” diz Sato. Ao contrário da retirada, que exige cuidados especiais para se extrair só a córnea ou a enucleação, os procedimentos para se fazer o transplante de córnea não exigem alta complexidade nem exigem tantos aparatos pré ou pós-operatórios. Porém, a habilidade do cirurgião é fundamental. Técnicas e novas pesquisas Quanto às técnicas, o transplante penetrante de córnea (ou transplante lamelar superficial) é o mais utilizado no Brasil e outras técnicas como o transplante lamelar endotelial profundo também tem sido empregada. “O desafio está no tamanho ideal do botão corneano, além do trepano ser bem manual”, diz o médico. O uso do laser para corte penetrante e microcerátomos com definições precisas são possibilidades reais que estão em estudos. Todavia, a doação inter-humana é a única forma viável para se obter êxitos na atualidade. Existem pesquisas que envolvem a produção da córnea artificial (sintética ou de animais) e modificada geneticamente. “Isso é uma realidade um tanto distante de ocorrer”, diz Elcio Sato. * Projeção de dados de janeiro a julho de 2003. Fonte: SAS/MS Danilo Tovo www.drvisao.com.br - fev/2004 |