Tratamento e conscientização para o olho seco


Reconhecida como uma das mais prevalentes doenças do século XXI, o olho seco é um dos maiores problemas de saúde pública em todo o mundo. Associado a fatores ambientais, essa doença ocular crônica e de difícil diagnóstico, basicamente, tem como característica a diminuição da produção da lágrima ou deficiência em alguns de seus componentes. Ainda não se conhece a fisiopatologia precisa do olho seco e as principais evidências sugerem que seja o resultado de um processo inflamatório imunomediado que afeta a glândula lacrimal. Isso leva a anormalidades no filme lacrimal e na superfície ocular e dificulta regularizar a superfície da córnea. Além disso, a secura ocular prejudica a lubrificação, nutrição e oxigenação, que promovem a chegada de mecanismos de defesa para a superfície ocular e ajudam na eliminação de agentes nocivos aos olhos.


Classicamente, a pouca quantidade e/ou má qualidade da lágrima define o olho seco. Segundo a oftalmologista Luciene Barbosa, docente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), trata-se ainda de uma sintomatologia inespecífica com embaçamento das vistas, ardência, vermelhidão, fotofobia, prurido, ato-reflexo comprometido, constante irritação, sensação de areia nos olhos, muita dificuldade das pessoas em permanecer em ambientes com ar-condicionado entre outras diferentes queixas. “O clima seco piora o quadro de olho seco assim como no período da manhã, além de vários outros fatores associados ou não colaboram para intensificar tudo isso”, diz Barbosa. Já em quadros como síndrome de Sjögren ou a doença de Stevens-Johnson, o olho seco se associa a uma quadro sistêmico distinto e demanda um acompanhamento médico específico.


Fatores de risco


Ar-condicionado, radiação ultravioleta, ventilação inadequada, contrastes de temperatura, tipo de atividade profissional entre outros fatores de risco, como uso de determinadas classes de medicamentos (antidepressivos, anti-histamínicos, anti-hipertensivos, anticolinérgicos entre outros), portadores de doenças reumatológicas (artrite, penfigóide etc.), dermatológicas (acne rosácea), alterações hormonais, idade avançada, flutuação na visão ao acordar, utilização de lentes de contato e até em pós-cirúrgicos oftalmológicos são perfis de casos mais predispostos ao surgimento de olho seco. Com muita freqüência o olho seco desafia oftalmologistas e uma série de variáveis são bastante inter-relacionadas e devem ser avaliadas pelo médico antes de propor um tratamento adequado.


Essa deficiência aquosa ocular ou evaporação acelerada da lágrima é a afecção ocular tratável mais comum na prática clínica e um consenso amplo não se faz presente. Estima-se que atinja cerca de 10% da população mundial e é bastante ligado ao estilo de vida da modernidade. A exposição a determinadas condições do meio ambiente (poluição e uso intensivo de computadores e diminuição do piscar), traumas oculares (queimaduras térmicas e químicas) geram maior fadiga visual e ainda distúrbios do filme lacrimal que gera o olho seco. Isso tudo aponta para casos mais freqüentes, que produzem áreas secas sobre a superfície da conjuntiva e da córnea e facilita o surgimento de muitas outras complicações oftalmológicas, indo desde uma infecção por tracoma, úlcera corneana até a necessidade de transplante ou mesmo a perda da visão. “Vale frisar que até mesmo a hiperprodução de lágrimas pode ser relacionada a um quadro de olho seco”, diz Rosângela Simoceli, oftalmologista do Hospital Santa Cruz, em São Paulo.


Anamnese e testes diagnósticos


Porém, a anamnese detalhada de cada caso pode oferecer um parâmetro melhor para se mensurar o olho seco, mas isso não é nada fácil na prática oftalmológica e o diagnóstico deve ser bem cuidadoso. “Precisamos entender todos os mecanismos que levam ao sintoma, obter informações dos pacientes como antecedentes pessoais e familiares para dar a devida conduta para o caso”, diz Simoceli.


Os principais testes diagnósticos para o olho seco são: But ou ruptura do filme lacrimal com corante fluoresceína, teste de Schirmer, Rosa Bengala, análise de proteínas e osmolaridade, citologia de impressão e fluorofotometria. Critérios específicos e suspeitas devem ser contempladas num diagnóstico bem feito do olho seco, mas sobretudo o impacto que tem no cotidiano e na eficácia das condutas a serem descritas. “A mensuração não é simples. São ciclos que desencadeiam o olho seco. Em muitos casos a qualidade de vida e de visão tornam-se muito prejudicadas”, diz Barbosa.


Toda a terapia para olho seco consiste numa real seqüência de medidas paliativas baseadas no grau de severidade do problema em questão. Muitas vezes deve-se fazer um tratamento empírico e pautado nos achados clínicos e diagnósticos.


Tratamentos atuais


Quando se inicia com a prescrição da lágrima artificial, em geral, deve ter baixa osmolaridade e sem conservantes. Caso os colírios indicados não lubrifiquem adequadamente e não são suficientes para controlar os sintomas e as alterações da superfície ocular, a oclusão dos pontos lacrimais é possível indicação também. Com isso, objetiva-se a diminuição da drenagem e manutenção da lágrima na superfície ocular por maior tempo. Nos casos em que há o lacrimejamento reflexo ausente, pode-se ocluir os pontos lacrimais superior e inferior em definitivo. Em quadros leves, realiza-se a oclusão temporária com implantes de colágeno ou silicone.


Toda a terapia para olho seco consiste numa real seqüência de medidas paliativas baseadas no grau de severidade do problema em questão. Muitas vezes deve-se fazer um tratamento empírico e pautado nos achados clínicos e diagnósticos.


Tratamentos atuais


Os principais tratamentos atuais, feitos através de lágrimas artificiais, em várias formulações e componentes, são arsenais bastante prescritos e que podem redundar em resultados clínicos satisfatórios. Em formas diversas, os colírios mais recentes são eficientes e possibilitam um tratamento para grande maioria dos casos de olho seco. Podem ser essencialmente paliativos se não houver controle ambiental, mas novas modalidades terapêuticas têm surgido a fim de agir de forma mais eficaz para tratar o problema. Hoje em dia, mais de 100 fórmulas compostas de água (mais de 97%) e combinações de emolientes, sais minerais, lípides e proteínas acrescidos de conservantes ilustram as conhecidas lágrimas artificiais. “É importante o médico ficar atento, pois em alguns casos os conservantes podem desencadear processos alérgicos”, diz Barbosa. Diante disso, toda orientação com controle efetivo são medidas muitos importantes para o oftalmologista poder ser bem-sucedido com olho seco.


Drogas terapêuticas associadas também podem ser indicadas em casos de olho seco, porém a escolha varia conforme a intensidade do caso e da sintomatologia apresentada. “Não devemos indicar mais do que seis aplicações de colírios ao dia, pois pode haver toxicidade e em alguns casos recorrer a procedimentos cirúrgicos”, diz Barbosa. Portanto, propor um tratamento exige um conhecimento amplo do caso e não meramente a prescrição, além da necessidade de acompanhar o caso para adequar as condutas.


Outras modalidades terapêuticas têm contribuído para oferecer maiores possibilidades de sucesso para o olho seco atualmente, entre essas a ingestão de suplemento alimentar com ômega-3, vitaminas A, C e E e ácidos graxos. Entre as drogas mais novas em forma de colírio estão a ciclosporina-A e a pilocarpina tópica e os corticoesteróides. “Esses devem uso restrito, pois podem levar à catarata, glaucoma entre outros riscos”, diz Barbosa. Outras formas ainda estão em estudos ou com uso em casos extremos, como o soro autólogo, por exemplo. Porém, há necessidades de estudos controlados e que atestem melhores parâmetros para se tratar o olho seco com todas as drogas. Novas estratégias aliam a lágrima artificial com outros produtos, mas estão em fase preliminar de pesquisas assim como o uso de acupuntura ou homeopatia.


Medidas importantes


Além da dieta descrita anteriormente, a mudança de hábitos adquire ampla repercussão quando se trata de olho seco. São medidas simples e altamente recomendadas em se tratamento de olho seco, tais como: aumentar as piscadas do olho em frente aos monitores, alterar a posição dos computadores, aumentar a umidade relativa do ar, evitar fumaça, vento frontal e radiação solar. “Essas orientações quanto ao meio ambiente são muito importantes”, diz Barbosa. Outro aspecto vem a ser a conscientização do paciente diante da cronicidade do olho seco. “Devemos explicar o problema em detalhes para o paciente, mas o ideal seria uma atenção preventiva, pois o problema do olho seco é aumenta a cada dia”, diz Simoceli.



Danilo Tovo
www.drvisao.com.br - dez/2004

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