Com que roupa eu vou?
 




"A vestimenta é uma linguagem simbólica, um estratagema de que o homem sempre se serviu para tornar inteligíveis uma série de idéias como o estado emocional, as ocasiões sociais, a ocupação" - Gilda de Mello e Souza

Você sabe qual é a cor que predomina nas roupas dos médicos ? Se respondeu branco, cuidado! é melhor pensar duas vezes. Considerado intocável por gerações, o branco já não faz parte do mandamento inegociável da indumentária de um profissional de medicina. Para refletir higiene e pureza, os médicos atualmente não precisam sacrificar a vaidade em nome do "clássico" uniforme branco e podem levar a elegância com outras cores, formas e dar toques de descontração no seu guarda-roupa diário.

A brancura convencional está longe de estabelecer um consenso absoluto entre os médicos, já que cada vez mais a originalidade se rende ao olhar clínico da moda. "Hoje não uso mais o branco, que inclusive nem supõe o casual day. É a verdadeira armadura que me identifica facilmente, por isso prefiro ser reconhecido como uma pessoa comum fora do meu local de trabalho", diz Wanderley Cerqueira de Lima, neurocirurgião no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Ele adota um estilo informal, prefere calça e camisa social ou esporte fino e se preocupa com todos os detalhes do seu visual. "Quero que a roupa reflita a minha coerência e tenha a ver com a minha personalidade como um todo. Procuro me sentir bem e à vontade", diz ele, que, aos domingos, faz questão de visitar seus pacientes com calça jeans, camisa pólo e tênis.

Já a fisiatra Linamara Battistella, diretora da Divisão de Medicina e Reabilitação do Hospital das Clínicas de São Paulo, não se incomodou com o branco que usou por seis anos. Pelo contrário. Para ela, isso é um sinônimo de respeito adicional e atrai cumplicidade e respeito, porém não se lembra de quando aposentou o branco total. "É muito difícil permanecer com um traje dessa cor, pois o tempo que fico fora de casa não dá para manter a roupa imaculada", diz ela. "Assim, o branco perde a função original, aquele caráter de assepsia e limpeza, que fica melhor para quem está o dia inteiro no hospital", diz ela. Battistella aprecia tailleurs, salto alto, jóias e afins. "tenho que manter o visual agradável aos pacientes, sem excesso e sem modismo e que exteriorize um bom astral," afirma a fisiatra.

Na carreira médica, a roupa pode traduzir uma postura profissional diferente e acompanha uma mudança de valores e conceitos até há pouco tempo pouco representativos para a classe em geral. Hoje, o vestuário de médicos se compõe de uma variedade de estilos que segue outros padrões, pois cores diferentes, cortes modernos e outros acessórios se defrontam com os ditames da moda branca, que ainda vigora, especialmente entre os residentes e os médicos mais antigos.

Já a médica Ana Lúcia Miguel Peres, adepta regular do traje branco, observa que seus pacientes reparam muito no visual, por isso busca usar poucas jóias, roupa discreta e não recomenda o tênis para o ambiente de trabalho médico. " É muito importante ter equilíbrio para se vestir, pois a roupa reflete sentimento e estado de espírito. A ousadia com o vestuário da gente precisa de um cuidado todo especial, senão vira alvo de comentários", diz ela.

Os médicos executivos formam outra tendência nos bastidores das vitrines clássicas, apesar desse estilo ser mais associado a categorias como advogados e economistas, por exemplo. Ternos e gravatas, blazers e altas produções femininas requintam as passarelas médicas. Retratam um aspecto sério e formal e abrange todas as especialidades. Por outro lado também vemos os jalecos fazendo escola devido a sua praticidade e sendo uma alternativa fácil para o uso no dia-a-dia, tanto em clínicas quanto hospitais.

O panorama do visual médico atrai para vários estilos e traz diferentes perfis do médico moderno, indo desde os despojados até os executivos, passando pelos informais e chegando aos seguidores do traje branco. Há ainda outros que primam seus figurinos como hobby e investem alto na vaidade para compor uma moda personalizada. Nesse ponto, as médicas costumam ir bem longe e podem, eventualmente, pecar pelo exagero. No entanto, sabem que se vestir faz parte de um contexto mais amplo e tem a ver com o jeito de ser de cada pessoa. "Os médicos terão liberdade de se vestir o mais confortável possível incorporando a sua moda ao mundo fashion", diz Maria Helena Castilho, consultora de moda e editora da revista World Fashion. Segundo ela, a aproximação dos médicos com a moda deixou de ser meramente "chique", mas sim elegante, e afirma que o cinema também influenciou muito esses profissionais. "Além de haver muitos filmes e seriados de TV com médicos, existe uma produção de moda mais preocupada com o vestuário deles e isso é um sinal dos novos tempos para o visual da classe toda", diz ela.

O cuidado com a imagem estabelece uma relação que o médico tem com seu tempo e sua história. Promove um dinamismo estético que pressupõe também novos padrões frente ao seu processo de trabalho. O comportamento com o vestuário atende a uma leitura baseada num perfil mais individualizado e marca uma linguagem que desperta críticas. Envolve a roupa enquanto forma que inspira um conteúdo de aparências, mesmo quando essa é a primeira impressão, inclusive para os médicos.


Danilo Tovo

(Revista Médico repórter/número 2/dezembro de 1998)


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