A realização de exames oftalmológicos em recém-nascidos é muito relevante para o prognóstico da acuidade visual de bebês. Atualmente são preconizados alguns testes específicos precoces com o objetivo de detectar problemas oculares que podem comprometer seriamente a saúde visual de crianças. Se forem executados os procedimentos necessários no tempo adequado, muito pode ser feito para melhorar ou sanar problemas da visão nessa fase da vida, mas para isso a interação entre pediatras e oftalmologistas é fundamental desde o berçário. Uma atenção especial e o estudo dos casos com diagnósticos oftalmológicos precisos pode prevenir seqüelas oculares mediante a adoção de medidas terapêuticas ou cirúrgicas, o que é cada vez mais um consenso médico efetivo em hospitais e consultórios. Atenção na prematuridade Um dos principais aspectos para a saúde visual de recém-nascidos está relacionado ao tempo de gestação e peso ao nascer, fatores esses que podem interferir muito na saúde ocular dos bebês. “A prematuridade em si já é um grande fator de risco porque a visão demora para se desenvolver completamente. Peso menor que 1,5kg e idade gestacional inferior a 30 semanas devem ser bem observadas”, diz Rosa Maria Graziano, oftalmopediatra do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. Com isso, a atenção em prematuros torna-se indispensável e redobrada, principalmente por causa da retinopatia da prematuridade. Pode ser grave e irreversível, mas em outros casos nem são necessários tratamentos. Fotocoagulação e crioterapia são técnicas escolhidas para se cuidar, no entanto se houver um caso mais complexo com descolamento de retina, a vitrectomia associada à introflexão escleral pode restaurar uma visão limitada. Outros agravantes muitas vezes são relacionados à retinopatia da prematuridade, tais como glaucoma e catarata congênitos e estrabismo. “É importante ressaltar ainda que mesmo crianças prematuras que não apresentam retinopatia são indicados exames oftalmológicos periódicos para avaliar o desenvolvimento da visão”, diz Rosa. Fatores de risco Mesmo com a melhoria significativa dos casos de retinopatia da prematuridade devido ao surgimento das drogas surfactantes, é preciso prestar atenção a alguns problemas em recém-nascidos como exposição ao oxigênio, transfusão de sangue, fototerapia, uso de medicamentos, traumas de parto, hemorragia intraventricular e até em questões genéticas. “Podemos fazer um acompanhamento de muitos pacientes e assim melhorar o controle clínico com ventilação de alta freqüência, por exemplo”, diz Rosa, salientando que bons critérios fazem diferença para a saúde ocular de crianças, além do apropriado seguimento oftalmopediátrico. Para se estabelecer parâmetros adequados no primeiro mês de vida a atuação médica é determinante para um bom diagnóstico dos olhos de bebês. “É possível fazer todos os exames oftalmológicos sem receios ou nocividade no próprio berçário. Há ansiedade das mães e até de médicos temendo reações colaterais, mas tudo pode ser feito sem qualquer malefício”, diz Nilva Moraes, oftalmologista e docente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Desenvolvimento da visão Vale ainda relacionar que alguns dados sobre o recém-nascido, o qual percebe luz e vultos e o desenvolvimento da visão é variável para cada criança, mas aos 3 meses já consegue fixar objetos. Aos 4 meses deve ter fixação macular; aos 6 meses os olhos devem ter movimentos coordenados e reflexo de fixação binocular presente e a partir dos 9 meses visão de profundidade. “Se isso tudo não ocorrer corretamente pode haver estrabismo ou ambliopia, por isso precisamos observar bem a idade cronológica com o desenvolvimento real”, diz Graziano, salientando que em alguns casos a posição de cabeça pode mascarar o estrabismo e a recomendação é a tonometria de aplanação. “Outro ponto a se questionar vem a ser a confusão entre glaucoma congênito e obstrução de via lacrimal”, diz Rosa. As maiores suspeitas de problemas oftalmológicos vão direcionar os exames a serem eventualmente solicitados. Em geral, o teste do reflexo vermelho é considerado obrigatório antes da alta hospitalar de todos os recém-nascidos e inclusive é regulamentado por lei em algumas cidades brasileiras, como Rio de Janeiro, São Paulo e Campinas (SP). “Esse exame não substitui a oftalmoscopia indireta, mas é um bom screening para referenciar os médicos”, diz Graziano. Exames específicos Já outros exames indicados são pedidos de acordo com as suspeitas clínicas. Os principais são a oftalmoscopia indireta, exame de fundo de olho, gonioscopia, eletrorretinograma, teste de Hirschberg, teste de Teller ou de prismas e potencial evocado visual. “Tudo vai depender do diagnóstico da patologia. Podemos dispor de uma gama grande de exames oftalmológicos e varia conforme a faixa etária também”, diz Rosa. Qualquer alteração na pupila indica um possível local de problema oftalmológico. Septicemia, glaucoma congênito, leucocoria, parentes com retinoblastoma, inflamações retinianas, uveítes, conjuntivite neonatal grave, alergias e quadros sindrômicos devem ser levados em conta para aprofundar as suspeitas clínicas. Quando são quadros infecciosos, os mais freqüentes e que acarretam em possíveis danos oculares são: toxoplasmose, citomegalovirose, sífilis, rubéola, gonorréia e Aids. “A prevenção com bom exame clínico ajuda muito a saúde visual de bebês e é muito importante diagnosticar os olhos muito bem e especialmente o desenvolvimento da retina”, diz Moraes. Nesses casos, detectar a presença do microorganismo com biomicroscopia é medida viável para se iniciar um tratamento mais eficaz, inclusive para se distinguir doenças e até mesmo olho vermelho. Diante da prescrição óptica, o oftalmologista deve tomar cuidados para um exame clínico cuidadoso e fazer uma boa correção, caso seja necessário. Quando indicar procedimentos cirúrgicos, seja para catarata e glaucoma congênitos ou a própria retinopatia da prematuridade, a intervenção precoce é muito importante assim como atuar para se obter chances reais de serem bem-sucedidos, recuperar a boa visão dos bebês e em tempo hábil e sobretudo acompanhá-lo. “Com aumento de gravidez múltipla crescem os casos de bebês prematuros e devemos ficar atentos a isso cada vez mais”, diz Nilva Moraes. Danilo Tovo www.drvisao.com.br - fev./2004 |