Livro

Capítulo 1:

A apresentação da personagem principal.

Personagens: delegado, Zé Carlos, amigo, namorada?, dono do chope, garçom, prostituta do bordel, Alemão Velho, Alemão Ariano, Bandidos extras.

A cidade

O crime

A questão dos ovnis

O chope do Alemão

A caixa d’agua

Empresa Alemã

A mina de Urânio

O sumiço do carro e do colega da personagem principal.

Zé Carlos

Cláudio, o amigo.


Capítulo 2:

O acesso pela rede

A investigação do delegado


Capítulo 1

O Chope do Alemão esta noite estava mais barulhento que de costume. As pessoas nas mesas pareciam ter saído de um jogo de futebol e discutiam os mais variados assuntos. Bem, nem tão variados assim, já que noventa e cinco por cento das conversas de bar giram em torno dos temas: mulher, futebol, política, trabalho/estudos e assuntos relacionados.

Nossa mesa não era diferente. Já tínhamos conversado sobre todos esses assuntos sob diversas ópticas e nuances. Quem era mais gostosa, se a Luana Piovani ou a Luma de Oliveira; nossa última desilusão amorosa; quem era melhor, o Vasco ou o Flamengo; quem era responsável pela violência que nos atingia; o problema da greve da universidade; enfim, toda essa ladainha masculina de bar que tanto nos atrai e que as mulheres não conseguem compreender.

O Chope do Alemão, ou Chope como é carinhosamente chamado é um dos mais tradicionais bares da cidade e o lugar onde você encontra o melhor chope da cidade. O ambiente é bem pitoresco. A entrada é super estreita e comprida com mesas de um lado e de outro. As mesas são separadas umas das outras por uma estreita parede baixa que serve de encosto para os bancos. Ao longo desse imenso corredor deve haver umas 20 mesas de cada lado.

Esse primeiro ambiente é mais sossegado e preferido por casais, menos às sextas-feiras quando o bar lota. Em seguida vem o bar propriamente dito e a entrada da cozinha. Nele se aglomeram os garçons com as bandejas cheias de canecos de chope e tira-gostos alemães dos mais diversos - a linguiça caseira é um dos meus preferidos. Em frente ao bar há uma escada que desce para o depósito, que dizem, guarda os barris de chope. Antigamente, essa parte subterrânea funcionava como uma boate. Não cheguei a conhece-la pois era muito criança nessa época e acho que sequer morava na cidade. Histórias de antigos professores e alunos da velha Politec dão conta de festas de arromba nesse ambiente bem ao estilo “deixe sua roupa ao entrar”. Após o bar, o Chope finalmente, e milagrosamente, se abre em um salão maior e mais ventilado. Esse é o meu preferido, o mais barulhento e o mais cheio. Podemos dizer que o Chope se assemelha a uma caverna com uma entrada estreita de iluminação suave que desemboca em um salão maior.

Antigamente, esse salão final era um pouco menor e bem ao fundo havia uma porta que dava para um pequeníssimo, por assim dizer, quintal. Depois de uma reforma, o salão foi extendido um pouco e essa porta deu lugar a uma janela do qual se tem uma magnífica vista noturna de parte da cidade de Campina Grande.

Campina Grande, bem, Campina Grande é uma cidade com mania de grandeza. Seus habitantes, nativos ou adotivos como eu se orgulham muito da mesma, de sua gente e de suas proezas. A cidade viveu um período muito rico logo após a segunda guerra em função da cultura do algodão. Devido a sua localização privilegiada a cidade funcionava como entreposto comercial. Estradas de diversos pólos produtores convergiam para ela escoando toneladas e mais toneladas de algodão, ou ouro branco como era chamado na época.

O centro da cidade, mais precisamente a rua João Pessoa, era tomado por depósitos, caminhões, negociantes que faziam todo tipo de negócio e geravam fortunas. Pois bem, o algodão acabou, a riqueza se foi e a rua João Pessoa hoje é, apesar do ainda farto comércio diurno, ponto de prostitutas, homossexuais e travestis do mais baixo nível.

O algodão se foi, mas o povo não se abateu. A cidade se transformou então em cidade universitária e polo de tecnologia coureira, informática e micro-eletrônica. A criação da Furne, hoje Universidade Estadual da Paraíba, e da Politec e da Faculdade de Medicina, hoje Universidade Federal da Paraíba. Contribuíram para esse título. A criação dessas faculdades proporcionou uma revolução de costumes na população eminentemente nordestina daquela época. Inúmeros professores foram contratados, a maioria estrangeiros, que trouxeram seus costumes, sua comida e seu idioma para as casas dessas pessoas. Argentinos, Chilenos, Indianos, Bolivianos, Franceses, Alemães, Italianos, Holandeses, Mexicanos, Paraguaios, Peruanos, Japoneses, entre muitos, vieram para a cidade para transforma-la. Inúmeros estudantes agora vão e vêm da cidade em busca de cursos superiores. Repúblicas e pensões abrem suas portas para esses alunos de fora que chegam a formar uma população flutuante de mais de 10 mil habitantes.

Essa juventude talvez seja também responsável pela fama festeira da cidade. São duas grandes festas no ano: a Micarande e o Maior São João do Mundo. A primeira é um carnaval fora de época, o primeiro fora do circuito baiano de festas e cujo modelo depois foi copiado por dezenas de cidades. A segunda é mais que uma festa, é um grande evento de 30 dias de duração no qual uma cidade cenográfica é construída em uma enorme área denominada Parque do Povo. Barracas vendem comidas típicas e diversos palcos são montados com espetáculos diários de artistas da terra contratados pelo governo municipal; tudo gratuito. O Parque do Povo que fica numa área central da cidade que foi desapropriada para esse fim na década de 80 pelo então prefeito Ronaldo Cunha Lima, o poeta como é mais conhecido. Ele levou ao extremo de trinta dias ao ano o conceito romano de “pão e circo” e a população lhe é extremamente grata por isso.

Eu faço parte dessa juventude e sou um dos alunos do curso de informática da Universidade Federal ou UFPB. O curso de informática é pioneiro no Nordeste e foi para a antiga Politec que foi destinado um dos primeiros computadores de universidades brasileiras. A responsabilidade por esse feito se deveu a um falecido professor meu, Hattori, que metaforicamente trouxe o computador debaixo do braço.

Esse pioneirismo todo, só servia para arrefecer ainda mais a antiga rixa com a capital do estado, João Pessoa. Campina Grande teve a primeira operadora de sinais de TV do interior do norte-nordeste do Brasil. Durante muito tempo, João Pessoa assistia a programação da vizinha Recife e não contava com programação local de televisão como Campina Grande, sendo motivo constante de gozação por parte dos “campinenses”. O futebol da cidade, apesar de hoje não valer nada, contava com dois grandes clubes enquanto João Pessoa dispunha de apenas um. A universidade sempre foi muito mais bem conceituada que a da capital. Enfim, uma briga que acabou reforçando essa mania de grandeza dos campinenses para criar rótulos como: “O maior São João do Mundo”, “A maior casa de shows da América Latina”, “A cidade que mais cresce no interior do nordeste”, “A maior isso”, “O maior aquilo”.

O interessante é que as pessoas que lá vão estudar ou trabalhar, acabam se contagiando com esse espírito e acabam levando-o para sua terra natal ao voltarem. Campina Grande é, por assim dizer, a equivalente paraibana à Itú paulista.

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O caneco estava fazendo movimentos de pião na mesa. Este já era o meu décimo segundo chope e eu começara a brincar com ele. Rodava o caneco e olhava divertido e embriagado ele fazendo movimentos circulares pela mesa. Ora ele ia para o centro da mesa, ora se aproximava perigosamente da borda. O resto de chope que ainda existia no caneco aparentemente funcionava como contrapeso permitindo movimentos circulares suaves e longos. Todo mundo na mesa tinha parado a conversa e se concentrava agora na minha mais recente façanha: manter o caneco girando sem derruba-lo da mesa. Isso seria uma tarefa das mais simples, não fosse o meu estado de embriaguez e a insistente perturbação por parte dos outros participantes da bebedeira. A arte do pitaco parece ser potencializada pela bebida e a paciência para com os “pitaqueiros” é inversamente proporcional à mesma. Eu estava começando a ficar irritado com a insistência de meus colegas em sugerirem este ou aquele ângulo, mais ou menos força, apenas para verem o “meu” caneco girar de formas diferentes na mesa.

Começaram então a surgir as teorias da física quântica e newtoniana para corroborar este ou aquele argumento, ou melhor dizendo, “pitaco”. Um sugeriu que eu adicionasse mais chope ao caneco pois, baseado na engenharia naval, ele acreditava que meu caneco precisava mais lastro. Outro afirmou que não era nada disso, que eu devia dar mais impulso inicial para proporcionar uma maior força centrífuga e fazer com que o chope se alojasse nas laterais do caneco dando-lhe maior estabilidade aos movimentos. Um terceiro chamou o garçon e solicitou um lustra móveis para passar na mesa de forma a reduzir o atrito. O primeiro achou que tínhamos colocado lastro demais e bebeu parte do meu chope para testar a nova configuração. Um quarto sugeriu a inclusão barreiras de contenção para direcionar os movimentos do caneco. Imediatamente foram deslocados pratos, copos e talheres de forma a manter o caneco girando dentro de limites bem estabelecidos. Enfim, parecíamos estar tratando de um carro de fórmula um e não de um simples caneco de chope.

Pois bem, como seria previsível numa situação dessas o caneco caiu no chão se espatifando em mil pedaços. A inclusão de limites e grades de proteção passou a ser a teoria culpada pelo fim da brincadeira e seu criador o defenestrado da noite. Ele passou então a defender sua teoria argumentando que na realidade a implementação tinha sido mal feita e um dos pratos estava mal posicionado na mesa provocando a queda do caneco. Ele acreditava piamente que se o prato estivesse um centímetro mais à direita ele teria impedido o movimento derradeiro do caneco. Chegou a sugerir indignado tentarmos novamente com outro caneco, mas ai a brincadeira já tinha perdido a graça. Encerramos a brincadeira com o argumento plenamente aceito de que a estrutura atômica do novo caneco nunca seria suficientemente igual à do anterior para permitir um teste semelhante.

Após essa longa divagação percebi o quão malucos estavam todos e resolvi sair. Combinamos pedir a conta, não sem antes bebermos a famosa “saideira”, que não é nada mais que uma rodada final. Cláudio chamou o garçon da forma como ele sempre costuma.

- Roberto Carlos, trás a conta meu rei.

Para Cláudio, todo garçon se chamava “Roberto Carlos” e ele costumava se dirigir às pessoas usando a expressão baiana “meu rei”. O garçon atendeu prontamente e trouxe a conta. Tardamos mais uns quinze minutos discutindo se haviamos tomado 50 ou 52 chopes, discutindo com o garçon e entre nós mesmos para ver o quanto cabia a cada um. Finalmente saímos do bar. Atravessamos o grande corredor e nos deparamos com a rua.

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Sempre que se aproximava a hora de fazer o programa, Zé Carlos sentia um mal-estar e um suor frio nas mãos. Não parecia que fazia a mesma coisa há mais de oito anos, quatro na rádio e quatro na televisão. Sempre que ouvia a frase que antecedia sua entrada - e com vocês “A Sirene da Cidade na TV” - acompanhada das sirenes e luzes de carros de polícia, sabia que era a hora de se apresentar ao público. Zé Carlos adorava fazer aquilo. Seu programa era um daqueles programas policiais que apresentavam os fatos nus e crus e faziam jorrar sangue na TV.

Zé Carlos era uma figura pitoresca. Magro e franzino, com um bigodinho fino que parecia o de um gigoló de filme mexicano e os dentes para a frente meio separados um do outro. Usava sempre um terno amarrotado sobre a camisa aberta no peito, carregava sempre um medalhão dourado no peito e uma pulseira grossa de ouro no braço esquerdo devidamente acompanhada de um relógio extravagante. Enfim, era uma figura que a primeira vista parecia ridícula mas que impressionava ao pouco tempo de observação.

Era porém na tela da televisão, fazendo seu programa, que ele se transformava e assumia seu personagem. Apesar de franzino, manejava um porrete que devia pesar alguns quilos com presteza. Durante o programa ele batia na mesa com esse porrete com tal força que por vezes o chegava a quebrar. Ele xingava as pessoas e falava mal dos bandidos, ameaçava prende-los e ameaçava-os com seu porrete. Zé Carlos atendia ligações de espectadores de diversos bairros da cidade durante seu programa e hoje o dia prometia ser movimentado. No ponto eletrônico, a produção do programa informou Zé Carlos de que uma ligação o aguardava. Era uma senhora idosa reclamando de um tarado. Tarados eram os preferidos de Zé Carlos pois aumentavam em muitos pontos percentuais a audiência.

- Alô!!! Berrou Zé Carlos que sempre atendia o telefone desta maneira. Quem esta falando?

- Aqui é Maria das Dores, respondeu a senhora.

- E de onde a senhora está falando.

- Zé Carlos meu filho, eu estou falando daqui da Rosa Mística. Rosa Mística é uma antiga favela da cidade que foi urbanizada e passou a ser conhecida por esse nome. Seu nome anterior era mais simpático: buraco da gia.

- Pois então fale dona Maria da Rosa Mística. Diga qual o problema da senhora.

- Sabe o que é Zé Carlos, é que aqui na minha rua tem um cabra safado que vive se mostrando em público, é um tarado descarado e canalha.

- Tarado não é? Falou Zé Carlos com a face já transfigurada e mostrando raiva.

- Pois é Zé Carlos, as meninas passam aqui e ele fica dizendo coisas. Outro dia ele tirou os troços para fora da calça e ficou gritando com uma moça que passava na calçada.

- Tarado não é? Sabe o que é que eu tenho para tarado não é? Disse isso e foi pegando uma tesoura de jardineiro e mostrando para a câmera enquanto fazia movimentos de corte com a mesma. É isso que eu tenho prá tarado. Cabra safado, sem vergonha, marginal, mostrando os troços para as moças é? Por que você não vem aqui mostrar essa porcaria para eu cortar fora?

Zé Carlos foi se refazendo e retomando a respiração para então falar novamente.

- Dona Maria, não se preocupe que eu vou falar com o delegado.

Zé Carlos funcionava muitas vezes como um elo entre a população mais pobre e a polícia. A polícia, assim como todo o serviço público, não trata bem a população carente. Zé Carlos sempre levava as requisições dessa camada da população diretamente para o delegado e por isso ele era muito solicitado. O delegado por sua vez, velho amigo de infância de Zé Carlos, tratava com carinho seus pedidos e aproveitava para se autopromover na televisão fazendo esses pequenos favores. Era o que poderia se chamar de uma troca justa, ambos ganhavam audiência e notoriedade.

Zé Carlos já tinha atendido, além de Dona Maria, mais quatro telefonemas: dois reclamando de tarados, um de um bêbado perturbador e outro de um ponto de tráfico de maconha. O mais engraçado tinha sido o do bêbado, pois Zé Carlos aproveitou o fato de um de seus patrocinadores ser uma industria de aguardente local para dar seu recado.

- Mandioquinha! Você está vendo? Beba com responsabilidade para não parar no xilindró. Mandioquinha era o assistente de palco dele e quem sempre levava a culpa de tudo de ruim no programa.

As luzes já tinham sido desligadas e a bagunça da mesa de Zé Carlos já tinha sido retirada quando ele finalmente resolveu se levantar para se arrumar. Ainda era cedo e ele pretendia almoçar no Miura com alguns colegas de profissão. O Miura é um dos mais tradicionais restaurantes da cidade que fica próximo ao Açude Velho, vizinho à Estação Velha e ao hipermercado Bompreço. Zé Carlos já estava pensando na dobradinha tradicional das quintas-feiras quando entrou correndo no estúdio um dos repórteres de campo.

- Zé Carlos, vá correndo para o Santa Bárbara que encontraram mais um corpo jogado na linha do trem.

- É mais um dos assassinatos do Mão Negra?

- Parece que sim Zé.

- Está bem, então vou lá correndo.

Os crimes de Mão Negra, como eram conhecidos, tinham se iniciado havia pouco mais de dois meses e este seria o terceiro da série. Esses crimes passaram a ser assim chamados em função de uns outros antigos cometidos por um esquadrão da morte denominado Mão Branca, responsável por inúmeros assassinatos de criminosos na década de 80.

A grande diferença destes crimes para aqueles de Mão Branca é que aparentemente as vítimas não eram criminosas, não tinham ficha na polícia e não tinham nenhuma relação aparente a não ser o fato de residirem há pouco tempo na cidade. Um fato macabro contribuiu para que os crimes passassem a ser denominados de “Crimes do Mão Negra”. As vitimas apareciam com as mãos algemadas e totalmente queimadas.

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O vento frio da noite entrou por dentro da camisa de mangas curtas de Augusto provocando um arrepio. O chope fica de frente para uma pequena praça muito arborizada e parecia que o vento ganhava força e se arrefecia mais ao passar por entre os galhos. A rua estava deserta a não ser pelo guardador de carros e por um cachorro que fazia jus à sua raça revirando um saco de lixo jogado displicentemente na calçada. Ao ver o movimento na entrada do bar o cachorro interrompeu o que devia ser seu jantar e ficou olhando meio que pedindo comida, meio que assustado. O guardador veio se aproximando devagar com aquele gingado típico de malandro e disparou:

- E aí milionário, tava guardando o carro do senhor, tem um trocadinho?

O guardador tinha mania de me chamar de milionário. Uma vez tinha perguntado porque e ele me falou que eu tinha aspecto de bacana. Tentei argumentar que era apenas um estudante mas não adiantou, ele continuou me chamando de milionário sempre que me via. Eu não ia muito com a cara desse guardador do Chope em particular. Ele tinha sempre um ar de marginal e ele mais exigia do que pedia seu “trocadinho”. As vezes eu dava e as vezes não, mas essa noite tinha ficado com pena dele por causa do frio e passei o trocado de praxe.

- Cadê a moto do senhor doutor?

Essa era outra briga ingrata. Tentei uma vez argumentar que eu não era doutor mas não adiantou por mais que eu me esforçasse. O guardador sempre perguntava por minha moto e eu sempre dizia que já tinha vendido. Não adiantava, na próxima vez que ele me via repetia a pergunta. Eu adorava motos e me arrependia amargamente ter vendido a minha última.

- Vendi já faz mais de quatro meses.

- O senhor viu o Mão Negra? Apareceu mais um morto hoje de tarde lá perto do Santa Bárbara.

- Foi? Não estava sabendo não. Depois olho no jornal alguma coisa.

Disse isso e saí andando junto com Cláudio para o carro dele de forma apressada para encerrar a conversa.

- Gutinho - Cláudio tinha mania de me chamar assim -, vamos dar uma esticada lá na Palmeira pra ver as meninas dançando?

- Cara, eu estou quebrado ao cubo. Não aguento mais nenhum copo de cerveja e acho que vou para casa. Além disso tenho aula amanhã cedo e não quero chegar de novo dormindo na sala senão o professor me mata.

- Então tá, mas acho que eu vou.

- Tudo bem, você me deixa em casa e vai para lá?

- Vamos fazer melhor, você me deixa lá na Palmeira e leva o carro. Quando eu sair de lá não vou ter mais condições de dirigir. Prefiro pedir um rádio-táxi.

- Ok.

Fomos caminhando até o carro enquanto Cláudio procurava a chave insistentemente no bolso da calça. O carro de Cláudio, se é que podia se chamar aquilo de carro, era um fusca 1976 vermelho. O carro em si era simpático, o problema era que vivia dando problema. Ele tinha uma mania de deixar a gente na mão nas situações mais diversas. Era comum termos que empurra-lo devido a um insistente e intermitente problema com o motor de arranque. Devido à sua cor ele tinha recebido o carinhoso apelido de Chapolin Colorado em homenagem ao jurássico seriado mexicano.

Entramos no Chapolin e sentamos no confortável banco fechando a porta rapidamente para espantar o frio. Não que Campina Grande fosse fria demais, mas em Junho costumava chover muito e à noite a garoa esfriava a cidade chegando facilmente aos 15 graus. Isso para um nordestino é muito frio.

Cláudio tentou acionar o motor do Chapolin mas ele se recusou a pegar. Sabendo do problema, nós frequentemente estacionávamos o carro em uma ladeira de forma a fazer o carro pegar no tranco na descida sem ter que empurrar. Cláudio soltou o freio de mão, pisou na embreagem, engatou a segunda e quando o carro ganhou um pouco de velocidade soltou a embreagem. O chapolin engasgou um pouco como que reclamando do mau trato, tossiu, expeliu fumaça de óleo queimado mas acabou pegando.

Passamos em frente ao prédio da Caixa Econômica, descemos em direção ao Ponto Cem Reis dobrando antes à esquerda. Cláudio notou que o combustível estava no fim e aproveitamos o sinal fechado para entrar no Posto Fechine para abastecer. Enquanto o frentista colocava os míseros 5 litros Cláudio iniciou finalmente uma conversa.

- Cara, semana passado acho que fiz uma cagada feia.

- O que é que você aprontou dessa vez?

- Entrei no computador de uma empresa alemã meio que sem querer.

- Você se protegeu de alguma forma?

- Não, eu nem ia invadir. Só estava navegando na rede quando achei esse site e topei como uma porta dos fundos mal disfarçada. Pensei que podia ter alguma sacanagem ou dados de alguém e entrei só para dar uma espiada. Foi bem rápido.

- Eles rastreiam máquinas lá?

- Eu acho que sim. Depois tentei entrar de novo e eles tinham limpado a área.

- Cara, eu já te falei para não entrar nessas frias. Não custa nada se proteger antes de entrar em um site desses para evitar ser rastreado.

- Se preocupa não que na segunda vez que fui lá eu fui protegido. Só espero que eles não tenham me rastreado e mandem alguma reclamação para a Universidade. Você sabe que eu já sou meio queimado lá por causa disso.

- Pois é, já falei para você tomar cuidado. Nunca entre com seu usuário e nunca diretamente de sua máquina. Mas quem sou eu para ensinar padre a rezar? E o que é que tinha lá?

- Sei lá, não deu para entender nada pois a maioria dos documentos estava em alemão. Tinha uns outros que estavam criptografados ou era informação puramente binária sem sentido. Não sei exatamente. O interessante é que tinha um documento em inglês sobre OVNIS aqui no Brasil.; aliás foi por isso que acabei chegando nesse site.

Cláudio era fanático por OVNIS, daquele tipo que chegava a fazer vigílias noturnas. Era associado ao clube local de aficcionados pelo assunto e frequentemente dava palestras sobre o assunto para alunos de escolas primárias e de segundo grau. Era interessante ouvir as histórias dele sobre essas famosas vigílias em que tudo que eles viam eram animais noturnos, estrelas, fenômenos naturais ou produto da imaginação fértil dessa turma. Eu pessoalmente não acreditava muito em qualquer contato extraterrestre dessa natureza apesar de acreditar em vida extra-terrena e sempre procurava uma explicação lógica para qualquer um desses avistamentos.

- Você sabe que o número de ocorrências na região de Campina Grande está aumentando sensivelmente nestes últimos meses e eu estou pesquisando para ver se é um fenômeno localizado ou não.

- Será que vamos ter uma nova Varginha? Brinquei referenciando o famoso ET de Varginha que tinha feito aparições poucos anos antes.

- Quem sabe? Espero que sim.

O frentista interrompeu nossa conversa perguntando se queríamos que verificasse o óleo. Como o dinheiro era contado nós sequer cogitamos o assunto e seguimos rumo à Palmeira. Subimos a ladeira do quartel do exército, passamos pelo prédio da Rádio Campina Grande FM e ao largo do Geremias. O bordel fica por trás de uma escola pública em um lugar completamente isolado. Seguimos por uma rua estreita de barro e finalmente nos deparamos com um grande número de carros.

Para entrar as pessoas pagavam uma entrada simbólica de R$ 1,00. Cláudio era um frequentador assíduo o que nos garantia “entrada franca”. Resolvi acompanha-lo após muita insistência e argumentos persuasivos.

- Esta bem Cláudio, tomo mais uma cerveja com você lá dentro.

Junto conosco tinha chegado um outro carro o que dificultou um pouco a nossa manobra de estacionamento. Tivemos que dar marcha ré por alguns metros e estacionar um pouco afastado da entrada. Descemos do carro e nos apresentamos ao porteiro que conhecia Cláudio muito bem.

- Oi seu Cláudio, como vai o senhor? Faz tempo que não aparece por aqui.

- Pois é Humberto - Cláudio conhecia as pessoas de lá pelo nome, depois daquela briga aqui preferí dar um tempo.

- É, depois disso o movimento diminuiu bastante.

Eles estavam se referindo a um tiroteio que tinha havido lá alguns meses atrás em função de uma discussão entre bêbados.

- E como está lá dentro?

- Esta cheio seu Cláudio, mas pode entrar que as meninas arrumam uma mesa para o senhor.

Dito e feito. Foi só passarmos do portão de entrada que as “meninas” se aproximaram gritando e correndo de forma estabanada.

- Claudinho meu amor que saudade!

A que foi mais veloz pulou literalmente nos braços de Cláudio. A outra se achegou no ombro dele abraçando-o pelas costas. Uma terceira ficou e olhando meio que sem saber o que fazer, devia ser nova na casa.

- Você esqueceu da gente, não apareceu mais por aqui. Estou chateadérrima com você.

- Oh meu amor, fique assim não... não deu para vir antes aqui.

- E esse gatinho é seu amigo? Acho que eu já vi ele com você aqui outras vezes.

- Esse é o Gutinho, meu amigão do peito e não se faça de boba que você já viu ele aqui sim, sentou no colo, chupou ele...

- Ah Claudinho, besteira viu? Eu só lembro de você meu amor, estava morrendo de saudade.

- E lá dentro Marcinha, com é que está? Tá tendo show?

Marcinha era outra conhecida de Cláudio. Eu me impressionava com a capacidade dele de lembrar detalhes como nomes de pessoas. O show a que ele se referia era a um possível stript tease naquele horário. Pela música e os gritos que rolavam me pareceu que o “show” devia estar animado.

- Está sim, acho que é a Juma que está dançando agora.

Juma era uma das prostitutas mais conhecidas e antigas do lugar e tinha ficado famosa pelos atributos glúteos e pela conhecida ferocidade com as unhas na cama, que lhe valeu esse nome de guerra, extraído de uma personagem de novela de televisão que se transformava em onça. Na nossa turma da Universidade circulavam os mais variados boatos a respeito de Juma, inclusive uma famosa orgia com três colegas do curso, que provaram das garras de Juma ao mesmo tempo. Quando ela falou isso eu finalmente me pronunciei e disse.

- Juma? Ah, então vamos lá dentro aplaudir a fera.

Eu ficava me divertindo com aquela situação toda e a “menina” que estava sobrando por falta de braços de Augusto se abraçou comigo e entramos todos. Normalmente as prostitutas se revezavam para receber os fregueses na entrada e caso não conseguissem nada com o freguês voltavam para fora para catar mais um. A presença de Cláudio no entanto, garantia fartura de meninas no colo e atenção por toda a noite mesmo que não saíssemos com nenhuma. Não sei o que atraia tanto as meninas nele a ponto de esquecerem o aspecto financeiro da noite e ficarem com ele largas horas apenas conversando e brincando. Certa vez tinha-o questionado sobre o assunto e me falou que o que ele dava era carinho, atenção e ouvia o que elas tinham para dizer. O fato delas serem extremamente carentes ajudava e ele sempre era bem “recebido” por elas.

Ao entrarmos, Juma estava apenas de calcinha, já tendo tirado toda sua indumentária que consistia de uma máscara de oncinha, umas luvas imitando pele de onça, um sutien e a dita calcinha do mesmo material. As garotas se demoravam mais com os seios a mostra e após tirar a calcinha o show terminava rapidamente após algumas reboladas mais sensuais e algumas aberturas de perna explícitas.

O palco era bem pequeno e tinha sido reformado após um incidente envolvendo, dizem as más línguas, o próprio Cláudio, fato veementemente desmentido por ele até hoje. Essas maledicências, contam que num dia em que Cláudio, ou essa pessoa não identificada, estava completamente chapado e Juma fazia em um show super provocante, ele teria invadido o palco e agarrado Juma no meio da apresentação. Mas não foi apenas agarrar, dizem que essa pessoa praticou sexo oral com Juma na frente de todo mundo gerando uma confusão generalizada com diversas pessoas tentando agarrar Juma invadindo o palco. O fato é que após isso, foram colocados alguns ferros pontudos na frente do palco para impedir o acesso ao mesmo. Não sei se as bruxas existem, mas que há, isso há. Em suma, não sei se Cláudio chegou a esse extremo de baixaria, mas que é possível é.

A música era um capítulo aparte no Bordel da Palmeira. O som era muito ruim, daqueles equipamentos antigos que se costumava chamar “três em um”. O repertório era sempre o mesmo e provinha, não de discos, e sim de fitas velhas e gastas nas quais o que mais se ouvia era um chiado persistente que me parecia pior cada vez que eu voltava lá. Neste momento tocava uma música que fazia parte desse repertório e que falava frases em francês ditas por uma voz rouca e sensual, das quais eu só entendia Je te ame.

- Seu Cláudio, seu Cláudio! - Era o tal de Humberto que vinha falar conosco e me tinha tirado do meu estado pensativo.

- Que foi Humberto?

- O Sr. veio acompanhado de outro carro ou vocês dois vieram sozinhos?

- Uai Humberto, viemos só nós dois por que?

- É que naquele carro que veio atrás do senhor estavam dois homens e eu estranhei porque eles não desceram logo. Pensei que era Polícia ou detetive particular querendo encrenca - era comum detetives contratados por esposas raivosas aparecerem no bordel para tentar dar flagrantes nos fregueses. Os dois caras ficaram um tempo dentro do carro, depois um desceu e foi olhar o carro do senhor e entrou de novo no opala deles.

- No meu carro? Estranho, vou lá ver.

Saímos eu e Cláudio para ver o que estava acontecendo, mas assim que colocamos os pés fora do bordel acompanhados de Humberto e de Márcia, que não desgrudava de Cláudio nem um segundo, o opala arrancou fortemente levantando poeira.

- É Humberto, acho que eles devem ter confundido ou então desistiram de entrar e se mandaram. Não deve ter sido nada.

- É, pode ser, mas eu não gostei do jeito deles não.

- Deixa pra lá Humberto. Vamos lá dentro?

Falou isso se virando para mim.

- Vamos que aqui está um frio de lascar.



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