Hélice Laguna de Truk
O cemitério de navios que mexe com corações e mentes. Com centenas de embarcações e aviões afundados, as águas da Laguna de Truk mexem com a cabeça dos mergulhadores de naufrágio
A tripulação do destróier Fumitsuki, da Marinha Imperial Japonesa, acreditou que poderia finalmente relaxar. O navio passava por uma das entradas ultra-protegidas da Laguna de Truk, deixando para trás as águas abertas do Oceano Pacífico, disputadas ferozmente com os Estados Unidos naquele início de 1944. O destróier, com seus 120 metros de comprimento e seis poderosos canhões antiaéreos, era a nave líder de uma das esquadras da 3ª Frota Imperial. Havia passado por maus bocados contra as forças australianas e norte-americanas durante a bem-sucedida invasão de Rabaul, em Papua Nova Guiné.

No mar abrigado de Truk, o Fumitsuki poderia passar pelos consertos dos quais tanto precisava. O destróier estava ao lado do navio de reparos Akashi, na manhã de 17 de fevereiro, quando a primeira onda de aviões norte-americanos surpreendeu a todos, sobrevoando a Laguna. Apenas uma bomba caiu perto o suficiente do navio para danificar seu casco. Mas uma chuva de fogo desabou sobre os japoneses por mais dois dias, impedindo qualquer socorro. Sem ajuda, o imponente Fumitsuki foi ao fundo.

A história do destróier é muito parecida com as das outras dezenas de navios japoneses afundados naquela batalha, embora ele possuísse armas, ao contrário da maioria das outras embarcações, que eram cargueiros. As tropas que as protegiam não esperavam tamanha ousadia do inimigo, pois todos consideravam a Laguna de Truk um abrigo perfeito. O "bastião impenetrável do Pacífico" era, na verdade, o interior de um atol com 80 quilômetros de diâmetro e apenas cinco entradas. Desde 1914, os japoneses vinham fortificando o local, reunindo o maior poderio de fogo antiaéreo de todo o Oceano Pacífico. Eles já haviam mostrado sua força, em 1942, ao repelir facilmente um ataque aéreo australiano. Para os pilotos aliados, sobrevoar Truk era sinônimo de suicídio.

Por tudo isso, a Operação Hailstorm - nome código dado ao ataque norte-americano - era extremamente ambiciosa. Mobilizou destróiers, cruzadores e porta-aviões, além de quase 500 caças e bombardeiros. O alvo só foi revelado aos pilotos no dia anterior ao ataque. Depois de dois dias e uma noite de batalha ininterrupta, cerca de 4.000 soldados japoneses estavam mortos, e mais de 70 navios e 400 aviões da Marinha Imperial estavam destruídos. Sem a ameaça de Truk, os norte-americanos puderam chegar facilmente às Ilhas Marianas e daí partiram para o avanço decisivo contra o território japonês.

A "frota fantasma da Laguna de Truk", como é conhecida por muitos de seus estudiosos e admiradores ao redor do mundo, permaneceu longe de olhos humanos até 1969, quando a Equipe Cousteau mergulhou no navio de transporte de tropas Aikoku Maru, deitado numa faixa que vai dos 40 aos 73 metros de profundidade. A história desse cargueiro é dramática: após ser retirado da frota civil japonesa e adaptado para combate, o Aikoku se tornou uma espécie de símbolo, por ter conseguido capturar e afundar várias embarcações inimigas. Durante o ataque a Truk, porém, o navio, com 150 metros de comprimento e 10.000 toneladas, estava carregado de munição. Por isso, uma única bomba lançada pelos norte-americanos foi suficiente para causar uma explosão colossal, que afundou o Aikoku em menos de um minuto, matou quase mil japoneses e destruiu, em pleno vôo, o avião atacante.

CORAIS ENTRE BOMBAS
A equipe de Cousteau percebeu que estava diante de um tesouro único. Aquele era, sem dúvida, o maior banco de recifes artificiais criado de uma só vez do mundo todo. Além disso, as águas por ali são sempre calmas, quentes e com boa visibilidade. A profundidade máxima dentro da laguna é de 200 metros e, para facilitar ainda mais o trabalho de especialistas, a maior parte dos destroços encontra-se acima dos 80 metros.
Esse tesouro biológico começou a ser estudado de maneira sistemática pela bióloga norte-americana Sylvia Earle, em 1973. Sylvia coletou amostras de várias espécies, calculou a velocidade de crescimento dos corais e raspou pequenas superfícies para conferir se ela se mantinha estável, 30 anos depois da primeira geração de organismos marinhos que se fixou aos restos da batalha.
Seu trabalho mostrou que alguns corais cresciam bem mais rapidamente do que se pensava e que o meio ambiente era capaz de absorver, sem problemas, o pequeno e contínuo vazamento de óleo dos navios. Graças a ela, também, desistiu-se da idéia de explodir todas as bombas e tanques de combustível afundados. A proposta surgiu nos anos 70, quando o mergulho turístico em Truk começou a se difundir e temia-se pela segurança dos visitantes. Hoje, é sabido que o mergulho no local é totalmente seguro, e que as explosões serviriam somente para destruir a fauna e a flora marinha e espalhar de uma vez toneladas de óleo pela região.
Ossada HumanaOs restos de faróis, templos budistas, construções militares e canhões antiaéreos nas ilhas são bem conhecidos, mas ninguém até hoje conseguiu fazer o inventário completo dos destroços embaixo d'água, que são a principal fonte de renda em Truk. Os divemasters lembram aos visitantes que a retirada de qualquer peça é punível com penas que vão de multas pesadas (cerca de 1.000 dólares) a prisão.
A precaução é boa, mas talvez nem fosse preciso tanto para proteger os naufrágios. Todo mergulhador que vai à Laguna volta abalado, não só pelo respeito que as ossadas humandas - presentes em vários navios - impõem, mas também pela visão de uma armada poderosíssima, inteiramente engolida pela natureza, que revestiu com as cores vibrantes dos corais e outras formas de vida a "frota fantasma da Laguna de Truk".

Matéria retirada da revista SCUBA Nº 13 por Maicon F. Santos em 02/06/97


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