Inesquecível
convivência aquela entre Conde, Charlô, Nesto e Chicote, no sobradão amarelo
de Taquari. As alcunhas citadas simplificavam os nomes extensos dos recém-graduados,
estreantes nos ofícios respectivos, na cidade interiorana.
Chegaram
isoladamente, porém, logo se reuniram, pois, sem encontrar lugar que os
hospedasse, mal se conhecendo, resolveram se juntar e alugar uma casa
provisoriamente. A moradia improvisada perdurou, transformando-se em residência
fixa, e a ela deram o nome de “República”.
O
mundo estava em guerra. As nações aliadas combatiam o nazi-fascismo enquanto,
pelo menos na pequena república, reinava a paz. Mas alienados não eram.
Acompanhavam diariamente os acontecimentos, sintonizando as notícias
transmitidas pelo rádio, sentados ao redor de uma longa mesa, na sala de
jantar. Vibrando juntos, comovendo-se com as perdas sofridas e com as vitórias
conquistadas em batalhas travadas nas terras longínquas. Viviam apreensivos,
temendo pela sorte dos soldados brasileiros, os “pracinhas”, que julgavam
despreparados para enfrentarem os horrores da guerra e o rigor do frio europeu.
Felizmente, respiraram aliviados quando após terríveis combates os inimigos se
renderam.
O
conflito tinha acabado, mas o hábito coletivo de escutarem o
rádio prosseguiu. Equiparando-se ao cinema, esse meio de comunicação
de massa também produzia os seus sonhos. Construía um universo fictício
amenizando a realidade, nas noites embaladas pelas novelas românticas que se
sucediam. O locutor anunciava que o programa era
uma gentileza da “marmelada branca marca peixe”. E o rádio-drama
intitulado Fatalidade, ou Alegria, entrava no ar. Algumas
protagonizadas por Túlio de Lemos, a voz formidável, e pela rádio-atriz Sônia
Maria, de fala macia que encantava os ouvintes. A ausência de imagens
estimulava a imaginação do público, que não desgrudava dos aparelhos pesados
e enormes, cheios de válvulas, parecendo engenhocas de outro mundo. A trama ia
sendo desenhada pelos ouvintes, ansiosos por darem cenários ao texto e rosto
aos personagens.
As
conseqüências econômicas dos tempos de guerra, contudo, ecoaram em Taquari. O
racionamento dos combustíveis dificultava a movimentação dos veículos.
Fizeram-se filas enormes para a obtenção de víveres. Produtos alimentícios
como farinha de trigo, carne bovina e leite eram vendidos com parcimônia.
A
sabedoria popular, porém, encontrava substitutos bem apetitosos, inovando o
cardápio. A escassez constituiu-se em mais um pretexto para Rosa, a senhora que
cuidava da República, variar o seu cardápio. Galinha assada ou ao molho
pardo no lugar dos bifes diários, e omeletes douradas, para usar os ovos
caipiras que as poedeiras forneciam em abundância, longe de qualquer crise.
Bolos de farinha de arroz, deliciosos, e o leite condensado em latinhas,
novidade do pós-guerra, que se batizava para que rendesse mais. A culinária
republicana virou atração e fez sucesso.
Porto
seguro dos jovens navegantes, lançados em busca das descobertas que renovam a
vida e fazem a modernidade, a governanta jamais se aborrecia. Divertia-se com
Chicote, o Dr. Francisco, cuja mania era sorver o cafezinho, lentamente,
distraindo-se com a colherinha, e depois reclamar que estava frio. Mas ela
ralhava sim, quando seus meninos se excediam na bebida, como era o caso de Charlô.
Já nomeado delegado de polícia local, ao se embriagar teimava em querer
libertar os infratores que haviam cometido delitos leves. Ela fechava a cara
para o Nesto, quando ele se trancava em seu quarto com a Neidinha, faltando ao
trabalho. Enciumava-se com o Conde, quando este emendava a madrugada, jogando
baralho com as três professoras já aposentadas e ainda virgens, que chegavam e
partiam clandestinas, agachadas dentro do Citroen a gasogênio, comprado
pelos quatro amigos.
Acontece
que um dia o Estado ordenou a transferência de Nesto para outras paragens.
Tinha sido promovido, mas ele nem se importou com isso. Preocupava-se com a
camaradagem compartilhada que não queria interromper. Recorreu em vão da decisão.
A cidade enviou uma lista de assinaturas dos cidadãos locais. Nem resposta
recebeu.
Inconformada,
a população organizou uma despedida. Uma festa triste, disfarçada pelos dias
de carnaval. Em passeata acompanharam-no desde a república até a estação.
Muita gente trajando fantasias coloridas, com seus bichos de estimação, cães,
gatos, macacos, até galos e galinhas, perus e patos, desfilou na rua Larga. Ao
som da bandinha, a comunidade demonstrava sua revolta do mesmo modo singular com
que conduzia a vida.
Nesto chorava comovido. Então, no interior do trem, ao primeiro apito de partida, uma reviravolta inesperada operou-se em seus pensamentos. Segundos após ele saltava de volta à plataforma. Desistira da viagem e de sua nova carreira. Tornou-se um agricultor bem-sucedido e nunca mais pensou em sair de Taquari. Casou-se com Neidinha e foi responsável por um aumento sensível dos habitantes da cidade. Contribuíram ele e a mulher mais os dez filhos nascidos do casamento. O velho sobrado amarelo continuou recebendo outros jovens republicanos. Neste momento, seis jovens moças estão morando lá, e cuidam muito bem dele.
Salette
de Almeida
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