Ainda me lembro do dia em que a vi pela primeira vez. Tinha os cabelos longos e
negros e a pele tão clara que lhe dava uma fragilidade pura e delicada. Nos casamos um mês depois.
Veio então com o casamento a vontade de ter um filho. Tentamos mas Laura não engravidava. Decidimos
comprar um cachorro que chamamos de Draco. Draco crescia como um membro da família. Era carinhoso e alegre,
mimado também, pulava e abanava o rabinho sempre que nos via.
Ainda era manhã quando o telefone tocou. O doutor Valter avisou que os resultados
dos exames estavam prontos. Laura estava no final do tratamento para engravidar e saiu ansiosa para buscar o resultado.
Fui esperá-la na varanda. Draco estava deitado na porta da sala quando ela chegou. Ele correu então
ao seu encontro abanando o rabinho.
Olhei para ela. Estava aflita e segurava o envelope na mão, com força.
- Abra, ordenou-me com sua doce e serena voz.
Rasguei o envelope ansiosamente. O resultado era positivo. Íamos ter um
filho. Vi no sorriso de Laura uma imensa felicidade. Também não pude conter minha alegria e durante
a noite toda comemoramos aquele momento.
Os meses passavam e a barriga de Laura crescia. Meu filho crescia.
-Acho que Draco está doente, disse-me ela enquanto arrumava o enxoval
do bebê.
De fato, as atitudes dele não era mais as mesmas. Ficava deitado o dia todo
perto do quarto do bebê, desanimado, com um olhar triste, só nos observando.
-Hoje ele não quis nem sorvete de morango, queixou-me Laura, angustiada.
Fui até a sala procurar o telefone do veterinário e, quando voltei
ao quarto, Laura estava caída no chão gemendo de dor. Levei-a imediatamente para o hospital e naquela
mesma tarde meu filho nasceu. Dois dias depois voltamos para casa. Draco estava deitado na porta. Ao nos ver, nem
se levantou ou fez qualquer folia, como fazia antes. Só abriu os olhos e nada mais.
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- Não demore. Ainda temos que buscar o bolo na padaria, disse-me Laura.
Sugeri que, enquanto eu fosse comprar os copos e as bexigas, ela buscasse o bolo.
-Está louco! E o bebê?
Bastava que trancássemos a porta. Em nosso bairro não havia perigo,
era um bairro tranqüilo.
Quando saímos, vi que Draco havia se levantado e não estava mais
na varanda. Fui rapidamente ao supermercado e, ao voltar, quando abri o portão, Draco veio em minha direção,
com a boca cheia de sangue. Suas patas deixavam rastros vermelhos por toda parte.
A raiva se apossou de mim. Guiado pelo ódio, peguei o revólver na
gaveta da cômoda e olhando fundo nos olhos dele, dei três tiros em sua cabeça. Quando Laura
entrou, eu ainda segurava o revólver. Ela não queria entrar em casa e ver nosso filho morto.
Fui então até o quarto. Quando abri a porta, ví que a janela
estava aberta e que um corpo estava estraçalhado no chão.
O bebê dormia tranqüilamente no berço.
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