Luciene Cristina Chiari
Sempre que possível, eu marcava
um encontro dominical com dois grandes comparsas meus: Papai Noel e o Coelho da Páscoa. Nos encontrávamos
geralmente no parque. Onde? Mais precisamente no banco em que as pombas nunca sentavam. Os animais são sábios,
e como nós os tratávamos bem, sempre deixavam nosso banco na mais perfeita ordem.
Coelho sempre chegava primeiro. Sempre
veloz e pontual, quando eu me aproximava para me sentar, lá estava já ele, todo serelepe, ansioso
por nos encontrar e contar as novidades da semana.
Papai Noel, ou Noelito, sempre chegava com algum atraso, colocando a culpa no trabalho. Usava uma roupa de moletom,
confortável, já que no final do ano sempre usava "aquela roupa velha, apertada e ridícula",
como ele mesmo dizia.
Meu horário de chegada nunca
era muito certo. Às vezes chegava por último, às vezes chegava primeiro, mas sempre chegava
com a mesma pergunta para eles, que nunca me respondiam...
- Dá um tempo - pulava e sussurrava
Coelho - Você sempre vem com esta... mude o disco!
Noelito me olhava, um misto de bonachão
e preocupado. Percebi que ele começava a se dar conta da coisa toda.
- Meu rapaz, nunca iremos responder
esta pergunta a você, porque simplesmente ela só faz sentido para cada um, quando se sente pronto
para responder a pergunta... Nunca fazemos perguntas que não queremos respostas.
- Eu sei, eu sei... - argumentava eu
- mas como posso viver, trabalhar, respirar até, senão tenho noção do que ocorre comigo
neste momento?
- Mova-se, mova-se então! Procure
respostas, não fique nos atormentando!
Neste momento, assustei. Coelho nunca
havia falado desta maneira, e muito menos gritado comigo. Noelito somente observava. Era isto, agora eu tinha certeza
que uma fase havia se encerrado... e talvez nossa amizade.
Comecei a lembrar de outros tempos.
Tempos em que Noel, Coelho e mesmo eu éramos diferentes. Tínhamos outro olhar... Nos olhávamos
de forma diferente. Eu mesmo mudei! Noel de moletom?
Que tempos são estes, que tempos são estes...
No início, era somente eu. Eles
não existiam; Coelho era apenas um animal, Noel... não era nada, não existia para este mundo.
Somente eu existia... E como me sentia bem! Outros também eram solicitados, mas era sempre a mim, sim, somente
eu, que todos, sem exceção, procuravam. Pediam conselhos, idéias, e eu os ajudava. Minha figura
era sempre renovada, pois novas gerações vinham a mim.
Mas o mundo muda... Gira, gira, e outros
vem... Primeiro, foi o Noel. Gostei dele. Sempre alegre, visitando a todos, entregando presentes... Nos tornamos
bons amigos. Afinal, praticamente trabalhávamos na mesma área.
Depois, veio Coelho. Foi difícil
ele se afirmar, tinha muita concorrência, mas com o advento do ovo de chocolate... Não tinha mais
para ninguém. E foi justamente aí que começaram os problemas. Eu falava como era possível
ovos de chocolate? Isso era jogo para ele se promover somente. Mas Coelho e eu tínhamos um bom relacionamento,
apesar de nossas diferenças.
Até aquele seu grito. Não
compreendi. Então eu não deveria me importar com o que as pessoas estavam fazendo a si mesmas? Fiquei
irado. Eu, sim eu tinha vindo antes de todos eles, eu que atendia os pedidos... E agora pedem porque colocam idéias
em suas cabeças, as TVs, rádios, propaganda! Nunca precisamos de propaganda! Noel tinha um espírito
de paz, harmonia entre os homens, Coelho representava o renascimento, e eu... Só queria que respondessem
minha pergunta:
- E o Amor?
Noel saiu de seu silêncio após
o desabafo de Coelho e disse me olhando no fundo dos olhos:
- Somos apenas símbolos. O que
os homens fazem de nós, depende somente deles. Daquilo que querem, vivem e acreditam.
Percebi tudo então, abaixei
a cabeça, e ele completou:
- Cupido... menino alado... voe para
o Olimpo, que lá é teu lugar.
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