A Bruna é a minha
melhor amiga, mas a gente vive em guerra, porque eu sempre quero tudo o que ela
tem e ela sempre quer tudo o que eu tenho.
Outro dia, a Bruna apareceu na escola de
óculos. Eram óculos de verdade! Vermelhos! Lindos!
Quando ela perguntou se eu tinha gostado,
disse que ficavam horríveis nela. Na verdade, eu queria um óculos igualzinho
aquele pra mim. Não, o meu seria ainda mais bonito. Por tudo isso, brigamos de
novo e acabamos ficando de mal.
Assim que eu cheguei em casa, reclamei com
a minha mãe que não estava enxergando direito o que a professora escrevia na
lousa. Muito atenciosa, ela me levou imediatamente ao oculista.
Chegando lá, ele me pediu para ler um
monte de letrinhas que, obviamente, li tudo errado, fingindo não conseguir
enxergá-las.
Logo na vitrine da ótica, avistei os
óculos dos meus sonhos: também eram vermelhos, mas tinham formato de
coração. Como mamãe é bem boazinha, comprou aquele mesmo que eu tanto tinha
gostado.
No outro dia, na escola, que sensação!
Quando a Bruna me viu de óculos também, ela ficou com uma cara... Mas como
estávamos de mal, ela não falou nada. Todos os meus amigos ficaram admirados.
Diziam que eu era uma sortuda.
Só a professora é que ficou espantada. E
eu também, quando percebi que não enxergava nada com aquilo. Era só colocar
aqueles dois coraçõezinhos nos olhos e tudo ficava meio embaçado, como se eu
estivesse dentro de um aquário. Meus olhos e minha cabeça doíam. Tanto que
não agüentei e tirei-os para limpar. Quando dei por mim, meu caderno estava
repleto de corações moldados pelo óculos.
Dona Berenice, a professora, ralhou comigo
ao me ver com ele nas mãos.
– "O lugar certo, já que você tem
que usar é nos olhos!" – ela disse.
Muito contrariada, recoloquei-o nos olhos
e tudo voltou a ficar turvo. Felizmente o sinal da saída soou e fui embora.
No dia seguinte, tratei de esquecer
aqueles malditos óculos em casa, mas não teve jeito, mamãe esbaforida correu
atrás de mim dizendo que eles agora faziam parte da minha vida.
O pior é que na escola, ninguém mais
ligava para o meu óculos. Eu também já estava enjoada deles. Precisava agora
me livrar daquela coisa. Mas como? Arquitetei um plano infalível e o coloquei
em prática no recreio quando "acidentalmente" eu caí e eles foram
parar longe.
Mamãe não gostou nadinha dessa história
e levei a maior bronca por isso, mas fiquei bem quietinha pois sabia que estava
errada. Ela voltou comigo ao oculista para fazer um óculos novo, mas dessa vez,
me esforcei para ler tudo direitinho e o doutor ficou meio desconfiado de mim.
Mamãe achou incrível uma correção tão rápida! Meu olhar angelical deve ter
comovido o doutor e ele, para minha sorte e alívio, não me desmascarou.
Depois de tudo isso, a Bruna chegou na
escola com aparelhos nos dentes. Eram lindos! Cor de rosa com os grampinhos
azuis...
O que vocês acham
que eu fiz?