Eu tenho, você não tem... ainda

  Simoni Pizetta, 4° ano de Letras 

A Bruna é a minha melhor amiga, mas a gente vive em guerra, porque eu sempre quero tudo o que ela tem e ela sempre quer tudo o que eu tenho.

Outro dia, a Bruna apareceu na escola de óculos. Eram óculos de verdade! Vermelhos! Lindos!

Quando ela perguntou se eu tinha gostado, disse que ficavam horríveis nela. Na verdade, eu queria um óculos igualzinho aquele pra mim. Não, o meu seria ainda mais bonito. Por tudo isso, brigamos de novo e acabamos ficando de mal.

Assim que eu cheguei em casa, reclamei com a minha mãe que não estava enxergando direito o que a professora escrevia na lousa. Muito atenciosa, ela me levou imediatamente ao oculista.

Chegando lá, ele me pediu para ler um monte de letrinhas que, obviamente, li tudo errado, fingindo não conseguir enxergá-las.

Logo na vitrine da ótica, avistei os óculos dos meus sonhos: também eram vermelhos, mas tinham formato de coração. Como mamãe é bem boazinha, comprou aquele mesmo que eu tanto tinha gostado.

No outro dia, na escola, que sensação! Quando a Bruna me viu de óculos também, ela ficou com uma cara... Mas como estávamos de mal, ela não falou nada. Todos os meus amigos ficaram admirados. Diziam que eu era uma sortuda.

Só a professora é que ficou espantada. E eu também, quando percebi que não enxergava nada com aquilo. Era só colocar aqueles dois coraçõezinhos nos olhos e tudo ficava meio embaçado, como se eu estivesse dentro de um aquário. Meus olhos e minha cabeça doíam. Tanto que não agüentei e tirei-os para limpar. Quando dei por mim, meu caderno estava repleto de corações moldados pelo óculos.

Dona Berenice, a professora, ralhou comigo ao me ver com ele nas mãos.

– "O lugar certo, já que você tem que usar é nos olhos!" – ela disse.

Muito contrariada, recoloquei-o nos olhos e tudo voltou a ficar turvo. Felizmente o sinal da saída soou e fui embora.

No dia seguinte, tratei de esquecer aqueles malditos óculos em casa, mas não teve jeito, mamãe esbaforida correu atrás de mim dizendo que eles agora faziam parte da minha vida.

O pior é que na escola, ninguém mais ligava para o meu óculos. Eu também já estava enjoada deles. Precisava agora me livrar daquela coisa. Mas como? Arquitetei um plano infalível e o coloquei em prática no recreio quando "acidentalmente" eu caí e eles foram parar longe.

Mamãe não gostou nadinha dessa história e levei a maior bronca por isso, mas fiquei bem quietinha pois sabia que estava errada. Ela voltou comigo ao oculista para fazer um óculos novo, mas dessa vez, me esforcei para ler tudo direitinho e o doutor ficou meio desconfiado de mim. Mamãe achou incrível uma correção tão rápida! Meu olhar angelical deve ter comovido o doutor e ele, para minha sorte e alívio, não me desmascarou.

Depois de tudo isso, a Bruna chegou na escola com aparelhos nos dentes. Eram lindos! Cor de rosa com os grampinhos azuis...

O que vocês acham que eu fiz?

 


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