" Pedalando nos Campos do Senhor... "
Manhã fria. Ainda que uma tênue névoa insista em cobrir o Santuário no pico da Serra da Piedade, o Deus-Sol já dispara suas primeiras luzes - ainda que tímidas, mas de um sedutor dourado. O clima de alto astral em comunhão com a concentração que deixamos transparecer através de nossos rostos, se completa com a Matriz de Nossa Senhora do Bom Sucesso, projeto de autoria de Manuel Francisco Lisboa caracterizando a 3ª fase do barroco em Minas. Toda esta aura nos inspira um clima gregoriano, provocando olhares curiosos das pessoas que passam, olham, e imaginam mil coisas de nós. Depois de " tudo in riba", bicicletas checadas, estávamos preparados para darmos partida rumo à Vila de Cocais. Muitas serão as subidas e descidas. O Espinhaço nos espera. Como bem disse Amyr Klink, o navegador solitário, "... um dia é preciso parar de sonhar, tirar os planos da gaveta e da cabeça, e de algum modo começar...".
Até atingirmos o vilarejo de Rancho Novo, já teremos a primeira prova de resistência com uma curta mas teimosa subida. Rancho Novo remanesce de uma antiga estação de trens da privatizada Vale do Rio Doce. A maioria de seus moradores teima em viver, pois a linha férrea, desativada com a criação da ferrovia do aço, deixou atônita e desempregada uma população de pouco mais de 300 habitantes.
Ao tomarmos o trecho para Água Limpa começam então as emoções das primeiras descidas, íngremes e acidentadas, onde é bom preocupar com a segurança, pois a trilha é bastante irregular, e parte dela pavimentada com as recicladas e grossas britas que formavam o leito da ferrovia. Vai requerer um pouco mais de habilidade caso se atreva a uma descida mais radical. - "Comecei a fazer esta travessia, de Belo Horizonte até a Vila de Cocais, passando e aprendendo vários caminhos. Esta é a trilha que tem os trechos mais seletivos, com muitos obstáculos naturais, chegando até a necessitar, para chegar ao cume do espinhaço, carregar a bicicleta, mesmo que por pouco tempo".
Um dos trechos interessantes é a Descida do Duende, com suas úmidas curvas, pois a mata, em grande parte dela, fecha-se, proporcionando um verdadeiro túnel verde. Seguimos depois por uma longa subida para chegar ao povoado da Água Limpa, uma bucólica e silenciosa vila, lugar ideal para um descanso. Aproveite para observar os contrafortes do Espinhaço que se mostram imponentes à nossa frente .
Depois de muito pedalar e passar por vários porteiras e "galhos de estradas ", chegamos até a fazenda do Sr. Oliveira. A partir daí, o trecho será totalmente percorrido em trilhas. - "Começa a subida da vertente oeste do Espinhaço. É uma trilha de passagem de animais e muito ravinada pela água da chuva que desce da serra. Neste momento se dá a inversão total nos procedimentos, pois agora o ciclista é quem vai carregar a bicicleta. É uma situação muito engraçada subir o Espinhaço carregando bicicleta. A vantagem é que após o sofrimento da subida, chegamos no alto da serra. Descortina-se então o visual das campinas do garimpo. Os matizes transformados pelas flores em um mágico caleidoscópio, é maravilhoso. Esta região possui um ecossistema ímpar, com uma vegetação tipicamente rupestre e arbustiva onde predomina a velósia - canela de ema, árvore de muita utilidade para os moradores da região; são várias as nascentes. Pode-se notar a transição da Mata Atlântica para o Cerrado. Há também os campos rupestres, presentes em altitudes superiores a 1000 metros. Nota-se na sua formação geológica a predominância das rochas classificadas como granito-gnaisses, xistos, filitos e quartizitos. Com relação à hidrografia, a cadeia do espinhaço serve de interflúvio entre as bacias dos rios Doce e São Francisco.
Depois de um visual muito deslumbrante e também de muito cansaço, chegamos finalmente à região das cachoeiras. É realmente maravilhoso o espetáculo de cores e movimento. A suntuosa cachoeira da Pedra Pintada é um convite à contemplação de tão imponente.
Depois do êxtase, é hora de ralação. A trilha que sobe, para atingirmos a estrada é a prova final de resistência. Muito íngreme e difícil, onde é necessário empurrar e às vezes carregar a bicicleta - de novo.
Chegamos então ao Sítio Arqueológico da Pedra Pintada. Um curioso abrigo sobre rocha onde os paleo-índios procuravam refúgio do sol forte, das chuvas e do sereno. Supostamente pelo ócio, ou mesmo por rituais, utilizavam técnicas rudimentares de pintura - misturavam uma argila ocre com sangue de animais, e também resinas vegetais nas mais variadas cores, para fazerem as históricas inscrições, reportando figuras antropomorfas e zoomorfas, datadas de 5 a 8 mil anos, segundo o Departamento de Arqueologia da Universidade Federal de Minas Gerais.
Testemunha da arte pré-colombiana, o sítio possui 122 pinturas rupestres, sendo a rocha parietal dividida em três painéis. O primeiro, o esquematismo, mostra o sistema de contagem e pontuação. O segundo, o do naturalismo, revela o sistema figurativista sobre a fauna primatológica da região. O terceiro é uma mistura do esquematismo com o naturalismo, mostrando a justaposição dos dois e apresentando figuras como a lua e o sol, signos e símbolos. Aqueles habitantes representavam através das pinturas, rituais sagrados como cópula, fecundação, partos, danças, crenças, guerras, caça e outros feitos. Não deixe de assinar o livro de visita e " moer uma prosa " com a amável pessoa do Sr. José Diniz. Pode até rolar uma quitanda - biscoito caseiro - com um cafezinho...
Depois da viagem arqueológica, pegamos a trilha final. Uma estradinha muito gostosa, com belas descidas, onde dá para atrever uma velocidade mais alta. Está próximo o fim da cicloviagem. - "Ao longe podemos avistar a bucólica Vila de Cocais; o contorno de suas barrocas igrejas, casinhas coloniais, chaminés saindo fumaça, cheiro de café no ar, quintais com arredondados pés de jabuticaba e folhas de bananeira ao vento "...
Disse o poeta: " Tudo vale até a pena, quando a alma não é pequena"...
Contatos para visitação, poderão ser feitos com a sede das Brigadas Verdes-Pedra Pintada, Grupo de Apoio Cultural e Ecológico, entidade ambientalista que luta pela preservação das riquezas naturais do santuário ecológico da Vila de Cocais. Telefones (031) 442.9836 / 452.7082, falar com Ivan Loyola. (031) 444.9593, falar com Dino. E também pelo e-mail: marialoy@net.em.com.br. Breve na internet, uma home page com mais detalhes desta cicloviagem.