Vamos fazer de conta que estamos numa universidade
Giordano Maçaranduba
- A universidade para muitos não passa de uma extensão dos colégios de segundo grau ou dos cursinhos. Para estes as universidades não passam de instituições de ensino, em que a convivência com o saber, as tardes, a convivência, a pesquisa, a extensão, a possibilidade de uma certa liberdade de atuação política (não me venha leitor com Política, argh! Pois esta é profundamente necessária, até mesmo o Aristóteles dizia que o homem é um ser político, que faz política até sem saber. Bom... se até o Aristóteles diz isso, porque não tomar a afirmação como verdadeira).
- A grande preocupação de algumas pessoas ( muita gente boa tem essa limitação) é restrita ao ensino ( temos péssimos professores, é verdade, mas não procuramos outras maneiras de adquirir conhecimento, pois a grande maioria de nós está acostumada com as fórmulas fáceis e os alfarrábios que sempre tem a resposta adequada às nossas perguntas, nos quais só seria necessário estudar, algumas vezes só decorar algumas situações práticas). Talvez seja por isso, por esse modelo de ensino (anterior a universidade, porque na universidade para quem quer moleza ás vezes nem o esforço de estudar é preciso) que tenhamos tanta certeza, que cheguemos a tantas conclusões definitivas, que não ultrapassemos a superficialidade.
- A superficialidade é facilmente registrada ou compreendida por esses métodos de grande prática, porém de pouca profundidade. Só é possível alcançar um nível mais verossímil com a pesquisa, qualquer que seja o método utilizado. Só a pesquisa, seja qual for, nem estou falando dos projetos de extensão ou dos projetos que são feitos devido a matérias de comunicação, nada disso todas essas são fundamentais, mas eu estou falando de um projeto que você se propõe a fazer durante o curso, estou de falando de cursos, congressos, pesquisas realizadas por você próprio para satisfazer sua curiosidade ou para angariar mais conhecimentos de um determinado assunto que você goste, algo assim, sei lá.
- Quem está limitado ao que a faculdade lhe dispõe, fatalmente sai com falhas terríveis na sua formação de ser humano, de cidadão, que é uma formação constante independente da universidade (agora não se pode negar que a universidade é um instante que dispõe muito mais meios para essa formação ativa). Por exemplo há diversos jornalistas que não passaram pela universidade tão ou mais competentes que os que passaram, evidente, como em qualquer outra profissão esses casos são exceção, e o são mais competentes justamente porque apesar de não ter passado pela universidade buscaram para si uma formação humanística que acabou sendo superior a de muitos formados ( o que não é nada difícil, apesar das oportunidades que a universidade oferece a quem freqüenta). Desculpe-me o leitor, como sou estudante de jornalismo, cito um exemplo de jornalismo, é minha área e me parece um exemplo mais evidente, se eu fosse aluno de alguma outra habilitação possivelmente eu citaria o exemplo dessa habilitação.
- Está mais do que claro de que a universidade tem graves problemas de ensino, até porque a universidade ao contrário do ensino médio não visa prioritariamente ( pelo menos não deveria) a embutir conhecimentos na cabeça do aluno, essa é uma função técnica ou tecnológica, não humanística. A universidade, pelo menos em suas primeiras idéias (lá na idade média e mesmo com a opressão da igreja e é claro que havia interesses por traz disso, sempre vai haver, bondade desinteressada não é um dos produtos mais disponíveis no mundo) seria o local em que se formaria o cidadão e os primeiros cursos eram de variedades, tinham conteúdos universalistas que iam de filosofia a matérias práticas de oficinas, de manufatura, matérias práticas em si, mas uma ampla variedade, que sim não era muito aprofundada das matérias básicas necessárias a se formar bons cidadãos. Muitos poderiam criticar a isso ( e com toda a razão) e denominar a isso de extensão, mas será que não é uma extensão muito maior a que há hoje do ensino dos professores ( em muitos casos a palavra ensino não tem nenhuma função para descrever o que fazem) e a passividade dos alunos em simplesmente assimilar o que lhes é dado.
- É incrível como num espaço tão democrático e tão conflituoso, não se aproveite esses dois dados tão fundamentais. Em nenhum outro lugar fora da academia (ó esse termo é pejorativo, pois na academia estão os acadêmicos, pessoas que estão numa espécie de clube em que só os que estão dentro são iguais, e são pessoas já com um certo status e que portanto não necessitam se esforçar muito, pois já estão num nível bastante cômodo, e muitas vezes só lhes resta coçar o saco, quando o tem. Não estou dizendo que a universidade é uma academia, gostaria até não fosse nunca, mas quase se sempre se comporta como se o fosse) se tem essas características tão "às claras". É uma pena que muito deixem de aproveitar a oportunidade ímpar que tiveram quando estiveram na faculdade para discutir, pesquisar, adentrar e se inteirar de tais características, pois além da universidade só há outro lugar onde esses conteúdos estão impregnados: a sociedade.
- Os acontecimentos, as virtudes e os vícios não ocorrem por acaso, não surgem do nada, não há como debitar todas essas ocorrências à virtu, todos eles tem uma co-responsabilidade de todos nós (não se pode dizer que possam existir vítimas sem malandros ou vice-versa, não existe ganhador sem perdedor, no caso único da guerra existem perdedores sem ganhadores, mas excetuando-se esse caso, vale o vice-versa). A sociedade ou as sociedades, nesse caso entendidos como grupos restritos, são construções coletivas, para quem está dentro é meio complicado eximir-se das falhas de suas corporações. É isso!!! Que legal!!! Achei!!! Corporação. Essa é a palavra mágica, a universidade num geral, mas especialmente a Facomb parece uma corporação, que tem reuniões, nas quais os alunos são mal avisados, existe todo um mecanismo de na última hora procurar alguém do centro acadêmico, reuniões essas que como o chá de qualquer outra academia ( como a brasileira de letras) geralmente não tem outra função que não seja a ritualística, é algo bonito, mantém o status, reforça a corporação. Não nego que existam algumas reuniões importantes, algumas até fundamentais, mas geralmente não se decide nada e função verdadeira é mesmo a do ritual.
- Agora é claro que tudo isso só colabora para criar o aluno, estudante, acadêmico (até em alguns casos ( existem vícios e perversões de todos os tipos na faculdade, alguns conseguem reproduzir perfeitamente os valores da academia)), bundão que tem toda essa preocupação, que é válida, mas excessiva, com o ensino, enquanto devia estar preocupado com muitos outros espaços que ele deveria preencher dentro da faculdade ou da universidade, de fazer a sua formação o que definitivamente vai ficar deficitária se ele não correr atrás. Não estou falando que não devemos lutar para melhorar o ensino em nossas faculdades, essa luta é fundamental e deve ser comprada em vez de ficarmos parados de mãos limpas e livres, mas estou falando que devemos ir além disso: lutar pela universidade e utilizar dela em todos os aspectos e tê-la somente como um parâmetro e não como um todo. O ideal é que trouxéssemos os conhecimentos adquiridos no ambiente da universidade que é infinitamente mais rico que qualquer curso para a sociedade, bem como o contrário pois não há como negar mútua importância de um conhecimento para o outro.
- Enfim, espero finalizar rapidamente esse texto, já que ele está muito longo, e dificilmente alguém vai ter paciência para lê-lo, não devemos pensar na universidade puramente como uma instancia de ensino, essa na minha opinião é seu aspecto menos importante, devemos pensar na universidade em um conceito mais amplo como o ambiente do conhecimento, não estou me referindo a local mas a estado. Na universidade devem se cruzar os diversos conhecimentos, deve-se produzir conhecimento e não reproduzir, repassar. O papel do aluno na universidade não é passivamente esperar pelo pouco conhecimento que os professores vão estender, mas procurar pelo conhecimento, debatê-lo, avaliá-lo, apropriar-se dele e interpretá-lo, transmutá-lo, a universidade não deve ser mais uma instancia de extensão, mais um local de criação, interpretação e discussão de saberes. Foi, acabou, é justamente isso que eu queria escrever.
Giordano Maçaranduba é estudante do 4o. ano de jornalismo da UFG.
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