Manifesto a favor das elites
José Luiz Dutra de Toledo
(...) “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce ” . _ Fernando Pessoa
Qualquer novo engenho tecnológico, qualquer acréscimo
ou promessa de melhoria na nossa qualidade de vida custa caro. E quem pode
pagar tão alto preço pelo que não existia? Só
os mais ricos podem inicialmente pagá-lo. Com o tempo, o novo vai
ser acessível aos pobres. Graças aos ricos que pagaram a
produção e o uso do novo recurso, mais tarde os mais necessitados
a ele terão acesso. Entendes-me agora porque neste manifesto elogio
os mais poderosos? Concentrando riquezas os ricos investem parte deste
excedente na geração de novas riquezas que, com o tempo,
vão sendo socializadas. Isto não ocorre só no Capitalismo.
Desde as civilizações da Antigüidade isto vem ocorrendo.
Na realidade, pobres e ricos são dois pólos existenciais
inseparáveis, constituem um eixo no qual perdura o humano, pleno
de ansiedades e inquietações. O que hoje as empresas aéreas
oferecem de mais sofisticado aos seus passageiros da primeira classe amanhã
será oferecido aos seus clientes da classe comercial. Como quando
éramos crianças, as roupas dos irmãos mais velhos
acabavam depois destinadas aos mais novos, a moda atual (vestida pelas
elites) chegará tardiamente às populações pobres
ou remediadas das periferias das metrópoles.
Em Espinho, cidade do norte português, o casal Odete/ Olavo recusa-se
a gerar filho tendo como justificativa para tal recusa o atual panorama
mundial. O músico e escritor português José Afonso,
que morreu em 1987, pouco antes de morrer ficou em dúvida quanto
ao título do seu próximo disco: “Galinhas do Mato” ou “Nem
o pai morre, nem a gente almoça. ...." Uma das escritoras do século
XX que mais me chama a atenção é a franco - indochinesa
Marguerite Duras, autora das frases que cito a seguir: “Escrevo para me
transferir para os meus livros. Para me aliviar da minha importância.
Para que o livro fique em meu lugar. Para que possa massacrar-me, caldear-me,
afundar-me na purificação, na parição do livro.
Para me vulgarizar. Deitar-me no meio da rua. E isso resulta. Quanto mais
escrevo, menos existo.” (...) “Escrever. Uma ocupação trágica,
quer dizer relativa à corrente da vida.” (...) “Escrever é
construir barragens contra a morte.” Em 22 de Dezembro de 1989, quando
eu completava meus 38 anos de vida, morria o teatrólogo irlandês
Samuel Beckett, para quem “ o maior delito do homem é o de haver
nascido”. Calderón de la Barca no século XVII já dizia
o mesmo. Segundo Beckett, “a figura trágica representa a expiação
do pecado original”. Entre o óbvio, o absurdo e a esperança
opto pela esperança de deglutir o óbvio e o absurdo, me salvar
e ainda poder contar esta minha façanha. Reencarno Prometeu. Presos
à vida recusamos o descanso da morte. Enclausurados, encurralados,
buscamos saídas num infinito desnorteante. Indeterminante. A nossa
cômica e beckettiana angústia metafísica. Solidão
é imensidão irreversível e corrente. Inevitável.
Espero, logo projeto. “O homem cede ao desejo/ Como a nuvem cede ao vento.
(...)” O amor é como o tempo, / Nunca tem finalidade.../ _Vem, demora-se
um momento.../ E o resto é sonho e saudade!”(...)” Sou como as velas
do altar/ que dão luz e vão morrendo.”(...)” Meus olhos que
por alguém/ Deram lágrimas sem fim,/ Já não
choram por ninguém,/ _ Basta que chorem por mim.” _Antonio Botto
(1897 / 1959) – poeta homossexual português.
Para mim, o melhor doce é o olho de sogra.
II
O olhar que você me ofereceu foi definitivo e, de agora em diante,
a minha vã e inútil barreira contra o tempo (que desbota
o brilho deste seu eterno e diamantino olhar) é a razão ou
o sentido para a minha existência. Seu olhar prenhe de cumplicidade,
sensualidade e hiper – afetividade me fez conhecer a essencial possibilidade
do orgasmo por um diálogo de olhares. O seu olhar, efêmero
e eterno, me fez imensamente feliz, irreversivelmente feliz e colocou-me
à beira do maior medo que poderia viver: o medo de perde-lo.
Perde-lo seria o mesmo que me conformar com o abraço da morte. Estar
falando com você me leva aos céus. Meus pés roçam
um no outro e nos seus e me sinto mais leve que tudo e, assim, ascendo
aos céus. Seus peitos rijos e peludos são as colinas que
ocultam o labirinto no qual pulsa e bate o seu amado coração.
Em seu tórax tenho o meu Olimpo e nunca ousarei profanar o céu
da sua boca. O meu corpo pede o seu corpo, chama o seu corpo. Meu coração
bate e espera e pede para ficar batendo junto com o seu coração.
Eu te amo. Amanhã apararei minha barba para te ser mais atraente.
Sonho viver com você um longo amor... atemporal.
III
Eu nunca fui ao Paraguai e nem sei se lá ainda irei.
IV
Quinhentos anos engendrando labirintos insolúveis... Hoje
temos um país tão trágico que teremos de nos re-implantar
novos corações, novas medulas e novos cérebros para,
pelo menos, encararmos nossos desafios e impasses, dilemas seculares capazes
de nos inviabilizar como povo ou como país. Em volta de Brasília
prolifera um inferno social mais explosivo que os que temos e conhecemos
em torno de Belo Horizonte, de São Paulo, do Rio de Janeiro, Salvador,
Belém do Pará, Recife, Porto Alegre e Fortaleza. Se
Dante Alighieri tivesse a mínima idéia do inferno que estão
em gestação nas cidades e nos sertões brasileiros
já na Idade Média os hereges já teriam suscitado a
hipótese da inviabilidade da espécie humana.
V
Nossas elites têm tanto medo dos desesperados porque certamente
sabem que na hora “h” ninguém verá saídas e, assim,
vai ser um “deus nos acuda” do qual só sobreviverão os que
encararem uma situação de “salve-se quem puder”. Deus não
acudirá ninguém. Não agüento mais estas preocupações
anuais com minhas declarações de renda e seus prazos, conteúdos
e restituições. Todos os anos a mesma coisa. É demais.
VI
Nunca nos esqueçamos: Carmen Miranda, o ícone feminino
do Brasil no século XX, era portuguesa. Boquiaberto contemplo as
palavras perdidas e as idéias diluídas. (....) Só
porque te conheci e pude te tocar e apalpar nu, aninhar-me em seu peito,
já me considero eternamente satisfeito. Mesmo que nunca mais volte
a vê-lo nunca mais esquecerei os momentos que juntos ficamos. Seus
cheiros e a consistência física e metafísica dos nossos
corpos e os ímpetos e anseios que nos enlevavam nunca poderão
ser esquecidos ou banalizados. “Há efetivamente sonhos que elevam
a matéria, outros que a adormecem ainda mais “. – Afonso Botelho.
(...) “Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Além,
que me consome,
E este querer grandeza são
seu nome
Dentro em mim a vibrar,
E eu vou, e a luz do gládio
erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não
temo o que virá,
Pois, venha o que vier,
nunca será
Maior do que a minha alma.”
_ fragmento do poema Mensagem – Invocação a D.
Fernando – de Fernando Pessoa.
Não devo me preocupar com a durabilidade, mas, sim, com a intensidade
do que sinto, aqui e agora, meu amor!... Um sheik com uma camisola de organdi
azul celeste, uma doceira ao lado de um tacho de cobre cheio de doce de
leite fervilhante como larva vulcânica, um museólogo veneziano
e um entregador de frangos me convencem que Eduardo Waack é um impressionante
cronista de Matão / S. P. mas não me convencem de que seja
melhor ser alguém de mentira do que ninguém de verdade. Ninguém
é comum, já cantava Caetano Veloso.
VII
O caráter crônico da dor que separa o eu e o nós
se aprofunda ainda mais numa época na qual não cremos nem
no indivíduo nem que a massa salva. O nosso pão dos anjos
é mais metafísico que água e trigo triturado. Os dirigentes
do Partido Comunista Português e seu líder máximo,
o intelectual Álvaro Cunhal, duvidam que muitos dos seus militantes
possam resistir à tortura e à prisão. Os comunistas
de hoje recusam o martírio e a dor. Devem adorar um air-bus, um
shopping e um pub, não? Se eles não acreditam em pecados
porque não gozariam hedonistamente os sofisticados prazeres do capitalismo?
(...) Ele não me deu seu telefone nem seu endereço (ou
direção, como dizem os portugueses) ... Mas eu só
sabia que morava numa rua central na qual trafegam alguns ônibus.
Eu vivo a esperar algum telefonema seu. Algum sinal de vida dele, alguma
manifestação amorosa de sua parte. (...) “É
impossível ficar sem nenhum amor, mesmo que só existam as
palavras, o amor vive-se na mesma. A pior coisa é não amar,
penso que isso não existe”. _ Marguerite Duras.
Torero y Manola, mariquita e marimacho, bofe e bichonca ( a bicha que
ronca) viviam um crepúsculo de metamorfoses. Em cima da montanha
do sonho. Badalona e Conxita testemunharam a celebração de
núpcias gays dos cisnes num lago com águas cor de cobre.
E eu admirei a arte de Antoni Clave, catalão. É belíssimo
o trabalho Maculatura (92 x 73 cm.) Vivace, feito/ pintado (?) criado em
1960 por J. J. Tharrats, também artista plástico nascido
na Catalunha. Impressionou-me muito o trabalho Divissa – técnica
mista – criado em 1982 pelo catalão Joan Pere Viladecans (dimensões:102x90
cm.). O mesmo ocorreu-me diante do objeto escultórico Cap concebido
em 1983 (com ferro – 60x32 cm.) por Jaume Plensa, nascido em 1955 em Barcelona.
Tharrats nasceu em 1918 em Girona. Estive por 11 noites em Lisboa e não
fui a nenhuma coladera!... Como perdi!.. Mas, numa madrugada de domingo
nadei numa piscina de águas frias. Querias engatar-te a mim? Eu
conheço o seu sorriso Colgate, maroto.
VIII
Desnuda teu corpo de toda norma. Ata-te ao prazer. “Perdi. Apostei no
ser humano. Acreditei que nele havia uma parte de Deus. Hoje me encontro
doente e só. Ao menos uma coisa me ficou clara e certa nesta situação:
a desilusão. Prepara-te para os dias que virão, para o tempo
que me exige: adestre-se a não ser. Morte que forma parte da vida
e vida que forma parte da morte.” _ Severo Sarduy – escritor e intelectual
cubano, homossexual, neo-barroco, que morreu exilado em Paris em 1992 padecendo
de SIDA. Não se pode impedir o sofrimento, me disse James... Algumas
vidas são mais importantes que outras. Umas mortes impressionam,
outras são invisíveis. Nós somos gente em apuros.
Não lutamos. Então saímos do hospital Saint Vicent
porque tudo já estava dito. Era o princípio do fim do mundo,
porém nem todos se davam conta. Uns morriam. Outros andavam muito
ocupados. E outros limpavam suas casas e viam na televisão um filme
de guerra. “Não é a consciência a que determina a vida,
mas a vida que determina a consciência”. _ Karl Marx, citado pelo
psicanalista materialista-dialético Wilhelm Reich. No umbral da
minha vasta nave, detive-o, mas, num golpe imprevisível e sem aviso,
adentraste-me. Depois acendi um charuto, abri uma cerveja e fiz amor durante
o resto dos meus dias, me contou José Frias de Madrid. Na Espanha,
os imunodeprimidos receberam a curiosa designação de “sidosos”.
Os preços do corpo e da vida são inestimáveis,
impagáveis. O sado-masoquismo é uma arte teatral erótica
na qual senhores e escravos esforçam-se ao máximo para satisfazerem-se.
[fragmentos pinçados aleatoriamente do Analzine – de um Plumazo
– el fanzine de La Radical Gai de Madrid, em sua edição de
Mayo de 1994, cada exemplar custava 250 pesetas. “Meu corpo é meu
lado errado/ minha voz é meu esquecimento/ meu peito é o
maior momento/ da vida que hei pecado. / Minha alma é que é
degredo / dano de mim e tormenta/ fera bruta, se alimenta/ da danação
e do medo./ Mas como alcançar resguardo/ do sonho se ele escapa/
e foge de qualquer tapa/ da sorte ou destino tardo?” (Cf. in : Auto do
Descobrimento: o romanceiro de vagas descobertas – Editora da Universidade
Estadual de Santa Cruz – Bahia – 1997). (...) “Difícil olhar para
a origem, difícil vê-la com clareza”, os vestidos de minhas
bisavós sumiram no chão dos nossos quintais, seus broches
reluzem nos céus noturnos da nostalgia silenciosa e irrevogável
dos vaga-lumes, seus temperos e segredos permanecem em nossos livros de
receitas e seus perfumes subiram aos céus na hora em que o padre
incensava o Santíssimo Sacramento... “A origem insistentemente se
esconde, ela estranhamente resiste à luz, parece sonho, parece neblina,
parece sombra, tudo que não quer se entregar, tudo que se desfaz
perante a mão, tudo que flui perante a presença, tudo que
escurece quando outro entra, a origem não fala sequer consigo mesma,
se insistimos em falar dela, falamos de nós mesmos, do que pensamos
pensar que é a origem, porque no fundo não pensamos, porque
no fundo nos sabemos enredados no trágico silêncio da origem,
impossibilitados de pensar, fadados a imaginar: a origem nos liberta.”
_ Anelito de Oliveira, editor do Suplemento Literário Minas Gerais
– Belo Horizonte – Fevereiro de 2000. Os vultos das centenas e milhares
de almas dos nossos ancestrais retomam os seus trajetos e estradas e levam
balaios de cravos orvalhados, dálias semi- murchas e rosas desabrochadas
e efêmeras para as cruzes que margeiam estes seus percursos e que,
desde outrora, encontram-se emersos numa densa neblina. Cenário
nebuloso e indevassável.
IX
Como consumidor diabético e cidadão brasileiro, reivindico
junto a todas as redes brasileiras de supermercados a oferta, em suas gôndolas,
do saboroso doce de morango sem sacarose, com frutose, tolerado por diabéticos,
da marca Da Terra, encontrado por mim numa loja do supermercado Pingo Doce
na Estefânia, bairro de Lisboa, agora em Janeiro de 2000 e dos bombons
diatt argentinos da marca Duitt. Delícias inesquecíveis,
gente diabética do meu Brasil!...
Uaauu!!!! Que surpraise!!!!! Ai que altura, my God! Não acredito!
A Catedral de Toledo é tão alta como os edifícios
das nossas maiores metrópoles!... Os edifícios medievais
chamados catedrais eram tão comuns na península Ibérica
que é difícil encontrar uma cidade medieval espanhola ou
portuguesa que não tenha a sua. Outra coisa que me estarreceu: como
conseguiram restaurar tão bem estes prédios da Idade Média
e até românicos depois da dilacerante e destrutiva guerra
civil espanhola entre 1936 e 1939!.... Um dia desses, li no Estadão
que o emblemático Luis Buñuel era aragonês e, como
tal, tão obstinado e irônico quanto o seu povo. Vivendo e
aprendendo... Além de Zaragoza ser a capital de Aragão, também
fiquei sem entender porque nomeei a nossa cadela vira-lata de Lanúcia
quando soube, há poucos meses, que o aragonês Juan de Lanussa
no fim do século XVI se insurgiu contra o imperador Filipe II e
por sua ordem centralizadora foi decapitado em Zaragoza. E ainda mais gozado
era o lance de eu chamar o amado finado (e totêmico) Aragão
de Múrcio, ou Murcinho, meu ursinho... e, lá na Espanha existe
a cidade de Múrcia.... Inconsciente coletivo? E vejam só
mais estas: Goya, o profeta fantasioso dos pesadelos de Tristana e de Viridiana,
também era aragonês. E Amália Rodrigues, a maior fadista
portuguesa, idolatrava Fred Astaire!...
X
Não me sinto atraído apenas pelo seu corpo, amo-o por
inteiro. Amo-o com o mesmo ardor místico dos amores vividos na clausura
monástica por São João da Cruz e por Santa Teresa
de Ávila. Seus olhares, a maciez aconchegante e muscular do seu
corpo, seus cheiros, seus pés com talco, seus pêlos e seus
carinhos me cativaram pelo resto da minha vida. Acredite.
“O pai que desejei exilou-se num retrato. O pai que em outros persigo
é saudade a que me entrego” ._ Augusto Massi.
“Pois o delito maior do homem é haver nascido”, sentenciou Calderón
de La Barca.
“Paixões sem verdade, verdades sem paixão, heróis
sem heroísmo, história sem acontecimentos; desenvolvimento
cuja única força motriz parece ser o calendário, cansativo
pela repetição constante das mesmas tensões e das
mesmas calmas”. _ Karl Marx in : 18 Brumário .
Não agüento mais consultar a toda hora o nosso lunário,
visto que me é difícil encarar e optar entre ser alguém
de mentira e ninguém de verdade, pois entre to be or no to be, entupi-me
de tupi e só o nada consigo engolir. Cadê a minha lira dos
vinte anos?
“Parece, infelizmente, que sentimos uma cega atração
pelo devoramento do que nos resta e nos sobra e nos envolve: a vida. Eis
uma de nossas pulsões de morte”._ Luis Eustáquio Soares in
: O pós – humano – S. L. M. G. – Fevereiro 2000 .
As eternas gargalhadas das caveiras, em busca dos botões e abotoaduras
perdidas no patético gesticular fascista dos seus punhos, impossibilita-as
de varrerem as grades das suas costelas, o nosso primordial claustro ou
original ninho ou baú de ossos e perceberem o que possa estar alojado
além ou debaixo das frestas de nossas portas ou das nossas muralhas
visigóticas ou sarracenas.
Castraram-nos, tiraram o nosso pau Brasil!... Fizeram de nós
um país eunuco. Atentemo-nos para o legado caveirístico desde
a aurora da modernidade osso e dental: “Necrofilia: colonizar é
instituir um amor mortal à morte, à mãe que vai morrer,
ao outro que pode morrer. O genocídio de sempre, de ontem e de hoje,
também se mata. Somos todos assassinos. Nada é circunstancial.
Com Edward Said, o implicado transforma-se em implicante, o assassinado
em assassino. Todo mundo morre com a morte alheia, nos assevera Luis Eustáquio
Soares, Sebastião Nunes, Sartre e José Luiz Dutra de Toledo
et allii. Descobri Eros em Thanatos e vice-versa. Não ser ninguém
é ser tudo. Ser anti-código, já que o que é
pode não ser. Já não escrevo mais cartas. As destinatárias
e os destinatários das minhas epístolas sucumbiram num jardim
de cinzas e eu nele fiquei pasmo como um morto-vivo incrédulo diante
das proezas sorrateiras da morte. Saudades de Severo Sarduy!... Oh
anjos marinheiros servos dos Templários no alargamento dos horizontes
da Cristandade!.... Um nariz de cera anasala a minha narrativa do que só
se passa em meu interior e, comovido, reclamo: _Nem sei dizer, Senhor,
o espanto e o pasmo e os medos e a comoção....” _ Manuel
Alegre in : Nova do Achamento – Atlântico - Lisboa – Dom Quixote
– 1989. O orgasmo espásmico da descoberta do Outro e a volúpia
ante o preço dos corpos dos outros, corpos sem cabeças nas
imagens eróticas da internet me sugeriram a embriagues com os perfumes
das flores do mato. As elites descobrem, agem, atravessam oceanos, possibilitam
e destroem novos mundos.. pulam pelos ares de uma margem à outra
os maiores ou todos os oceanos deste planeta em air-bus poderosos e trovejantes.
As elites ruflam seus tambores tribais numa dança mortal. O marinheiro
negro João Cândido, o Almirante negro, liderou a revolta contra
as chibatadas impostas aos marinheiros do seu tempo, era viril mas gostava
de bordar como uma mulher ou como Antonio Bispo do Rosário? Era
revolucionário e insubmisso e aderiu fervorosamente aos postulados
integralistas. Até Dom Helder Câmara foi enfeitiçado
pelo totalitarismo medieval dos discípulos de Plínio Salgado!...
Nossos textos e nossas artes são cópias mais ou menos fiéis
dos modelos imaginários e estéticos que compulsivamente,
obstinadamente, recitamos. Cópias criativas e distorcidas pelas
nossas memórias. Além de o homem europeu ser quase um fóssil
morto-vivo numa placenta bio- tóxica, a Europa é a própria
falta de espaço. Falta espaço nos pequenos restaurantes e
nas residências, nos museus, no metrô, nos comboios, nos cemitérios
e nos bares, livrarias e praças públicas. E até nas
casas de banhos as banheiras são tão pequenas como as antigas
bacias usadas pelos pobres brasileiros há cinco décadas!...
Nós somos índios e nossas banheiras são nossos rios
e córregos encachoeirados, nossas banheiras são nossas praias.
Aqui os índios deixaram de existir, aqui os negros se desafricanizaram
e os europeus se deseuropeízaram. Assim, acreditou Darcy Ribeiro,
surgiu o mestiço, fruto da terra arrasada pelo vazio de identidade,
a tabula rasa na qual operaram os jesuítas. E eu, filho desta lâmina
laboratorial de cruzamentos étnicos e culturais, voltei 500 anos
depois ao cenário de onde partiram os litros de sangue, as carnes
e os ossos que me originariam séculos e gerações depois.
O meu tio português César Miranda, ao chegar a estes Tristes
Trópicos, foi atacado por uma horda de saúvas enquanto cagava
no mato e, sem saída, gritava: “_Comam tudo, desgraçadas!
Comam tudo, desgraçadas!...” . Após séculos de migrações
transoceânicas me sinto um sobrevivente, um Drácula quase
devoto. Temi o lastro bactericida das pombas infelizes do lisboeta Largo
Martim Muniz. Também senti o mesmo pavor diante das que esvoaçam
na praça Marquês de Pombal em Lisboa, claro!... (...)
Basílio da Gama foi um esteta sofista? _ indago-lhes, caros
e extenuados leitores. O Marquês de Pombal foi o arrimo de família
da Coroa Portuguesa. O nosso Marquês de Pombal anti-clerical foi
Monteiro Lobato, arauto da nossa conservadora e aconchegante identidade
de netos da augusta e enciclopédica dona Benta, a sábia.
Abaixo o autoritarismo europocêntrico e pseudonacionalista dos modernistas
brasileiros!... O cheiro do amor é indescritível. Tudo
que é gostoso é intransferível.
José Luiz Dutra de Toledo é historiador
formado pela UNESP.
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Luiz Dutra de Toledo ou para a direção
do jornal.
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