Viver sem um pai é viver sem desejo?
José Luiz Dutra de Toledo
“Andro” é macho e “Gines” é fêmea e os andróginos
são seres duais, barrocos, luminosos e velados, machos e fêmeas,
sagrados e profanos. Meu prepúcio são meus lábios
vaginais e seu clitóris é seu pênis. Eu sou, em mim
mesmo, meu pai e minha mãe, meu macho e minha fêmea, Deus
e Satã, uma perna esporrada, uma perna cabeluda, uma perna com meia
de seda negra ejaculada, panturrilha e calcanhares voluptuosamente barrocos,
escada e deserto, mar e rochedo, convexo e côncavo, olhar e cegueira,
céu e inferno, Amália Rodrigues e Caetano Veloso, eu sou
lesbiano e travesti 9a um só tempo) como o foi Pierre Molinier (Bordeaux,
1900-1976). Meus pés cheiram a queijo parmesão. E meus calcanhares
cascorentos e animalescos provêm do doce de leite e de outras delícias
por mim vorazmente sorvidas, guloseimas que devorei sem paciente saboreio
e com apressado paladar, insaciável como um Prometeu, que não
queria só a caça, mas também o fogo para assá-la.
Não há representação inocente. Entre o real
e o simbólico não é mais necessário estar,
basta que se deseje. O mercador babilônico de perfumes surpreendeu
sua mulher traindo-o com um negro e decepou as cabeças dos amantes
adúlteros e colocou a do negro no corpo de sua finada mulher e a
de sua insatisfeita esposa no corpo acéfalo do seu amante. Celebrava-se,
assim, a verdadeira lua de sangue que paira sobre o Velho Mundo. Eu desejo
penetrar-me, eu desejo ser penetrado por mim mesmo, felar a mim mesmo e
ejacular em mim mesmo ou, se possível, dentro de mim mesmo. Eu sou
macho e fêmea e sei tudo sobre a minha mãe. Estudo sobre a
paterna geometria de uma tensa constelação paternal ouvindo
tristes fados em uma invernal Lisboa. As escuras igrejas barrocas de Lisboa
e do Porto levaram-me a sentir-me em mouras cavernas de tesouros reluzentes.
Não existe mito sem delito. Não existe o corpo. O corpo não
é real. O corpo não é só real. O corpo também
encerra uma dispersão de exaustos órgãos num platônico
labirinto de lugares viscerais, distâncias introspectivas, percursos
de peregrinos, funções e nichos de dejetos, sêmen,
enzimas, resinas e hormônios desarmônicos entre naves e colunas
ósseas. E no fundo de tudo isto um caótico magma ardente
de uma totalidade confusa. Existe também um corpo imaginário
sem órgãos. Um corpo virtual. O corpo é, ao mesmo
tempo, unidade de ação e pensamento. A dolente agudeza, que
arrepia-me como um raio a perpassar fulminantemente minha medula virtual,
encontra aconchego e sereno embalo em meu autônomo e universal espírito.
Toda enfermidade pertence a uma época. Toda época é
um depósito ondulado de nossas vidas psíquicas e de nossas
almas penadas. Toda doença é, assim, um acontecimento de
ordem técnica e que, portanto, expressa um momento, inclusive é
a manifestação de um “progresso” civilizatório. (
Cf. in: BREA, José Luis – SIDA : El cuerpo inorgánico
– Revista Acción Paralela – España – 2000). Os cerimoniais
terapêuticos dos imunologistas no tratamento dos imunodeprimidos,
bem como o estágio do desenvolvimento de uma tecnologia cyber para
a relação do humano com a vida, são fontes reveladoras
do imaginário mítico de nosso mundo pós-moderno (
CF. in: SCHAMA, Simon – Paisagem e Memória – São Paulo –
Companhia das Letras – 1996), ou do nosso mundo neo-barroco. A enfermidade
é um fato social. Toda doença não é outra coisa
que uma pura e efetiva produção de sintoma, escritura fragmentária
de um desnudamento. Um transbordamento ocorrido sob a ação
de uma pressão centrípeda que move e amplia nossa constelação
significante. Nossas paixões e anseios de perenidade marcam nossos
imaginários com traços e linhas pateticamente expressivas.
A enfermidade é uma propensão ao inorgânico; assevera
José Luis Brea. As dimensões sociais e simbólicas
das doenças de cada momento histórico legitimam as reivindicações
dos afetados contra o corpo social, contra os representantes da sociedade
na qual vivemos (e morremos). Câncer, SIDA ou AIDS, acidentes automobilísticos,
video-internetmanias compulsivas, paixões nostálgicas em
tardes domingueiras, obsessão por visitar museus em manhãs
de domingos, cartorialismos e burocracias curriculares ou escolares, calos
nos pés ou mania de políticos que escondem em seus bolsos
suas mãos sujas, desnutrições e carnificinas na África
e na Ásia e na Europa e nossos instintos violentos e assassinos
são enfermidades contemporâneas e policlassistas. Todo o nosso
mundo está mergulhado numa imunodeficiência adquirida que
se alastra por toda a ordem inteligente deste planeta e em seus impulsos
civilizatórios viróticos. “Imunodeficiência: carência
de argumentos para vencer o impulso desagregador. Incapacidade do sujeito
para regenerar suas forças de coesão interna. Incapacidade
do sujeito para autoproduzir-se. Incapacidade do sujeito conservar-se em
si. SIDA: autêntica enfermidade da espécie humana, de nossa
época. Doença ocasionada pela impossibilidade do indivíduo
sentir-se parte de uma espécie, de um gênero 9o humano). SIDA:
um patrimônio da humanidade, talvez em seus últimos dias”.
_ José Luis Brea. Falhas generalizadas em nossas ordens simbólicas,
sintomatização da impresença do outro. A inidentificabilidade
do outro. A ruptura da sociabilidade. Aí nasce a praga, a peste...
aí dorme e pulsa Drácula, o eterno recluso. Uma indefinição
cultural e seus terríveis efeitos em nossas vidas... Eu quero comer
o queijo cascorento dos seus calcanhares. Também a globalização
é a contaminação de todos os lugares. “A SIDA
liquida a ilusão de uma linguagem que não seja ideológica.”
(Cf. in. BREA, op. Cit.). Sejamos divulgadores como Voltaire o foi. A peste
global traz a dissolução dos laços sociais e das noções
de lugares. Não é casual que a AIDS seja transmitida durante
os rituais nos quais o sujeito (pela droga ou pelo sexo) socializa seu
gozo limite, sua experiência de pertencer a uma coletividade. Socializa-se
a morte do sujeito. Inviabiliza-se mais um projeto de subjetividade. Inoculações
suicidas, inconseqüentes ou irresponsáveis? Não!...
Saiamos do universo da culpa e do pecado mas não caiamos nas galáxias
da permissividade. Eros e Thanatos convidam Charles Darwin para a próxima
dança no baile do Apocalipse, em plena praça de San Marco,
em Veneza. Não sendo é que somos. Vivemos e morremos sacrifícios
cerimonializados. Aferro-me à vida. Não cremos mais em nenhuma
palavra. Voltaremos a gritar? AIDS/SIDA: a enfermidade das cadeias, a doença
do nihilismo europeu, a peste da impunidade hedonística e anarquicamente
mafiosa, o sinistro cinismo dos santos e dos demônios. Manifesta
tragédia do incalculável e do imprevisível. Ninguém
traz uma estrela na testa, ninguém é anjo em nossas histórias.
Nem o de Paul Klee... Um autêntico estado de emergência. Alavanca
propulsora para uma nova cultura? O fim das aventuras misteriosas?
O naufrágio do monumental e heróico erotismo ocidental?
José Luiz Dutra de Toledo é historiador
formado pela UNESP.
Mande um e-mail para José
Luiz Dutra de Toledo ou para a direção
do jornal.
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