Confluências entre as escritas de George Bernanos,
César Vallejo, José Lézama Lima e Virgílio
Piñera.
José Luiz Dutra de Toledo
O que teria a ver entre a catoliqueria do mestre José Lézama
Lima, a mística poesia romanesca do escritor católico francês
George Bernanos, a indignada ousadia picaresca do poeta anti-lezamiano
Virgílio Piñera (possível tentativa de ponte entre
o neo-barroco cubano de Lézama e de Severo Sarduy e o sensualismo
nostálgico do estilo neo-barroso transplatino de Nestor Perlonguer,
Osvaldo Lamborghini, Héctor Piccoli, Emeterio Cerro e, por que não?,
Lautréamont) e o andino César Vallejo a nos proclamar, em
Maio de 1929, que: “Não sou conservador nem liberal. Nem burguês
nem bolchevique. Nem nacionalista nem socialista. Nem reacionário
nem revolucionário. Pelo menos não fiz das minhas atitudes
nenhum sistema permanente e definitivo de conduta. Tenho, no entanto, a
minha paixão, meu entusiasmo e a minha sinceridade vitais. (...)
Quer me parecer que, em meio ao que, no meu caso, se poderia chamar de
anarquia intelectual, caos ideológico, contradição
ou incoerência de atitudes, há uma vital unidade orgânica
e subterrânea “?
É no mais ou menos legível envolvimento com os vanguardismos
(surrealista e psicanalítico) do início do século
XX, é na busca de simbologias de uma solar unidade em meio aos dionisíacos
fluxos fragmentantes ou na maior ou menor distância que estes quatro
escritores viveram em relação ao pathos católico que
percebo, com nítida complexidade, as confluências entre as
obras literárias de Vallejo, Bernanos, Lézama e Piñera.
Leon Bloy fez a ponte entre seu discípulo G. Bernanos ( de Um
cemitério sob o luar ) e o pré- surrealista e sádico
poeta neo-barroso franco-uruguaio Isidore Ducasse (Lautréamont).
A erudição católica de Leon Bloy e a erudição
neo-barroca entranhada na catoliqueria de J. Lézama Lima (voraz
e obstinado leitor de Paul Claudel de O anúncio feito a Maria) ,
o seu idílio e duelo de amor e ódio com o arrogante e pobre
desbocado Virgílio Piñera e o utopismo eclético e
ecumênico de C. Vallejo são horizontalidades superficiais
e verticalidades espirituais nas tessituras dos bordados barrocos dos lençóis
brancos engomados de esperma e suor da riquíssima literatura hispano-americana
do século XX. Não nos esqueçamos que Bernanos viveu
um setênio de sua vida nas Minas Gerais, cenário de pelo menos
três das suas obras.
“Cada homem comendo pedaços da ilha, cada homem devorando seus
frutos, as pedras e o esterco nutriente. Cada homem mordendo o lugar desejado
por sua sombra, cada homem lançando dentadas no vazio onde o sol
se esconde do mar... cada homem no rancoroso trabalho de recortar as margens
da ilha mais bela do mundo... a mula, com seus olhares cruzados por vagalumes,
tão perigosa como um belo macho, atravessa diariamente os quatro
momentos caóticos, os quatro momentos nos quais se a pode contemplar,
com a cabeça metida entre suas patas, perscrutando o horizonte com
olhar atroz, os quatro momentos nos quais se abre o câncer: a madrugada,
o meio-dia, o crepúsculo e a noite.” (Virgílio Piñera,
em seu poema La isla em peso).
Entre o aparente dualismo unitário de Bernanos; o caos poético
e universalista de Piñera; o gauchismo de Lézama, Piñera,
Bernanos e Vallejo; Lézama, em busca de um sistema poético
do mundo, citava o abade de Vogler: “Fazer de três, não um
quarto som e, sim, um astro.” Um sol eucarístico, símbolo
de unidade. E, corroborando o que vos digo, Lézama citava o medieval
Nicolau de Cusa: “O máximo se entende incompreensivelmente.” Em
Lézama antevejo globalização, uma globalização
mistérica num fluxo caótico de citações, um
rosário de imagens de todos os cantos do mundo (como costumava fazer
Santo Ambrósio ao descrever as vaidades femininas no fim da Idade
Média européia): “Isabelle, a irmã de Rimbaud, que
tinha o rosto parecido com o destas místicas polonesas que, um dia,
dormindo nos trigais, sentiram uma rudeza, uma comoção, ostentando
depois o inchamento de seu ventre ou um grande manto azul com espessas
estrelas”; a porta aberta de uma mastaba egípcia; o evangelho apócrifo
de São Bartolomeu; o escorpião que desliza pelas coxas de
Apsara; as irmãs negras mal penteadas; Hakon (o que não quis
comer fígado de cavalo); um ovo prateado onde se agita um Eros que
se fixará no Caos alado; a primeira razão espermática
de Plotino; uma cultura em que o ócio e a maneira de levar o manto
distinguiam o sábio; tempo lucífugo; noite órfica;
vontade zenital; incitação netúncia; ou quando alude
ao tempo no qual “ os homens, através do visível conjurado
na poesia, tentam se aproximar do risonho desconhecido dos deuses.” (Cf.
in: Oliveira Carmen L. – Ensaios realçam poesia de Lézama
Lima – página D-7 do Caderno 2 de O Estado de S. Paulo em sua edição
de 1 de Fevereiro de 1997 e Costa, Francisco – “Fugados” mostra o melhor
neo-barroco de Lézama Lima – página 6-7 Livros da Folha de
S. Paulo em sua edição de 12 de Dezembro de 1993).
Assim como na passional busca católica da unidade eucarística
na literatura de George Bernanos, César Vallejo acredita na unidade
orgânica de um poema ( e se de um poema amputarmos um verso, uma
palavra, uma letra ou um signo ortográfico ele não sobrevive)
e sonha com o dia em que todas as línguas se unifiquem e se fundam,
“através do socialismo, em um único idioma universal.” Ou
seja, o unitarismo globalizador dos socialistas internacionalistas de outrora
era humanista naqueles tempos de utopias inexeqüíveis. Este
mesmo universalismo globalizante de então é o mesmo que hoje,
birrentamente, as esquerdas tentam inviabilizar, opor obstáculos,
só por que, agora, atende à dinâmica capitalista.
Exilado em Paris, Vallejo teve contato com o rescaldo da onda surrealista
e com a prática literária da “discórdia concors”,
procedimento barroco na distinção entre pessoal e individual,
a busca da totalidade na desintegração dos seres e objetos
ou pelo espírito colecionador dos vaidosos. É por isso que
Enrique Ballón Aguirre vê um “barroco industrial” perpassando
a obra literária de César Vallejo, poeta que contrapõe
uma universalidade barroca ao tradicionalismo anti-cosmopolita e provinciano
de suas raízes sócio-históricas latino-americanas.
Provavelmente C. Vallejo conviveu com o mesmo universo intelectual parisiense
com o qual tiveram contato os modernistas brasileiros Heitor Villa Lobos,
Oswald de Andrade, Anita Malfatti e Patrícia Galvão.
Como George Bernanos, César Vallejo também cantou e idealizou
a lua, inalcançável e infinita. “Para atingir essa comunhão
do inferno e do céu (dois pólos bernanosianos), o poeta desce
ao túmulo (sobe ao tálamo) terreal:
“La tumba es todavia un sexo de mujer que atrae al hombre!”
_César Vallejo, citado por Raul Antelo, em seu ensaio Sermão
da Barbárie – publicado entre as páginas 3 e 5 do caderno
Folhetim da Folha de S. Paulo em sua edição de 13 de Julho
de 1986).
“No cristão Bernanos, ecoam fundo as palavras do Apocalipse:”....
porque és morno, e nem frio nem quente, começar-te-ei a vomitar
de minha boca. Para ele, a opção entre o pecado e a graça
supõe seres passionais, como o santo e a jovem perdida, capazes
de gestos heróicos, extremos. Os demais, os indiferentes, são
aqueles que, por prudência, bom senso, pretensão intelectual,
acomodam-se aos imperativos do século.” (...) “Último baluarte
de Deus, anteparo contra Satã, o homem enquanto personagem de Bernanos
descobre, na realidade prosaica do seu percurso, a dimensão do sobrenatural.”
(...) “Privilegiando a turbulência das paixões, dentro de
uma perspectiva realmente cristã de subordinação aos
objetivos da redenção, Bernanos situou-se na linhagem de
Dostoievski.” (...) “O pecado da carne é substituído pelo
pecado da alienação. Somente quem experimenta o desejo de
liberdade, de fuga à mediania, inscreve-se na aventura, de que a
estrada torna-se um dos símbolos capitais, e pode aspirar à
plenitude do ser.” (...) “Em Diário de um padre da Campanha, Bernanos
apresenta o conhecimento como um entrave aos movimentos vitais, “mesmo
quando empolgado pelo mistério.” Em seu romance Mouchette chama
sua personagem de “pequena serva de Satã, Santa Brígida do
nada”. E assevera o pensador católico francês Bernanos (que
recusou o cargo de Ministro da Educação na França
de Charles De Gaulle e expoente da mesma geração do polêmico
Céline; amigo e até certa época discípulo de
Mauriac e de Charles Péguy): “Lembremo-nos de que Satã sabe
tirar proveito de uma oração demasiado longa, ou de uma mortificação
demasiado dura.” (...) “ O silêncio divino à súplica
do milagre. Na verdade, a luz quase constantemente negra do sobrenatural
é que lhe assegura a unidade básica.” (Cf. in: Vomitar os
mornos – ensaio de Maria Cecília de Morais Pinto – páginas
B-4 a B-5 do caderno Folhetim – Folha de S. Paulo em sua edição
de 25 de dezembro de 1987).
Esta luz constantemente negra que tece em pomposo veludo católico
(como o da capa de São Luiz, Rei de França) a unidade estrelada
e fragmentária do céu e do mundo bernanosiano é a
mesma e aparatosa capa de referências mitológicas que cobre
o solene dorso sacerdotal do corpo literário e da alma erudita de
J. Lézama Lima. Ambos de formação católica
e não revolucionários. Assumidos.
Para Guillermo Cabrera Infante, Piñera era uma bicha pobre que
gostava de transar com homem rude e odiava as vaidades e as pretensões
dos mais intelectualizados, era magro e de baixa estatura. José
Lézama, para Cabrera infante, almejava a respeitabilidade, era alto
e gordo, gostava de ser chamado de Mestre e só transava com rapazes
impressionantemente bonitos. Creio que, assim, formaram a clássica
dupla Dom Quixote e Sancho Pança, ridicularizada na cultura
norte-americana com os filmes de O gordo e o magro.
Lézama, também conhecido como o Leão da Habana
Vieja, se rende por escrito aos assombros da poesia e dá as costas
às carrancudas e ortográficas academias de sempre. Como Jesus
diante dos doutores da lei... Rebola quando dança, ajoelha-se diante
do Santíssimo e nos revela delirantes e vertiginosas arqueogenealogias.
Nunca foi longe de sua Havana (ao contrário do poeta peruano César
vallejo – que viveu em Paris; ao contrário de G. Bernanos que viveu
no Brasil e diferente também de Virgílio Piñera que
viveu muitos anos em Buenos Aires). Lézama, exilado em Havana, sua
pátria, admirado por Julio Cortazar, Octávio Paz, Vargas
Llosa e por Severo Sarduy, que numa visão delirante do Leão
de Havana lhe acenavam “com vozes amigas, da mesma forma que os trabalhadores
que ficam sob a terra se reconhecem uns aos outros dando pequenas batidas
na terra que os separa” permaneceu até há pouco ignorado,
resultado da indiferença e da censura ditatorial castrista à
sua vida e à sua obra. Neste fragmento Lézama se aproxima
de Vallejo em sua oposição cardinal entre o “sub” e o “sob”.
Mas, ao contrário de Vallejo, Lézama não se identificava
nem com os seres inferiores, nem com os poderosos. Identificar-se com qualquer
segmento de uma ordem é o mesmo que legitimá-la intimamente.
César Vallejo nasceu no Peru, foi criado numa pequena aldeia
andina, escreveu em 1918 os poemas intitulados Os Arautos Negros (obra
influenciada pelo poeta centro-americano Rubén Dario. Em 1922 publicou
Trilce,obra mais valorizada pela crítica. Desconheço dados
sobre sua orientação sexual. Viveu entre os anos de 1893
e 1938.
George Bernanos nasceu em 1888 e morreu em 1948. Sua infância
foi vivida no vilarejo de Pás de Calais, no norte da França.
Influenciado pela direita católica francesa (leia-se Action Française
– liga de intelectuais católicos liderados por Maurras e Leon Daudet,
velho amigo de Marcel Proust. Bernanos foi monarquista. Rompeu em 1932
com Maurras e, durante sua vida, assumiu várias posições
ou diversas nuances de cores ideológicas.Apesar deste seu arco-íres
ideológico, Bernanos não parece ter sido homossexual. Quanto
ao seu e ao meu monarquismo, devo dizer que os intelectuais de esquerda
(liberais ou marxistas ou social-democratas), em suas condenações
às monarquias e aos monarquistas, se esquecem que os reinos das
formigas e das abelhas(tão elogiados em seus manuais de biologia)
são antiqüíssimas e tradicionais monarquias.
Piñera e Lézama eram homossexuais assumidos. José
Lézama Lima viveu menos que Piñera. Virgílio Piñera
nasceu em 1912 e morreu em 1979. José Lézama Lima nasceu
em 1910 e morreu em 1976.
Bernanos e Vallejo nasceram no fim do século XIX e não
chegaram à metade do século XX. Lézama e Piñera
nasceram no início dos Novecentos mas não viveram o fim do
atribulado século XX.
“A noite invade com seus odores e todos querem copular. O odor noturno
sabe arrancar as máscaras da civilização, sabe que
o homem e a mulher se encontraram sem falta no pantanal. Musa paradisíaca,ampara
aos amantes!” _ Virgílio Piñera em poema já citado.
O elo entre o sacro e o profano,o erótico e o místico
é mais uma confluência entre as escritas de Piñera,
Bernanos, Lézama e Vallejo.
As conexões entre o modernismo brasileiro e o surrealismo latino-europeu
ou (mais exatamente) franco-hispânico se refletem na poesia “underground”
e “pós-beat” dos paulistanos Roberto Piva, Glauco Mattoso, Itamar
Assumpção e Arnaldo Antunes, primos, com algumas afinidades,
da poesia neo-barrosa dos argentinos Osvaldo Lamborghini e Nestor Perlonguer,
poetas portenhos aparentados (em certos aspectos) com os cubanos Severo
Sarduy e Virgílio Piñera. “Pra mim, toda metrópole
é uma necrópole, um vasto cemitério. O homem é
o único animal que armazena seus mortos.” (...) “Não sou
xamã de cemitério.” – declarações do poeta
Roberto Piva à Folha de S. Paulo em sua edição de
quatro de Abril de 2000. Piva é o selvagem autor de Paranóia,
“Abra a janela e diga: AH!” e de Coxas. Com Piva aprendi a valorizar
a livre e espontânea brutalidade animal dos que rosnam, cagam, peidam,
espirram e ejaculam ou atingem naturalmente seus orgasmos, sem frescuras,
sem solenidades e sem escrúpulos. Sem pulinhos e sem mesuras.
As interseções entre a teologia mística católica
e os anseios eróticos universais (tão nítidas nas
obras de Teresa de Ávila, João da Cruz, Agostinho de Hipona
e na transoceânica literatura mística hispano-americana do
século XVII) também são referências paradigmáticas
para as freudianas teorias sobre os olhares e os enlaces entre Eros e Thanatos
e, quiçá, esclareçam muitos lances dos jogos ideológicos
entre direita e esquerda no século XX e na obra literária
do católico francês George Bernanos.
Para mim, a literatura e as artes em nosso mundo pós-moderno(
a ouvir as músicas sacras interpretadas por Andréa Bocelli
em tubarônicos boeings), ainda rastejam atrás da liberdade,
nos revelam os nossos medos e os nossos impulsos vitais (vejam as instaurações
Teresa do artista plástico brasileiro Tunga).
Os fantasmas e as vertigens do homem barroco se fazem cada vez mais
presentes em nossas vidas e até nas procissões das virgens
cabeludas (candidatas a mártires) pelas ruas de Teerã ou
nos espetáculos do globo da morte num circo de Nüremberg.
Tanto em George Bernanos como na utopia ecumênica de César
Vallejo como na catoliqueria de J. Lézama Lima subfluem magmas de
ardentes teologias eróticas e em quase todos os escritores franco-hispano-americanos
até aqui citados subpaíram teorias e visões esotéricas
e místicas, muitas até herméticas e órficas.
Outro escritor cuja obra corrobora minha análise: Plínio
Marcos. Leiam o seu livro de entrevistas, intitulado Religiosidade subversiva
,no qual fala de Madame Blavatsky, Jesus – Homem e em virilidade espiritual
transformadora (livro que , em edição do próprio autor,
fez circular em 1989). É neste livro que o palhaço Bobo Plin
diz: “Essa magia se manifesta quando se resolve fazer a própria
alma.” Só os açougueiros seguram nossas genitálias
animalescas dicotomizadas, decepadas ou distanciadas de nossos anseios
e pulsações eróticas e espirituais. No fundo, este
rico veio literário ocidental (tão bem conhecido por Octávio
Paz) me lembra a atualidade deste pensamento pinçado da obra filosófica
do espanhol Sêneca: “Pensa mais em viver bem, que em viver muito”.
José Luiz Dutra de Toledo é historiador
formado pela UNESP.
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Luiz Dutra de Toledo ou para a direção
do jornal.
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