Cartografia das interseções entre
a minha alma e a do pintor irlandês Francis Bacon nascido em 1909
e finado em 1992.
José Luiz Dutra de Toledo
“Diferente de Aristóteles, por exemplo, que diria ser a matéria
o que preenche o vazio, para Jacques Lacan a matéria é o
vazio. O essencial é o buraco.” _ Neusa Santos Souza.
Em busca arqueogenealógica das camadas distorcentes de outras
formas essenciais da aparência, fui percebendo e registrando o acidental
que, mesclado com o irracional, conduziam-me a uma série de transformações
inesperadas. Nem eu nem meus objetos tinham uma existência estática
e isto tirava o sentido da minha pesquisa. Às vezes temos que nos
contentar apenas com aquilo que tenha chegado mais próximo do que
almejávamos. Tento expressar os arrepios e as sensações
que correm pelo meu sistema nervoso. Uma expressividade penetrante e instintiva.
Quanto mais nítida e precisa melhor. O olhar brilhante que vi nas
fotos do ancião Romain Roland me lembrava o visar de uma águia
dos Alpes. O máximo que conseguimos é uma precisão
muito ambígua. No fundo, estas nossas tentativas desesperadas de
sermos completamente livres repousam numa recusa radical da dor de morrer
e de ser esquecido. No nosso caso, toda a pintura é fruto do acaso.
Prevejo a imagem, mas dificilmente ela será executada como fora
prevista. Apenas selecionamos traços e manchas do imprevisto. Selecionamos
e preservamos a vitalidade do imprevisto. De repente a coisa se transformou
exatamente na imagem que eu estava tentando reproduzir. Como um touro bravio
com feno nas aspas, a fenomenológica brutalidade fatual se revelou.
Mas tal manifestação ontológica não veio à
tona por causa de uma vontade ou de uma intenção consciente.
Heidegger ou Jaspers explicam? Só assim penso uma pintura mais profunda,
que transmita a essência da imagem. Uma pintura que remete o espectador
à vida com mais violência. Algo mais profundo do que o que
fora desejado no princípio. Minha maneira de trabalhar é
e está cada vez mais acidental. Como recriar o acidental? É
algo quase impossível de se fazer. Um problema difícil de
ser expresso com palavras. Algo que tem a ver com o instinto. É
uma coisa difícil, muito difícil e íntima saber porque
certa pintura toca diretamente no sistema nervoso. Trabalho ininterruptamente
com esta coisa básica. O quadro exerce um efeito hipnótico
sobre mim e eu não consigo ficar longe dele. Quando o termino, tiro-o
da minha frente o mais rápido possível para não estragá-lo.
Sou como uma porca que devora seus porquinhos. Quando têm algum valor,
deixam vestígios na lembrança que nunca consigo reconstituir
depois. Antes de começar a pintar não cometo esboços
ou desenhos. No caso da minha pintura isso não ajuda muito. Vejo
cada uma das imagens em constante transformação, numa seqüência
de mutações. Isto explica porque pinto séries temáticas
de quadros. Não consigo pintar todos os quadros que desfilam pelo
meu pensamento porque eles, evidentemente, desaparecem. Infelizmente ainda
não consegui pintar aquela imagem que seja capaz de reunir em si
todas as outras. Por isso, uma imagem do lado da outra parece que pode
comunicar muito mais. Mais uma vez estamos vivendo uma época muito
primitiva e não há como evitar que sejam estabelecidos enredos
entre as imagens.
Eichmann, em 1962, foi julgado em Israel, dentro de uma caixa de vidro.
Figuras pintadas em três diferentes telas evitam ou dificultam a
construção de enredos enganadores. Sempre me tocaram muito
os matadouros e açougues da nossa civilização da crucificação
que, hipocritamente, sugere elegância em roupas com peles de animais,
come vorazmente carnes, bebe incessantes jatos de leite e abomina touradas.
Existem excelentes fotos de animais tomadas um instante antes de os bichos
serem abatidos. Toca-me o cheiro da morte. Parece que os animais sabem
do que vai acontecer com eles e fazem tudo para ver se conseguem escapar.
Sou como um animal condenado a um inferno mas que nunca perde a esperança
de fugir vivo do suplício eterno. Vivemos muito perto de todo esse
lance da crucificação. Para um ateu a crucificação
não passa de um ato de comportamento humano, uma forma de comportar-se
em relação ao outro. Tenho obsessão por fotografias
e vejo o retrato do papa Inocêncio X pintado por Velásquez
entre os grandes retratos que já se fez no mundo. No Vaticano entrava
em êxtase nas procissões em que carregavam o papa Pio XII
em opulentos andores barrocos. A figura única em sua grandeza, heróica
e trágica do papa alçada a um palanque para que a sua imagem
histórica seja exibida ao mundo. O herói trágico é
necessariamente alguém que se encontra numa posição
acima dos outros homens. Em Velásquez, o caminho à beira
de um precipício deixa à mostra as coisas mais profundas
e fortes que um homem pode sentir. Incrivelmente misterioso. Depois que
Deus morreu, restou ao homem iludir-se durante algum tempo com alguma
maneira de se conduzir, seja tentando prolongar sua vida ao comprar da
mão dos médicos uma espécie de imortalidade ou se
distraindo nos jogos da vida e das artes. Hoje a arte se transformou totalmente
num jogo. E ao artista sobrou a difícil tarefa de aprofundar nesse
jogo se quiser ser aceito. Mesmo afastando-se dos modismos místicos,
Francis Bacon pintou a máscara de William Blake em 1955. Nosso sentido
de aparência é o tempo todo assaltado pela fotografia e pelo
filme. Noventa e nove por cento das vezes acho as fotografias mais interessantes
do que a pintura. Pela sua proximidade violenta com o fato, as fotos captam
mais finamente a realidade e detonam minhas idéias. Corpos radiografados,
fotos policiais de perfis de bandidos, bocas durante ou em pleno grito,
olhos rompidos por tiros ( como o da empregada que deixa o carrinho com
o bebê rolar escadaria abaixo em Odessa, no filme O Encouraçado
Potemkin de Sergei Eisenstein) ou por uma navalhada (como no filme Un chién
andalouz do aragonês Luis Buñuel), ou o olhar pânico
na tela O massacre dos Inocentes pintada por Nicholas Poussin, desenhos
coloridos a mão sobre doenças que dão na boca em um
livro comprado num sebo, retratos 3x4 e tranças de crianças
e mulheres expostas em salas de ex-votos, seqüências de fotos
de luta de boxe ou imagens e movimentos de animais selvagens valem-me como
um dicionário de temas pictóricos. Bacon abominava os templos
católicos mas ficou vagando meses pela basílica de São
Pedro sem ter coragem de encarar o original retrato de Inocêncio
X pintado por Velásquez e por ele tantas vezes distorcido e idiotamente
desfigurado. Eu me deslumbrava por longas horas e séculos de expectação
piedosa diante dos santos da igreja Matriz da minha aldeia natal e, neste
mesmo templo, horrorizava-me com a imagem de roca de Nosso Senhor dos Passos
com sua cabeleira humana ensangüentada e sua túnica de veludo
roxo escuro e apavorante. Hoje uma foto desta imagem paira sobre os computadores
nos quais trabalho várias horas por dia. A distorção
pode ser uma forma de resgate da aparência desejada. Pintar é
lembrar violentamente. Prefiro fazer essas violências às escondidas.
Cada pessoa tem sua própria maneira de transmitir o sentimento e
a sensação da vida. Como o artista no mundo atual está
distante das tradições, resta-lhe somente registrar seus
sentimentos, ficar o mais próximo possível de seu sistema
nervoso. Açougue e crucificação, enormes pavilhões
de frigoríficos, boutiques e shoppings de carnes atraentes e excitantes,
salões cheios de cadáveres com seus suores cheirando adubos
nos labirínticos percursos da minha incessante imaginação.
Num açougue penso que é surpreendente eu não estar
ali no lugar do animal. Senhores e senhoras neuróticas, com grilos
e tiques nervosos ou pássaros nos cabelos não são
apenas temas surrealistas do nosso mundo. Não consigo esquecer o
cheiro da lavanda que o barbeiro de Tabuleiro – minas Gerais passava em
meu pescoço de menino quando terminava seu serviço. Nem das
emoções de uma Ave Maria entoada numa rádio carioca
dos anos 50 e 60 ás seis da tarde. Nunca consegui pintar o riso.
Gosto da impessoalidade da roleta, odeio o personalismo que marca as
atitudes dos jogadores de bacará. A pintura é como um jogo
de azar. Vivo, pode-se dizer, em meio a uma miséria dourada. O luxo
pode ser entediante. A sorte, que eu chamaria de acaso, é um dos
aspectos mais importantes e ricos do meu trabalho. Crio só a partir
do momento em que conscientemente já não sei o que estou
fazendo. Ensejo uma armadilha para agarrar o fato em todo o seu instante
de plenitude. Quero construir uma imagem bem ordenada, mas quero que ela
resulte do acaso. Eu gostaria que as coisas ocorressem facilmente, mas
não se podem impor regras ao acaso. A meu ver a textura de uma pintura
parece mais imediata do que a textura de uma fotografia. A pintura parece
tocar imediatamente no sistema nervoso. Quanto mais duráveis sejam
as imagens, mais elas nos impressionam. A arte brota verdadeiramente e
instintivamente de um desejo ordenante de reconduzir o fato ao sistema
nervoso de uma maneira violentamente reveladora. De geração
a geração, por causa daquilo que os artistas fizeram, os
instintos se modificam. E com a mudança dos instintos renovam-se
nossas sensibilidades. Quem mais do que o espectador para gostar de casos
de amor fracassado e de doenças? Acho que só o tempo diz
o que uma obra é. Nenhum artista sabe em seu tempo de vida se existe
qualquer sombra de qualidade no que faz. As imagens humanas são
rastejantes como uma serpente sobre uma cruz. Busco realizar minhas vontades
instintivas. A arte é uma obsessão pela vida. Como somos
seres humanos, nossa maior obsessão somos nós mesmos. Se
fosse ficar irritado com o que dizem, viveria em estado de constante irritação.
Gostaria de proporcionar emoções sem o tédio da comunicação.
Uma história é um tédio com começo, meio e
fim? Acho que estamos numa posição muito curiosa hoje, porque
não existe qualquer tradição, o que existe são
dois pólos extremos. Há o depoimento direto que é
muito parecido com um relatório de polícia. E há a
tentativa de se buscar uma arte maior. Apreenda o objeto em seu estado
bruto e pleno e o fossilize. Amizade é o que ocorre quando duas
pessoas brigam muito e, no mesmo tanto, aprendem uma com a outra. A crítica
destrutiva é a que mais ajuda. As pessoas se envaidecem muito mais
pelo que fazem do que pelo que são. As escolas de arte nada têm
para dar aos artistas de hoje. Lamento muito não ter estudado grego
antigo. Eu era um desses tipos atrasados, há pessoas que são
assim, custam a começar. O fato é que nunca me dei bem nem
com meu pai nem com minha mãe. O pai de Francis Bacon era um militar
treinador de cavalos, o pai de Pier Paolo Pasolini também era um
militar italiano e o meu pai era um comerciante, também foi um açougueiro
que espancava até matar os cachorros ladrões de filé
e chorava cantando músicas interpretadas por Vicente Celestino.
Nós dois, eu e Francis Bacon, sentíamos atração
sexual pelos nossos pais. Dizem que a gente esquece a morte, mas não
esquece. O tempo não cura. Todas as pessoas de quem eu realmente
gostava morreram. Por isso me concentro numa obsessão de fazer artisticamente
aquilo que motiva fisicamente minha obsessão. O drogado está
crucificado e imobilizado por seringas em seu leito de prazeres, amores,
dores e pesadelos. Se a vida emociona, a morte – seu oposto ou sua sombra
– também deve emocionar. Vida e morte são faces de uma mesma
moeda. Sempre me surpreendo quando acordo de manhã. A gente pode
ser otimista e não ter esperança. O tempo todo a gente sente
que a vida é rondada por uma sombra. Francis Bacon viveu na Irlanda,
na Inglaterra, em Berlim, em Paris, em Monte Carlo, entre jogos, perigos,
violências... Eu vivi em Minas Gerais, Rio grande do Sul e São
Paulo, viajei pelo Brasil e até outros países movido por
nostalgias e ousadias. Vivemos encobertos por véus que impedem que
vejamos as imagens que se erguem deste planetário rio de carnes.
As gordas que me perdoem mas tenho que dizer: o marido de Dorotéa
surrou-a até matá-la. As pessoas tentam enxergar enredos
escondidos na obra de arte e sentem falta de uma certa ficção
na arte que se produz hoje. Minha pintura está preocupada com o
meu desespero arrebatador. Poças de sangue, figuras que parecem
surgir da carne ou de um pântano de espermas e óvulos, lancinantes
como uma crucificação. O que eu gosto mesmo é de espaço.
Talvez eu não tenha espírito público. Gostaria que
sobrasse alguma coisa de mim depois de morto. Simplesmente por vaidade.
Sou um homem espetacularmente barroco. Afinal, ser artista é no
mínimo uma forma de vaidade. E essa vaidade pode ser mergulhada
na idéia, racionalmente fútil, de imortalidade. Metade do
meu trabalho em pintura consiste em romper com aquilo que posso fazer facilmente.
O derramar da tinta realmente é aleatório. Gosto da pintura
que é altamente disciplinada e, ao mesmo tempo, uma coisa feita
ao sabor do instante. A tinta tem uma aparência de imediatismo.
Trata-se de usar o acaso para obter um resultado que pareça controlado.
O artista é orientado pelo instinto. Ou desorientado? Não
se pode falar de instinto porque você não sabe o que é
isso.
O tempo todo está acontecendo um mundo de coisas, e é
difícil distinguir o trabalho consciente do trabalho inconsciente
ou instintivo, se preferir chamá-lo assim. “Eu não preciso
jogar jogos de azar, porque o tempo todo trabalho com ele.” _ Pablo Picasso.
Quase sempre existe no acaso um tipo de inevitabilidade que as pinturas
voluntárias da tinta não lhe dão. É impossível
falar sobre o acaso quando não se sabe o que ele é. Seria
como tentar explicar o inconsciente. Eu sei o que quero fazer, mas não
sei como fazer. As melhores obras dos artistas modernos são aquelas
que quase sempre dão a impressão de terem sido feitas sem
que eles soubessem o que estavam fazendo. Intuição e senso
crítico são ingredientes básicos neste amálgama
misteriosamente criador. “No ato da criação, o artista passa
da intenção á realização através
de uma cadeia de reações totalmente subjetivas. Sua luta
pela realização é uma série de esforços,
dores, satisfações, recusas, decisões, que também
não podem , nem ser completamente conscientes, pelo menos no plano
estético.” _ Marcel Duchamp – Houston, 1958. O mistério da
pintura hoje é a maneira porque se poderia reproduzir a aparência.
Algumas pinceladas ao acaso, algumas madeleines numa xícara com
chá de tília faz milagrosamente com que resgatemos, com uma
clareza fenomenológica, o aparente. Pois, como na caverna de Platão,
as sombras são reflexos dos seres e da luz. Quando se faz uma imagem
absolutamente perfeita não se fará mais nada na vida. Não
paro de ver imagens. Viver é ver imagens. Michelângelo e Muybridge
se misturam em minha mente. Os movimentos dos animais e dos homens aparecem
interligados em minha representação do movimento humano.
A aparência é resgatada num momento especialmente mágico.
O que chamamos de aparência só se mantém momentaneamente
como aparência. É como uma coisa fugaz e continuamente flutuante
e caleidoscópica. Algo, ao mesmo tempo, preciso e ambíguo
como Deus? Quando a vontade é subjugada pelo instinto configurador
do acaso, os níveis mais profundos da personalidade vêm à
tona. Os acasos mais frutíferos tendem a acontecer nas ocasiões
de maior desespero. Sou voraz para comer, para beber, para estar com as
pessoas de quem gosto, para vibrar com as coisas que acontecem... Tenho
uma enorme fome de vida. Fazer o que quero significa, se possível,
viver. Não tenho nada contra roubar. Ser criado pelo Estado, desde
o berço até a sepultura, faria da vida uma grande chatice.
Jamais me guiei pela moral do pobre. Nada mais chato do que tudo garantido
desde o nascimento até a morte. A instabilidade vital aumenta
o instinto criativo. A injustiça social faz parte da própria
natureza da vida. Não me sinto tocado pelos sofrimentos decorrentes
de injustiças sociais. Eu não fico abatido com o sofrimento
das pessoas porque acho que o sofrimento delas e a desigualdade entre elas
são o que criou a grande arte, e não o igualitarismo. Tudo
o que se pensa até hoje é no que um povo deixou e nunca nos
importamos se tal povo viveu feliz. Admiro o dessemelhante miraculosamente
semelhante. As pessoas andam morrendo à minha volta como moscas.
Sou contra a cremação dos corpos porque acho que daqui a
milhares de anos, se o mundo ainda existir, será muito chato não
haver ninguém para desenterrar. Tento captar não só
a aparência mas também a maneira como ela nos impressiona.
“Todos os dias quando olho no espelho eu vejo o trabalho da morte.” _ Jean
Cocteau. A gente existe por um segundo e depois é varrido como as
moscas numa parede. “As moscas para os garotos inconseqüentes são
como nós para os deuses. Eles nos matam por esporte.” _ Gloucester.
Acho que a vida não tem sentido, mas lhe damos um sentido durante
nossa existência. O hedonismo atual está deixando nossas vidas
cada vez mais chatas. Uma vida religiosa sentindo medo de Deus é
mais interessante que uma vida hedonística e inconseqüente.
Não posso deixar de admirar e também de desprezar essas pessoas
que, com total falsidade, pautam a vida de acordo com suas idéias
religiosas. A única coisa que torna uma pessoa interessante é
a sua capacidade de dedicar-se. Quando se consegue encontrar alguém
totalmente sem religião e totalmente dedicado às futilidades
da vida, a gente está diante de uma pessoa bem mais interessante.
Penso sempre em mim não como um pintor, mas como um humilde instrumento
do divino acaso chamado de sorte. Não é o quadro o que me
emociona mas o fato dele abrir dentro de mim as válvulas das sensações
que me jogam de volta à vida de uma forma ainda mais violenta. Sinto
que sou essencialmente. Cada vez mais estou vendo menos gente na vida.
Acho que isto ocorre à medida que vamos envelhecendo.
Entre o real e o artificial procuro o inesperado surpreendente. Sem
a intenção nada começamos. A surpresa tem precedência
sobre a intenção. Uma fruta ou um pão em cima de uma
mesa estão repletos de mistérios. Sempre soube que eu era
influenciado por T. S. Eliot. O cinismo verdadeiramente divino e diabólico
de Shakespeare sempre me embriagará. O que pode haver de mais cínico
que Macbeth no final dizendo: “Amanhã, e amanhã, e amanhã”?
Nunca sinto vontade. À medida que a gente vai trabalhando a vontade
vai aparecendo. Persigo a realização das possibilidades que
estão sempre nos escapando. Nem eu nem ninguém precisa de
férias. Isso não passa de uma convenção. Abomino
os dias de feriado. Vivo sempre em estado de tensão e só
me sento um pouquinho para ler. Durante toda a minha vida tive pressão
alta, confidencia-nos F. Bacon. Só com uma dose de morfina F. Bacon,
quando era mais jovem, pôde relaxar durante uma forte crise de asma.
Talvez, um dia, ainda consiga pintar uma onda quebrando-se na praia. Não
gosto de boa parte da obra de Picasso, mas nem por um segundo senti que
ele fosse deficiente de imagens. A imagem é mais importante do que
a beleza do quadro. A pintura é uma ocupação de gente
velha. Van Gogh fala da necessidade de se introduzirem mudanças
na realidade que se transfiguram em mentiras mais verdadeiras do que a
verdade propriamente. Quando se pinta um retrato o problema é encontrar
uma técnica capaz de expressar todas as vibrações
de uma pessoa. A aparência e as emanações de uma pessoa
estão intimamente relacionadas com sua energia. Você na rua
vê de longe uma pessoa que conhece. É capaz de dizer quem
é apenas pela maneira como ela anda, como se movimenta. É
a isso que Walter Benjamin chamava de aura. A intensidade exige concisão.
Uma vez disfarçada a forma, a intensidade seria dada pelo colorido
da carnadura. Não existe mais um naturalismo na pintura de hoje.
Talvez as imagens acidentais sejam mais reais. Porque não
foram modificadas pelo pensamento consciente. Estamos saturados de todas
as artes. O ponto de saturação agora abateu tão em
cheio que a gente só deseja novas imagens e novas maneiras de criar
realidades. O que se deseja é o novo. O tema é a isca. A
brutalidade do fato. “Meu pai e minha mãe” _ disse Francis bacon
_ “nunca estavam satisfeitos com o lugar onde moravam”. Meu pai vivia reformando
nossa casa e eu sempre lamentava tais reformas ficando com saudade da casa
que tínhamos antes destas incômodas mudanças de cenários.
Quando a gente é moço existe sempre alguém que nos
ajuda, porque as pessoas sempre gostam de nossa juventude. Inventei minha
própria escrita rápida, passei por muitos escritórios
fazendo serviços dos mais esquisitos, trabalhei num atacadista da
Poland Street e fui cozinheiro de um cara que morava em Mecklenburgh. Sou
muito influenciado pelos lugares, pela atmosfera desta sala por exemplo.
Adoro viver no caos. Gosto de tudo limpo e não gosto de ver pratos
sujos e nem as coisas emporcalhadas, mas gosto de uma atmosfera caótica.
Poeira é o que não falta aqui. Incorporo a poeira cinzenta
recolhida em meu ateliê às minhas pinturas. A poeira parece
eterna, parece ser a única coisa que dura para sempre. Permanece.
A poeira pura parece perfeita para um terno cinza de flanela. Não
entendo nada de durabilidade. Eu me sinto muito mais solto quando estou
sozinho. Trabalho envolto por uma espécie de neblina feita de sensações,
sentimentos e idéias. Não estou pretendendo dizer nada, estou
só procurando fazer alguma coisa. Trabalho para mim mesmo. Como
se pode trabalhar para um público? O que você imagina que
um público possa querer? “Em política, voto em geral com
a direita. _ diz Francis Bacon – “porque ela é menos idealista que
a esquerda. Dessa forma há mais liberdade, não se fica tão
emperrado pelo idealismo da esquerda. Sempre achei que a direita consegue
ser menos ruim”, conclui. A crueldade de Luis Buñuel era um meio
de revelar a humanidade em toda a sua grandeza? Qualquer coisa em arte
parece cruel porque a realidade é cruel. Não se pode ser
cruel no esteticismo atemático e acrítico da arte abstrata.
Acho que as pessoas estão tão amarradas a seus egos( camadas
superpostas de preconceitos) que preferem o tormento ao aniquilamento.
(Texto criado a partir da leitura e do fichamento do livro: Entrevistas
com Francis Bacon – A brutalidade do fato – entrevistas feitas por David
Sylvester – São Paulo – Cosac & Naify Edições
– 1995.
José Luiz Dutra de Toledo é historiador
formado pela UNESP.
Mande um e-mail para José
Luiz Dutra de Toledo ou para a direção
do jornal.
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