Os cavalos cavalgam, logo os cães ladram.

José Luiz Dutra de Toledo

De repente, o motorista espanhol do auto-bus que nos levava de Lisboa a Madrid, passando pela província espanhola da Estremadura, na noite de 19 de Enero de 2000, parou o coletivo e foi lá atrás e ordenou que os imigrantes chineses que faziam folia no fundo daquele coche se sentassem em poltronas separadas no meio do veículo, caso contrário seriam postos para fora. Assanhada pelo ataque xenofóbico do motorista, uma loura madame luso-peruana  chamou os chineses de delinqüentes e bradou: _ “Ai de vocês se encostarem em mim!...” 

Feéricamente iluminada, La gran via, à noite, ainda fervilhava. Corro à loja El Corte Inglês e compro um pacote com todos os filmes de Sarita Montiel. Mesmo com a advertência da lojista que mo vendia  de que no Brasil os vídeos funcionam noutro sistema, diferente do europeu.
Li uma noite um interessante ensaio sobre o direito consuetudinário dos celtas. Sabedorias minimalistas milenares. 

Apesar de Barcelona me ser mais atraente que Madrid, julguei que na capital catalã teria muito mais problemas de comunicação com meus circunstantes espanhóis que em Madrid dado o dialeto ainda praticado em toda a Catalunha. Além do mais, a inflação espanhola murchou dramaticamente meus bolsos, assustando-me, fazendo com que eu batesse em retirada rumo ao norte de Portugal.

Entramos num longo túnel na região montanhosa adjacente a Àvila, Valadollid, Los Toros, Tordesilhas e talvez Salamanca... um túnel estreito, perigoso mas bem sinalizado. Achei as estradas espanholas menos modernas que as de Portugal. As auto-estradas portuguesas são notavelmente mais dotadas de equipamentos e recursos tecnológicos, espaciais e humanos mais eficazes e avançados.

Passei há quase um mês pelos campos espanhóis crestados pela neve, que até hoje queima e umedece Ávila, onde a mística Teresa sentiu o frio dos mares da Lua e, colhendo dos poros o pó e a areia coalhada após silencioso suor das suas peles, entregou-se ao universo pulsante do seu divino corpo. Untado com o mais artesanal azeite de oliva.

Este texto será uma espanhola colcha de retalhos (collage), um arranjo estético- literário por mim feito com fragmentos pinçados do romance A virgem  vermelha do teatrólogo espanhol Fernando Arrabal, autor da conhecida peça teatral Cemitério de automóveis (encenada nos anos 60 em São Paulo pela empresária Ruth Escobar) . Este romance de Arrabal foi editado em Portugal pelas Publicações Dom Quixote – Lisboa – em 1987. Aliás, na chegada a Madrid, na manhã de 20 de Enero de 2000, vi um enorme cemitério de pesados e longos caminhões.

(...)” É a tremer com todo o meu corpo que te escrevo. Com que imensos escrúpulos relatei aos polícias e aos juizes, desprovida de artifício e de fingimento, como fui obrigada a sacrificar-te. Desde então, confidente única do meu próprio tormento, sou assaltada por tantos tumultos que não existe dor que eu não tenha abrigado no meu coração, nem tortura que não tenha sofrido. Conheci tantos infortúnios! (...) Era tão vital que os motivos do sacrifício aparecessem à luz na grande praça do mundo! Jogava-se ali muito mais do que a minha vida. (...) Mas quando a estrela da manhã se preparava para te saudar, tu escolheste precipitares-te no abismo. (...) Ninguém é profeta na sua terra. Escrevo-te agora que tu habitas tão longe deste mundo. O teu invólucro desvaneceu-se e eclipsou-se. Só brilha e vem à superfície a tua recordação. Como eu sofro! (...) A minha vida começava com essa fuga!.. (...) Antes de festejar os meus vinte anos descobri na biblioteca os livros secretos que me transformaram. (...) Sempre raciocinei com a cabeça e não com o ventre como fazem tantos homens e mulheres. Não iria forjar mais um elo na cadeia da ignorância composta de escravos apáticos e insípidos senhores. Era essa a razão por que eu seria mãe e não uma galinha poedeira. (...) Sonhei que um moço cego coberto de escamas conduzia uma menina fascinada pelos raios do sol. No ar esvoaçava um pajem, com uma bússola na mão. (...) Sou o consolador dos desconsolados. (...) Do teu nascimento, só me separava o curto choque da concepção. (...) No caminho da certeza não havia lugar para divagações nem deambulações no labirinto caprichoso da imaginação. (...) Eram os meus instintos a aranha que tecia a minha natureza. (...) Tantos poços secretos e escondidos penetram o espírito como estrelas ocultas no firmamento. (...) Eu imaginava que o Sol e a Lua se banhavam no líquido original composto pelo suco do sémem. O fogo exterior do enxofre acabou por se dissolver, sublinhou-se e por fim calcinou o líquido, transformando-o em mercúrio. (...) Eu soube que tu já existias, desde a eternidade, antes ainda de seres concebida. Tu adiantavas-te ao rebentar das torrentes originais da terra e às primeiras nuvens, cisternas do céu. (...) A minha filha será a palma da paciência, a flor entre os espinhos, a rosa mística, o vaso espiritual. (...) Peço-lhe apenas que introduza durante alguns momentos a sua carne na minha para depositar em mim as gotas de sémem que exige o meu projeto. (...) Para uns, eu surgia do caos, louca, sombria e tenebrosa; para outros, à beira de um abismo em chamas, eu apresentava-me como depravada e sem moral. (...) Sinto as entranhas cheias de punhais e de espanto. Sou um vagabundo louco e maldito no meio dos cisnes de lata. (...) Sem a menor sombra de fé, penetrava no santuário, errava em caminhos falsos, mas a sua alegria desencadeava-se, contagiosa. Como o relato das suas próprias peregrinações o estimulava!.. (...) Como era bom quando nos abraçávamos. Eu farejava a lama das suas pernas e apercebia-me da matéria fresca do canto nupcial. (...) Depois vieram os seus êxitos, como chefe de orquestra, e o esquecimento. (...) Este desengano tão doloroso que eu julgava encerrado e apodrecido fermentava ainda com uma acidez enjoativa, exalando um fedor de sepulcro. (...) A morte  surpreendeu-me tanto, a mim, que a tinha  sempre considerado como um sinal da obra regular da Natureza. Saber que não tornaria a ver meu pai muito amado, encheu-me de uma pena profunda, tóxica, pútrida, infecta, tenaz, uma dor que não era perceptível pelo olfato mas pela razão. (...) O tempo mais luminoso da minha vida, tanto nos caminhos estreitos das minhas agitações como nas avenidas largas das minhas prostrações, passei-o pensando apenas em ti. Os meus sacrifícios foram sempre isentos das lepras do interesse deslocado. (...) Um dia saberás que a semente da terra se mistura com a areia do deserto, durante a noite, num triplo símbolo de morte. (...) Tu queres  ter comigo uma ligação carnal numa cama de pedra do tamanho de um transatlântico no meio dos lânguidos arcanjos do sonho? (...) O meu náufrago não sabe levantar a sua cimitarra e descarregar os seus ardores senão no corpo peludo de um homem. (...) parece-me que vens a voar por entre as árvores penduradas das estrelas. Irmãzinha de olhos noturnos, amo-te com lírios molhados. Mas não exijas de mim o que não te posso dar. (...) Como eu ficaria fora de mim ao ver surgir das minhas entranhas, entre as minhas coxas de homem, uma magnólia de sangue que surgisse como um jovem touro selvagem! Que encanto ser mãe! (...) Que sobrecarga inútil de miséria!.. (...) um elefante levando uma torre às costas flutuava no ar. (...) Salta como uma rã mecânica no meio dos espelhos e das melancolias. (...) Josué teve de dar sete vezes a volta a Jericó antes de lhe ver cair as muralhas. Os cisnes também deram sete vezes a volta a Delos e Apolo nasceu na oitava volta. E eu perguntava a mim própria que volta estava a terminar, e quantas negativas tinha ainda de suportar antes de encontrar teu progenitor. (...) Já não há homens. Morreram todos no século XIV. Só restam borboletas de monóculo. (...) Sonhei nessa altura que um Conselho de professores me fechava num caixão de pedra para me castigar pelas minhas doenças. Esquilos sorridentes aproximavam-se para roer os ossos e a carne. (...) a moral era uma figura estranha tão desconhecida como a fidelidade. (...) um cordeirinho reclamando a sua chávena de orvalho! Quando às escondidas, eu o trespassei com o meu punhal musculado, ele estava de gatas, felicíssimo. Gemia baixinho, pedindo-me para que eu lhe enfiasse até lhe atingir o interior da alma. (...) o orvalho onde se encontrava encerrado o espírito de uma menina assassinada. (...) As coisas não são como são. Não se devem procurar grinaldas sujas na ausência. (...) O tempo esteriliza, corrói, gasta e elide as minhas recordações. Elas perdem a nitidez, mas o sentido permanece. No espelho da memória, como rebrilhavam a doçura e a simplicidade do seu pai!... (..) Eu sonhei que um enorme lagarto fêmea fugia de um forno onde se coziam bolos para abrasar no meio das chamas, uma menina que era uma rainha com três coroas: a mais volumosa correspondia à sua situação de bastarda. O lagarto fêmea envolveu-a em várias faixas. Depois meteu-a como se fosse uma fava num bolo- rei gigantesco. Quando o animal pediu açúcar para o polvilhar, uma pianista levou-lhe um pequeno boião com estas palavras escritas: “sal dos filósofos”. (...) O luto só é bom para os espantalhos. (..) A morte os elevou à dignidade de relíquias invisíveis. (...) Eu atenuava a minha extensão da minha impaciência com o bálsamo das previsões. (...) Estudei este assunto à luz da verdade clara, foi por isso que perguntei a mim própria se devia conceber-te de cabeça para baixo e de pernas para o ar, como uma crucificada. (...) Eu levei tempo a considerar que a ausência de luz aparece  como uma exigência indispensável a qualquer fecundação. A Natureza engendra na plena escuridão. Os cogumelos, por exemplo, nascem, crescem e desenvolvem-se durante a noite. Graças ao meu repouso noturno, o meu próprio organismo restaurava-me as forças, renovava as minhas células que a luz diurna me subtraia e deteriorava. (...) uma águia lutando com um dragão, um guerreiro esmagando uma serpente ao pé de um carvalho, um gigante cortando as cabeças de uma hidra, uma víbora vermelha estrangulando um escorpião verde, um cavalo espezinhando uma salamandra e uma menina crivando de setas um tigre enraivecido. (...) um geômetra pescava a linha de um peixe de porcelana, que na realidade era o Sol, mas tão pequenino!... (...) Juro-te pelo que tenho de mais sagrado, agora que tu vais oscilar entre o vácuo e a vertigem profunda. (...) colocando-me sob a virtuosa tutela da serenidade. (...) deixei arrastar-me pela felicidade. (...) é tão lindo, uma borboleta a rodopiar no seu tutu de renda. (...) o meu pai contemplava com tristeza o eclipse da sua própria vida. (..) não queria espiar o cortejo de mistérios que povoava as noites do seu amigo. (...) Esta rixa, tão paradoxal, libertava, apesar do seu furor, um cheiro a podre, a sepulcro e a flores murchas. Eles atacavam-se como duas personagens vindas de uma humanidade desaparecida, de um mundo esquecido. (...) abatido ensombrou-se sozinho como um sol de raios negros transformado num astro frio. (...) A Espanha da minha infância foi a Espanha de Marcelino , pão e vinho e de El Cid . (...) uma leoa de aço aproximou-se de nós, deu um estranho salto e por fim tomou uma atitude heráldica. Uma amazona minúscula ofereceu-nos um pequeno barril atravessado por uma flecha. (...) Nunca esquecerei o último olhar a mim dirigido pelo meu cachorro Aragão. (...) A língua usada por Adão para nomear todas as criaturas, a linguagem das aves, uma língua que era o instinto e a voz da Natureza.(...) Viam-se nela três Incas, exatamente iguais, mas com três inscrições diferentes: “ linguagem diplomática”, “linguagem de corte” e “linguagem universal”. (...)  a linguagem original que a tua filha conhecerá, os animais já a compreendem. Que loucura!.. (..) Esta secreta fraternidade entre a medicina e a bruxaria horrorizava-me. (...) A paciência é a escada que sobem os filósofos e a humildade a porta do seu jardim. (...)  o meu pai entrava num velho castelo em chamas para ser incinerado. (...) Um leão e uma leoa olharam-se fixamente. Cada um deles tinha entre as patas uma máscara humana incandescente, como dois sóis. (...) A luz e as trevas misturadas anunciaram-me que tu eras já a imagem do mundo. (...) Ao ver-te, eu sentia que progressivamente a dor insuportável se transformava em verbo incarnado. (...) Viva Santa Teresa de Ávila!.. (..) Antes de mais, é preciso que eu retire a minha estrela do lodo. (...) Arrasto um ventre de lata desdentado e aranhas roucas. (...) duas mulheres- juizes coxas coroaram-te de flores, folhas e frutos para te transformarem em imagem da natureza fecunda. Outra macaca pôs no meio da folhagem situada à tua direita, o Sol, e na da esquerda, a Lua. Uma serpente com a cabeça humana surgiu, ameaçadora,  enroscada no tronco de um pinheiro. (...) a via do sábio desembocando no mar dos Filósofos. (..) suas conclusões sectárias e exaltadas. (..) conhecimentos mais rançosos do que o toucinho da arca de Noé. (..) Tu não passas de um velho pássaro recheado de filosofia que voa acompanhado do filho num infinito seco e murcho. (...)  não consegui encontrar  espantalho capaz de assustar o rebanho das minhas recordações. (...) Nessa noite sonhei  que um dromedário fêmea com asas e focinho de lebre preta reinava sobre o mundo noturno da Lua. (...) Liberta do jogo dos preconceitos, tu recebeste diariamente lições particulares dos professores menos contaminados pelas artimanhas e intransigências contemporâneas. (...) Como eu estava desnorteada! Ignorava até que ponto a educação é incapaz de arrancar as ervas ruins da hereditariedade. (...) uma águia voando com sua presa tinha uma inscrição que dizia: “O espírito eleva-se quando a matéria se precipita.” (...) Eu própria me sentia tão vil, tão disforme, tão enferma na vulnerável fortaleza da minha vida. (...) Quando nasci, comecei a morrer. _ O caixão é a razão de ser do berço. (...) A Espanha cheira a sebo de boi, a azeite de oliva, a sémem de toureiro. (...)  Sonhava que me via a um espelho. A porco e pouco, o meu rosto desfazia-se  até se transformar numa cara de corvo. O meu corpo segregava uma gordura oleosa e soltava um cheiro pestilento. (...) Sarita Montiel sobrevive. (...) Vocês marchavam sobre as vagas do mar desencadeado. (...) São infinitas as filas de visitantes ao Museu do Prado onde está exposta a impressionante tela do Triunfo Eucarístico de Rubens. (...) Para eles, tu eras uma menina prodígio, um fenômeno de barraca de feira. (...) Tinha chegado para ti o momento de conhecer os mistérios que têm o ventre por sepulcro. (..) e a terra inteira seca e cheia de gretas. (...) as plumas do seu jardim das trevas. (..) O ensino universitário não consegue atingir os verdadeiros mistérios. (...) Ele é mais velho que Matusalém. (...) Tenho a cabeça cheia de piolhos. _ Atiro-os nos jardins públicos para cima das mães e dos seus pimpolhos. (...) Uma menina gladiadora rachou em duas com a espada uma colmeia sem se assustar com o enxame de abelhas irritadas. O mel derramou-se devagar até escorrer a teus pés. (...) Era uma via sem perspectivas, barroca, e sem outra saída a não ser a singularidade. (..) Caia com ele nos lagos tão afastados da eterna sabedoria. (..) Nessa noite sonhei que navegavas num veleiro sacudido pelas ondas. A areia do deserto alcatifava a ponte do navio. Abandonaste o leme para plantar ossos junto de um pinheiro enraizado no castelo da proa. (...) Enquanto os brasileiros se emocionam cantando com os imigrantes italianos da novela Terra Nostra , a extrema direita nazista austríaca inicia, bem no coração da Europa, um novo ritual de ódio aos imigrantes de outros países europeus, asiáticos e africanos. Numa Europa crescentemente racista e xenófoba. (...) Não posso viver com um viúvo  enrolado em musselina de chumbo. (..) Na sua opinião, tu devias ser acólita da igreja, filiada no sindicato, militante de um partido, devota de uma seita e militarista incondicional. (...) Fechou  mãe e filho numa arca e atirou-os ao mar. (..) mas enviou-os à Terra dos Sábios, onde passaram o resto da vida a contemplar milagres. (...) Não são muitos nem percentualmente significativos os números de europeus que se deslocam entre  e/ ou conhecem os vários países do seu continente e alegam fatores sócio- econômicos para explicarem seus enichamentos.  Será que o racismo xenófobo na Europa  contemporânea não é mais uma tentativa extremada de auto- defesa da identidade do Velho Mundo Ocidental num contexto internacional pós- humanista? (...) A dor se esgotou com uma monotonia cansativa. A consolação deslizou entre as mãos  de Abélard. (...)  e a porta da prisão caiu com enorme barulho. (...) Tu eras uma velha mas com feições de menina. (..) Não somos todos iguais. (...)  Tenho o dever de ser doida pelo que é mais repugnante. (...)  a tua felicidade nunca soube imaginar a falsa glória. (...)  Tu lançavas-lhe  sobre os ombros uma capa filosofal enquanto espezinhavas uma serpente que rastejava a teus pés (...) O racismo xenófobo que acende humores de ódio em todos os países da Europa é a resposta não necessariamente nazista de uma das regiões  mais tradicionais e mais acossadas por seus vizinhos em todo o mundo... uma resposta  à possibilidade de se desfigurar com a invasão de povos africanos e asiáticos. Até hoje Átila, Gengis Khan e os sultões árabes e os imperadores turcos apavoram e embalam os milenares e seculares pesadelos europeus. (...) Uma noite, vi em pleno vôo a pomba da arca de Noé, com um ramo de oliveira no bico. Quando passou por cima de mim deixou cair uma lágrima de líquido branco. Eu provei-a com delícia. Era na realidade uma gota de leite imortal das aves. (...) Atirava 7 pedras contra um enorme rochedo isolado no mar. O teu rosto estava delicadamente esculpido na rocha. (...) Com que esplendor resplandecias na escuridão do mundo em que vivíamos. (...) não me denuncies à tropa por causa do meu estado de saúde. (...) perdida na contemplação, distraída e entregue a tão grandes vertigens. (...) Pertenço à raça dos que assobiam quando torturam. (...) Os golpes da foice da agonia puseram termo à sua aventura terrena, e morreu nos meus braços com um rictus de sofrimento que lhe deformava o espírito. (...) Chevalier proclamou que queria tomar um navio para partir sozinho para a Abissínia, como se Abélard tivesse deixado de existir para ele. (...) como se árvores secas tivessem podido insuflar-te  a menor vitalidade. (...)  o seu espírito elevou-se reencarnado num anjo, até chegar a uma estrela que brilhava no firmamento junto de uma árvore coberta de frutos. (...)  fazendo mil rodeios, como se te emboscasses no hieróglifo da longa vida. (...)  perdida no labirinto, ficavas desprovida do fio de Ariana que permitiria materializar a unificação sintética. (...) Sonhei que desenhavas na praia o labirinto de Salomão de três entradas e nenhuma saída.  No ar, suspensa de uma nuvem, balouçava-se uma estrela-do-mar . Por cima dela, no céu quatro terrenos lavrados compunham a agricultura celeste. As espigas de ouro e as sementes de enxofre brilhavam, recheadas de mercúrio. (...) Benjamin e Abélard , como dois cavalos de Átila,  queriam devastar  o nosso território. (...) não podiam cobri-lo de vulgares emplastros. (...) Tu brilhavas como uma estrela, mártir, laboriosa e imoral. (...) Vou sepultar a honestidade. (...)  uma tempestade furiosa vergastava uma rocha cristalina e frágil, ameaçando deixar que o mar a devorasse. (...)  acetinavas sob a influência do ferro a brancura das matérias. (...) tenho a sensação  de encher completamente a redondeza do universo. (...) a menina ressuscitou os mortos. (...) Deves saber  que os filhos não são propriedade dos pais. (...)  não posso ser toda a vida uma boneca sem vontade própria nas tuas mãos. (...)  caminhavas majestosamente em direção a um vergel. (...) queimou-te as mãos  com as labaredas que deitava dos pulmões. (...)  a traição dissimulada na própria opacidade pintava a abóbada do céu com sombras de luto. (...) Sonhei que uma peça de artilharia do século XVI disparava um tiro de canhão. O projétil caiu numa lagoa, assustando os cisnes.  (...)  via o teu esqueleto com as doze chaves... via o teu cadáver devorado pelos vermes no interior de uma esfera transparente. (...)  vermelho, a flor do pescador. (...) o mercúrio filosofal recebe o seu esplendor do enxofre como a Lua a sua luz do Sol. (...)  Protege-me debaixo da figueira. Referias-te à figueira do faraó que abrigou os sábios durante a sua fuga, dando-lhes os seus frutos para se alimentarem e a humanidade das suas raízes límpidas  e frescas para lhes matar a sede. (...) Levaste dez anos a extrair o ouro do enxofre e vinte e sete dias a extrair o mercúrio de Saturno. Mas a resolução de morrer, tomaste-a apenas nalguns minutos.  (..) A angústia  com que eu pensava no fim do mundo, num cataclismo universal que trouxesse a ruína total ao planeta e o extermínio de todos os seus habitantes. (...)  Como é infinitamente mais doloroso matar uma filha do que traze-la ao mundo!... (...)  Acumulava na minha carne, nos meus ossos e no meu espírito, todas as penas do universo. (...)  Sofria tanto que não consegui  chorar. (...) Tu correrás no Sol  e eu caminharei sob a terra. (...) Habitando no meio das estrelas, com vertigem nos olhos, como eu me senti de repente feliz!...

José Luiz Dutra de Toledo é historiador formado pela UNESP.

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