Katiúcia tropeçava nos astros desastrada
mas ainda conseguiu chegar lá
José Luiz Dutra de Toledo
Mesmo peregrinando por todos os jornais cariocas há meio século
o ex-seminarista ganhou as graças dos Frias da Folha de S.Paulo/UOL,
ascendeu ao Conselho Editorial repetindo o itinerário de Oto Lara
Resende, galgou à condição de imortal da Academia
Brasileira de Letras. Há muito, esta instituição tão
falida e medíocre como o atual establishment “cultural” brasileiro,
já era considerada conservadora, retrógrada, depositária
de múmias e fósseis mas uma tentação até
para os seus críticos mais ácidos (como no caso do falecido
imortal Antonio Houaiss). Aliás, entre os seus 40 atuais componentes,
eu só respeito como escritores e intelectuais os seguintes: Rachel
de Queiroz, Antonio Olinto, Celso Furtado, Murilo Melo Filho, Eduardo Portella
e Roberto Campos. Os demais nada mais são que excrescências
do poder literário hegemônico. A crônica que o novo
imortal Carlos Heitor Cony publicou no caderno Ilustrada da Folha de S.
Paulo, edição de três de Março de 2000, na qual
escreveu que a Aids é uma doença da moda e que, para contraí-la,
basta freqüentar gays, deveria ser amplamente divulgada entre escritores
brasileiros e portugueses para que os mesmos sentissem na pele o antro
de conservadorismo nojento que cada dia mais e mais se aloja nos já
pútridos nichos da Academia Brasileira de Letras, a mesma instituição
que abrigou em seus quadros ditador como Getúlio, presidente por
acaso como Sarney e o ex-ministro do Exército no período
ditatorial Aurélio Lyra Tavares, casa de Machado de Assis (?) localizada
na avenida Presidente Wilson, no Castelo, centro do Rio de Janeiro, ao
lado do Consulado dos Estados Unidos, cujo presidente brincava com sua
estagiária Mônica Levinsky em plena Casa Branca, o que é
ótimo, sem dúvida. Aliás, para ganhar mais leitores
explorando o filão erótico, entre os imortais destaco o quase
escritor João Ubaldo Ribeiro, que em seu livro A casa dos Budas
ditosos trafega o tempo todo no fio da navalha, entre a literatura e a
literatura masturbatória tão apreciada pelos que não
ousam vôos mais altos que os ares empestiados com cheiros de bundas,
ventos, gases e ares há muito dominantes na cultura brasileira.
O pretensioso Sr. Cony (admirável apenas enquanto merecedor do amor
de sua falecida cadela) há muito vem sonhando com um Prêmio
Nobel e em suplantar ou se equiparar à estatura literária
de um José Saramago!.. Coitado! Tem muito chão até
lá!... Viva a hipocrisia do poder temporal e dos poderes atemporais
dos imortais literatos brasileiros (que até a eleição
de Dinah Silveira de Queiroz acreditavam que só homens fossem escritores!...)
e viva São José, em cujo dia (19 de Março) os espanhóis
comemoram o dia dos Pais!...
Quanto mais desorientada espacialmente ou quanto mais espaçosa
for uma pessoa mais mal educada ela é.
Quando perguntaram à cantora portuguesa Amália Rodrigues
se ela enquanto cantora expressava a alma nacional portuguesa, ela respondeu:
“Eu expresso só a minha alma pois expressar a alma de uma nação
é uma carga muito pesada para mim.”
Um vídeo-maker alemão de 31 anos, radicado em Iquitos,
no Peru, elogiando-me num chat da internet, chamou-me de fauno lascivo
e eu adorei.
Um dos cenários mais pavorosos que eu já vi em toda a
minha vida é a capela ecumênica do aeroporto de Guarulhos
– Estado de São Paulo, onde passageiros sobressaltados ou parentes
de vítimas de acidentes aéreos podem se recolher para rezarem,
fazerem suas súplicas ao Altíssimo.
Na noite do primeiro sábado em Lisboa, 15 de Janeiro de 2000,
eu e vários associados à Opus Gay fomos jantar num dos super-apertados
restaurantes do bairro Alto, um sítio gay lisboeta, e tivemos como
vizinhas de mesa duas lésbicas rizonas e cínicas. Uma delas
era tão corada que nem me sugeriu a idéia de que pudesse
estar usando rouge. Ela lembrou-me aquelas brancas caipiras mineiras que
adoram comer aqueles imensos ovos de pata fritos no jantar. Bebiam vinho
e, assim, tinham no embriagante líquido dionisíaco mais uma
fonte para os seus saudáveis rubores e enredos para novos e incessantes
cochichos, rumores que as levavam a estrepitosas gargalhadas. Eu as olhava
com simpatia e multiplicava os seus sorrisos sem ao menos saber as causas
e os motivos para tão freqüentes risadas. E como comiam!...
Gente!... Eram saudáveis demais!... E ainda fumavam, vejam
só!...
Cheguei de madrugada em Madrid. Avistamos de longe a enorme paisagem
madrilena onde se entrelaçavam espanholamente pelo menos quatro
milhões de almas. Uma cidade tipicamente européia, ou seja,
onde se coadunam cenários antigos, medievais, renascentistas, barrocos,
oitocentistas e o visual néon metropolitano contemporâneo,
pós-moderno e cosmopolita. Lojas de vídeos eróticos
e pornô-shoppings ao lado de farmácias, livrarias, restaurantes,
bares e mercearias ou saunas em ruelas de calçadas estreitas, trânsito
de automóveis mais ou menos congestionado, gente gesticulando e
conversando pelas ruas ou nos bares que lhes sejam familiares, tudo
isso a poucos quarteirões da Porta do Sol e não longe do
Museu do Prado. Era 20 de Enero de 2000.
A roupa de cama mais aconchegante que tive em minhas 16 noites européias
foi a que me serviram no Hotel Peninsular, na rua Sá da Bandeira,
no centro histórico de Oporto, mais exatamente na noite de 22 para
23 de Janeiro de 2000. Eu, nu, entre aqueles lençóis de popeline
ou de cambraia e aqueles deliciosos e peludos cobertores inesquecíveis,
dormi ali uma das minhas mais paradisíacas noites de lua cheia.
Depois de voltar de um concerto de músicas de Bach regido por um
maestro holandês oferecido pela Fundação Calouste Gulbenkian
no centro de convenções de Santa Maria da Feira, perto de
Espinho, no norte português, no vale do rio D’Ouro. Quantas casas
seculares, talvez milenares, em ruínas ou abandonadas, meio deslocadas
em paisagens cada vez mais seccionadas por viadutos e auto-estradas moderníssimas!
Na minha infância, um dos meus êxtases eu vivia naqueles
circos que a meninada da minha aldeia natal armava nos fundos de quintais.
Com picadeiro em terra batida pelos pés da molecada, arquibancadas
inseguras e um reboliço de tirar o sono da gente na véspera
do espetáculo, era ali que virávamos as costas para o que
nos rodeava e nos divertíamos prazerosamente. Além dos circos
dos meus vizinhos eu organizava procissões com santos de barro que
eu mesmo esculpia e com bandas de música improvisadas em nossas
sérias e compenetradas bochechas infantis.
Agora há pouco chovia ferozmente e um bravio lobo rosnava ameaçadoramente
no infinito. Os trovões mais as lufadas de vento e as trilhões
de pedrinhas de gelo assustaram e amedrontaram minhas cachorras. Depois
que a chuva passou e as enxurradas minguaram, uma delas quis brincar com
o rodo usado para secar a garagem cujo piso ficara forrado de granizo.
Bendisse a força da natureza revolta e solucei alívios profundos.
*************** José Luiz Dutra de Toledo, 48 anos, Mestre em
História pela UNESP de Franca/S.P. ; Prêmio Clío –
1992 da Academia Paulistana da História; colaborador de diversos
jornais de vários estados brasileiros desde 1967; professor e hemerotecário;
proferiu em Janeiro de 2000 duas palestras em Lisboa e Porto sobre a presença
homossexual na História e na Literatura Brasileiras; há três
anos tenta fundar e fazer funcionar o centro de Expressões e Estudos
sobre Imaginários, Mentalidades e Tendências Contemporâneas,
com sede provisória em sua residência à rua 21 de Abril,
77 – Vila Tibério – Ribeirão Preto/ Estado de São
Paulo – Brasil 14050460 e-mail: dutol@netsite.com.br O C.E.E.I.M.T.C.
pretende possibilitar o agrupamento, a expressão e estudos assim
como o intercâmbio entre pessoas com curiosidades e interesses intelectuais
voltados para questões relacionadas com imaginários, mentalidades
e tendências contemporâneas bem como a divulgação
e a discussão dos seus textos e ensaios e/ou artes gráficas
e eletrônicas.
José Luiz Dutra de Toledo é historiador
formado pela UNESP.
Mande um e-mail para José
Luiz Dutra de Toledo ou para a direção
do jornal.
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