Bitware, Hardware e Software.
José Luiz Dutra de Toledo
Os habitantes das fozes dos rios de la Plata e Tejo são semelhantes
em suas melancolias e nostalgias, em seus tangos e fados, bordéis
e passionalismos. Fico com a impressão de que, tanto Montevideo
quanto Lisboa e seus numerosos antiquários, respiram a tristeza
do encontro diluidor da alma de um rio com o infinito oceânico, a
foz como o fértil vale do fim!...
Os senhores e patriarcas da Antiguidade foram os primeiros a demarcarem
seus domínios instituindo fronteiras. Agora a globalização
implode e explode todas as fronteiras e eleva as mulheres a símbolos
de discutíveis nacionalidades. Carmen Miranda era portuguesa embora
seja um ícone da cultura brasileira. Sarita Montiel era de Montiel,
cidade atrelada ao centralismo madrileño. Evita Perón era
a padroeira dos descamisados argentinos embora fizesse o jogo das elites
portenhas. Brigitte Bardhot destronou Edite Piaff e sagrou-se símbolo
da França, mas hoje está se comportando como uma mera garota
propaganda da extrema direita francesa, que pena! Abaixo Le Pen!... Gina
Lolobrígida e Cláudia Cardinalle ainda disputam o cetro de
musas da Itália nadando em borbulhantes águas frisantes.
Golda Meir disputa no céu, até hoje, com o general Moshe
Dayan, os louros da vitória israelense na guerra dos seis dias.
Margareth Thatcher disputa com Lady Diana o cetro de mulher símbolo
da Inglaterra do século XX. Assim como Benazir Butho em seu Pakistán;
Melina Mercury na Grécia pós- coronéis e Jackeline
Kennedy e Marilyn Monroe se rivalizam na condição de mulher
símbolo da sociedade estadunidense no século que expira daqui
a 9 meses. Indira Ghandi foi a mulher que melhor representou a Índia
na segunda metade do século XX. Amália Rodrigues, quando
tiver seus despojos acolhidos pelo Mosteiro dos Jerônimos, reinará
impassível com o cetro de mulher símbolo de Portugal novecentista.
A ministra portuguesa da Igualdade Social, Maria de Belém, esteve
em Janeiro de 2000 visitando camponesas do Alentejo e delas recebeu uma
muito significativa reivindicação para quem sofre os rigores
januários do inverno: uma agência matrimonial para trabalhadores
rurais das diversas províncias lusitanas. No metrô de Lisboa,
em meados de Janeiro deste ano 2000, fui assediado sexualmente pelos olhares
nada inocentes de uma menina de 12 anos com uma flor de sífilis
aberta num canto logo abaixo do seu lábio inferior. A estas horas
deve estar em plena atividade sexual naqueles escuros bosques urbanos dos
cinemas lisboetas da praça Restauradores o meu amigo gay cinqüentão
Carlos Alberto Pinto.
Se a internet é a medula espinhal da globalização,
o computador é a representação tecnológica
dos labirintos das nossas entranhas cerebrais e abdominais. O cérebro
é software, o intestino é hardware e o coração
é bitware.
Um grande amor ou uma grande mentira se confundem nas sensibilidades
dos infelizes e inviáveis seres humanos.
Uma forma de transgredir fronteiras é viajar, sonho cada vez
mais realizável nestes tempos de globalização. Desde
Marco Pólo os registros dos viajantes atraem leitores e hoje, ao
lado das biografias e memórias, é um dos gêneros literários
mais populares.
Cecília Meirelles, que viajou por todo o Brasil, por vários
países europeus e até pela Índia, nos deixou uma inesquecível
distinção entre o viajante e o turista. Para esta nobre escritora
brasileira, o viajante se entristece ao longo do seu silencioso diálogo
com os seres de todos os tempos que pululam ou circularão pelas
paisagens e cenários por ele amorosa e profundamente olhados, observados
com a sensibilidade dos que não pensam dominar o objeto da sua atenção.
O turista é um voraz e alegre consumidor de imagens, fotos, cartões,
folders, souvenirs comerciais, colecionados e vaidosamente enviados aos
parentes e amigos, repassador de fragmentos fotográficos e iconográficos
daquilo que ousa dizer alegremente que conheceu, atravessou, percorreu
e dominou. Os turistas são bem aqueles que atualizam a célebre
frase militar e imperial romana: fui, vi e venci. Os viajantes são
peregrinos em busca de migalhas e relíquias culturais, entrevistas
ao longo do profundo diálogo atemporal com o que viram, com o que
o coração sentiu e com o que impressionou seu cérebro.
De uma janela de auto-bus, de avião ou de trem lemos as paisagens
e as memórias a nós sugeridas ou sutilmente anunciadas nos
sagrados livros, peças teatrais e filmes ou óperas que nos
incitaram, que nos impeliram àquela viagem, àquele ousado
sonho transposto para o real. Eu sei que vivi 16 dias de Janeiro do ano
2000 entre dois países europeus. Agora, no dia-a-dia brasileiro,
tenho a sensação que, por mais de duas semanas, estive num
outro mundo, em sonhos e pesadelos que só agora rumino, absorvo
e digiro. Quem se sente num mundo não acredita que estivera em outro.
Pisar e dormir do outro lado do Atlântico, de onde vieram nossos
ancestrais europeus e africanos há incontáveis anos, é
muito comovedor e inquietador. Todo mergulho nas origens nos marca muito
profundamente. Viver esta experiência era e continua sendo um dos
objetivos mais importantes da minha vida. Um objetivo parcialmente realizado,
mas que nunca seria plenamente vivido. Impossível. Eu sei porque
o é e até onde devemos ousar. Além do bem e do mal.
O apito de uma fábrica em Ribeirão Preto ainda me lembra
aquelas cantigas dolentes de carros de bois. Na noite de quinta feira,
16 de Março, devorei horas de internet e na sexta feira acordei
tarde como um Drácula incomodado pela luz solar.
Adoro macarronada com tutu acebolado e angu. Roncar de barriga cheia
domingo à tarde não é pecado, mas é deprimente.
Dezessete horas e trinta minutos: falta só meia hora para começar
mais um fim de semana. Hummm!... Que preguiça!... Valha-me, São
Fabrício!... “Acho que a imperfeição é que
torna as pessoas interessantes” _ nos diz o designer Barry Deck. E eu conclamo:
_ Idosos de todo o mundo, uni-vos!... São estas as sombras da realidade
da sétima idade ou é acaso a realidade a sombra do outro
mundo, de um mundo divino codificado no almanaque perpétuo do etéreo
olhar faústico sobre o orbe descortinado numa janela de avião
em vôo transcontinental? Hiroshima, meu horror. “Eu não sou
ateu, ainda que não creia em Deus e nem tampouco reze”._Emil Ciorán,
filósofo e escritor romeno-francês. O mundo ainda é
uma zona em obras nos desaparecidos reinos da Indonésia ou na pós-diluviana
Moçambique. A guerra da Tchechênia é outro pesadelo
do fim do século XX. (...) “O teatro será localizado o mais
próximo possível, na sombra efetivamente tutelar do lugar
onde se guardam os mortos ou do único monumento que os digere”._
Jean Genet, ladrão, homossexual e teatrólogo francês.
(...) “Sei que a tentativa comunista de mudar o mundo foi um fracasso.
Mas o fato de constatar o fracasso não me impede de pensar que esta
sociedade é injusta e é preciso modifica-la. Mas não
sei como...” _ Jorge Semprun, escritor e filósofo espanhol contemporâneo.
(...) “Querer fugir à globalização é uma receita
de caramujo ou avestruz. É uma receita de suicídio”._ Roberto
Campos, economista e ex-ministro brasileiro. (...) “Engana-se quem pensa
que o capitalismo é o regime do dinheiro. Ele é o regime
dos contratos. O dinheiro existiu em regimes não-capitalistas. No
capitalismo a moeda circula pelo contrato”._ Renato Janine Ribeiro, historiador
e professor universitário paulista. (...) “Aliás, são
sempre os outros que morrem. Os homens são mortais, os quadros também.
Não creio na palavra “ser”. O conceito de ser é uma invenção
humana. Arte é a falta. Gosto dessa idéia, e mesmo que ela
não seja verdadeira eu a aceito como verdadeira.” _ Marcel Duchamp,
anti-artista francês nascido em 1887. “Inútil, a gente somos
inútil!... Inútil, a gente somos inútil!" _ Titãs.
Criado pela Rádio Voxx de Lisboa o primeiro programa radiofônico
gay português com edição nacional transmitida por emissoras
do Porto, Coimbra e Lisboa. Chama-se Vidas Alternativas. E tem uma seção
até para o específico segmento dos gays motoqueiros portugueses.
Segundo o jornal The Brasilians, da comunidade brasileira de New York,
em seu vigésimo oitavo ano e em sua edição número
294, o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan
considera o Brasil “a maior atração turística, reflexo
de uma cultura da Paz. (página 4 E). Do repertório ibero-americano
e internacional da fadista portuguesa Amália Rodrigues, a música
que mais me emociona é Barco Negro. Estridentes palmas fecham o
filme El último cuplé, o último estrelado por Sarita
Montiel, em 1966. Entre todos os seus filmes, este é o que menos
me agrada. Principalmente porque a melhor garota propaganda da barroca
melancolia da Espanha franquista mostra cenas sangrentas das horrendas
touradas de Madrid. Viva Carlo Saura..! Viva Luis Buñuel e Goya
de Aragon!... Viva Pedro Almodóvar!... De tanto sonhar eu
agora só quero dormir. Dormir o sono eterno das pedras. Protegido
pelas dentadas muralhas que sugaram meus antepassados. Embalado pela terra
na qual se enraizaram as mais generosas e labirínticas florestas
deste mundo. Dormir o sono atemporal ouvindo o eterno canto das cachoeiras
do Universo. Cachoeiras de estrelas, de liquens e de asteróides...E
eu, sereno, soluço em paz... aquele alívio reconfortante
e regenerador. E, assim, recomeçam os ciclos, os séculos
e as bicicletas nos levam às paisagens de outros tempos e de outros
mundos.
José Luiz Dutra de Toledo é historiador
formado pela UNESP.
Mande um e-mail para José
Luiz Dutra de Toledo ou para a direção
do jornal.
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