ids, sadismos, masoquismos, busca de corpos lisos ou peludos, gordos ou magros, persistência e superação de dualismos maniqueístas como passivo e ativo, atração de homossexuais masculinos viris por travestis e toda uma gama indescritível de taras e de excitações selvagens, bizarras, além da questão do bissexualismo e da preferência sistemática pelo sexo grupal assim como buscas românticas e sentimentais de namoros rigidamente monogâmicos _ tudo isso, em suma, estilhaçou os perfis, estígmas ou/e conceitos de homossexualismo no mundo contemporâneo. Até a proliferação dos guetos para homossexuais dividiu-os. Uns só vão a bares e buates, outros só são encontráveis em saúnas e muitos só caçam em ruas e praças.

Retornam aos campos e perspectivas individuais o que antes era classificado como genericamente homossexual ou, pela internet, explicitam-se desvairadamente todas as fantasias passadas e presentes e futuras. Também se busca a articulação entre o erótico e o místico. Tal busca já era praticada no início do século XX na escrita de George Bataille, na dança de Nijinski e agora na poesia do brasileiro e capixaba (natural do estado do Espírito Santo) Valdo Motta, autor do livro de poesias Bundo, editado em 1997 pela editora da Unicamp, Universidade Estadual de Campinas.

Tudo isso e muito mais vem inviabilizando macro-projetos políticos unificantes ou mais abrangentes.

No Brasil, já se pode falar em Feminismo nos anos 30, com a extensão do direito de voto às mulheres ( luta liderada por Berta Lutz e por Patrícia Galvão ou Pagú). Também nos anos 30 já ocorriam a organização de movimentos sociais urbanos em defesa dos direitos dos cidadãos negros (movimentos sufocados pela ditadura getuliana do Estado Novo- 1937/1945). Tais movimentos negros dos anos 30 chegaram a ter até jornais culturais para militantes. Estima-se em pelo menos quarenta por cento do total da população brasileira o contingente demográfico afro-brasileiro.

Estes movimentos negros do século XX já tinham o seu lastro histórico nas campanha pela abolição do escravismo, campanhas de brancos e negros travadas durante todo o século XIX.

Reprimidos durante a ditadura de Getúlio Vargas, só no fim dos anos 70 os negros voltariam a se mobilizar e a escreverem a favor dos seus direitos civis e humanos no conjunto da sociedade brasileira. 

Durante o romantismo literário oitocentista os índios também tiveram os seus defensores. No início do século XX o marechal Cândido Rondon foi outro baluarte em defesa dos índios, hoje organizados por ongs católicas ou religiosas estrangeiras. Enfim, os homossexuais foram os últimos a aparecerem na cena política brasileira contemporânea. Mas até hoje nossos parlamentares, magistrados e ministros não ousam explicitar suas tendências e impulsos homossexuais.

Hoje temos vagos, ambíguos e contraditórios dispositivos constitucionais que garantem cidadania a todos os credos, etnias, culturas e orientações sexuais, mesmo que interconflitantes. Já discutimos em nossos parlamentos a legalização de uniões civis entre pessoas do mesmo sexo (discussão considerada não prioritária pelo presidente Fernando Henrique Cardoso em recente entrevista) e há pouco mais de 2 meses juizes pernambucanos reconheceram como direitos dos presos homossexuais a regularidade das visitas íntimas. Mas, por outro lado, a homofobia, o preconceito e a hipocrisia continuam a fazer numerosas vítimas na provavelmente numerosa população gay brasileira. 

Em termos de emancipação civil dos homossexuais, o Brasil parece estar ultrapassando os horizontes passageiros dos 3 dias de Carnaval, o folclore luso-tropicalista do ícone Carmem Miranda e se conscientizando que o preconceito segrega, isola, violenta, indigna e mata. Mas este processo histórico-cultural é lento e só  a livre discussão sobre nossas sexualidades nos garantirá uma secular ruminação e posterior expurgo das nossas hipocrisias ou a superação dos nossos conflitos mais íntimos.
 
(texto das palestras proferidas por José Luiz Dutra de Toledo no dia 15 de Janeiro de 2000 na Opus Gay de Lisboa – Portugal e no dia 22 de Janeiro de 2000 na Opus Gay Norte da cidade do Porto – Norte de Portugal).

José Luiz Dutra de Toledo é historiador formado pela UNESP.

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