O evangelho no teatro de Nélson Rodrigues

Francisco Carneiro da Cunha

Renascimento da arte dramática

Há dois mil anos o Ocidente vivia a mesma crise humana por que passa hoje a civilização cristã-burguesa planetária, em que pesem as diferenças culturais e materiais que do  mundo antigo nos separam. Na capital do vasto império romano, Otávio governava como príncipe augusto. Do ponto de vista da diversão de massa, Roma dava ao povo o seu circo de sangue e horror sob o patrocínio dos césares. Não a libertação pelo carisma e pela catarse artísticos, que havia sido a criação do personagem trágico entre os gregos, mas o assassinato ao vivo de seres humanos por um poder político corrupto e bárbaro. Como no entretenimento popular de nossos dias, o televisivo sobretudo.

Foi então que renasceu gloriosamente na Palestina, entroncamento privilegiado entre Leste e Oeste e formigueiro de povos dentre os quais sobressaía o judeu com sua arraigada mitologia monoteísta, a arte dramática após sua decadência helenística e romana. O drama palestino resgatou a pureza e grandeza da tragédia clássica. Mas, em vez das inúmeras lendas e heróis dos helenos, uma só estória e um só deus.

Era o Evangelho ou Boa Nova contando e cantando a vida (paixão, morte, ressureição e glória) de Jesus Cristo satanás, símbolo do homem renascido em seu poder criador, modelo de artista para todas as épocas. Jesus era nome comum na região, e Cristo o tão falado messias ou salvador judeu, esperança de um povo permanentemente subjugado por poderes externos e, por isso, almejando ardentemente sua completa libertação. Muitos foram os poetas trágicos antigos, mas só três o tempo preservou: Ésquilo, Sófocles e Eurípides. Muitos também os poetas dramáticos palestinos, mas só quatro as igrejas autorizam: Mateus, Marcos, Lucas e João.

Do ponto de vista social e cultural, várias são as diferenças entre o ambiente descrito pelos poemas gregos, baseados na mitologia homérica, e pelo texto palestino, inspirado na mitologia do Velho testamento. Mas do ponto de vista humano a identidade é completa. As estórias de 500 a.C. como de dois mil anos atrás falam da mesma encarniçada luta travada pela criatura humana consigo mesma para humanizar-se. Dando ao mundo, por intermédio de sua consciência universal, Apolo ou Cristo, seu imortal inconsciente, Dionísio ou Jesus. 

Retrocesso cristão

Entretanto, a história oficial do teatro salta da decadente tragédia romana aos mistérios medievais, ignorando não só aquele magnífico renascimento, e os três seguintes séculos de enorme efervescência criadora em um número crescente de regiões do império que se esfacelava, mas também o criminoso e multisecular silêncio imposto a ferro e sangue pelo catolicismo desde que tornou-se poder de Estado no século 4. Para a história tudo isso é religião. Mas religião é arte, só que degenerada e de péssima qualidade.

Para que o catolicismo triunfasse foi necessário fazer do eterno universal um fenômeno pessoal e único. Tornar Jesus, expressão de nossa sagrada ignorância do homem, idêntico ao Cristo, representação de nossa divina sabedoria do homem. Fazer do personagem uma caricatura psicologicamente projetada numa pessoa cujos milagres ou atos são impossíveis porque só materiais e nunca simbólicos (o símbolo é a expressão mais que perfeita da união de matéria e espírito). Fazer do amor criador um escárnio institucional e uma tirania permanente.

O grande medo que temos de Deus!

Há muitos e muitos séculos que desaprendemos a criar o personagem ou nosso inconsciente, porque sequer sabemos do que ou de quem se trata. Só conseguimos imitar pessoas ou, pior, sermos possuídos pelo inconsciente. Privilegiamos nossa pessoa única e mortal em detrimento de nossa pessoa universal e eterna, só ela capaz de criar a outra. Ou mergulhamos cegamente na treva.

A história do cristianismo é uma sucessão de horrores que até hoje ninguém contou devidamente. Está excluída de nossa consciência. É verdade para a qual não estamos psicologicamente preparados porque a patologia religiosa já tomou conta de nosso ser matando nossa criatividade. Somos monstrinhos cristãos e ignoramos quem somos. Cegos guiados por cegos. Frente à barbárie cristã, a stalinista-nazista dela derivada é brincadeira de criança. 

O que aconteceu aos alquimistas é só um exemplo do ocorrido com outros grupos da Idade média. Eles tentaram resgatar na prática a beleza do Evangelho primitivo, mas foram de tal forma reprimidos pelo Vaticano como hereges que sua mensagem perdeu-se num esoterismo impossível de ser compreendido. Em nosso século, Jung fez da alquimia a base de seu método terapêutico, mas trocou a linguagem dos medievais por outra tão obscura quanto a deles. Para não ser excomungado pela Igreja dos psicólogos por haver eleito a Boa Nova como seu método de cura, pois em tudo que cheire a criação a psicologia enxerga um atentado ao seu poder mistificador. O poema palestino não é arte degenerada e nem falsa ciência, é o símbolo perene do homem. Pura arte, essa dádiva de Deus ao homem por nós suicidamente renegada!

O Evangelho

Aquilo que a legítima arte trata concreta e belamente, a psicologia só investiga abstrata e feiamente. Falamos dos valores ou faculdades que constituem o ser humano: intuição, sentimento, pensamento, percepção, instinto e emoção. A psicologia não tem como vivenciá-los coletivamente através do espetáculo criador. Está restrita a papos-cabeça ou duvidosos insights dentro de um gabinete fechado, seja entre duas pessoas ou indivíduos de um grupelho. Filha bastarda da ciência, a psicologia é uma compreensão materialista do homem, totalmente isenta de transcendência. Ao mesmo tempo, não consegue ser exata como a ciência. É um trombolho humano. Sempre que há humanização ou cura em seu meio, algo quase impossível, não é por sua causa, mas unicamente pelo fato do psicólogo, esquecendo-se de suas estúpidas teorias, agir amorosamente em relação à pessoa que o acompanha.

No Evangelho aqueles valores acima estão representados respectivamente pelos personagens São José (masculinos espiritual e carnal criadores), Virgem Maria (femininos idem), Apóstolo (masculino carnal não criador mas buscando criar), Maria Madalena (feminino idem) e satanás (masculino-feminino não criador e não querendo criar). Eternos e universais arquétipos humanos. Toda a estória nazarena gira em torno desse núcleo dramático: Jesus Cristo, seus pais, amigos e seu ego, força adversária da criação que o herói consegue colocar a serviço dela.     

Aquilo que os antigos gregos e palestinos souberam, e também os filhos da Renascença, nós esquecemos. Essa sabedoria perdeu-se no dogmatismo religioso e no conceitualismo psicológico. Já não temos como encarnar lúdica e lucidamente nossos íntimos valores conflituados dando-lhes harmonia dramático-criadora porque simplesmente não os enxergamos dentro de nós. Nós os projetamos satanicamente em nossos semelhantes. Perdemos o dom da introversão criadora, somos seres exclusivamente extrovertidos como quer e manda o capitalismo, herdeiro laico do cristianismo. Vendedores por excelência. Entretanto, o que é que vendemos aos nossos semelhantes? Egocentrismo e narcisismo. A criminosa esquizofrenia do nada!

Há no drama palestino um ensinamento, o “Sermão da montanha”, que o Filho do Homem pronuncia ao iniciar vida pública e que é o melhor método criador do personagem, ontem como hoje. Nenhum dos manuais teológicos, mitológicos, psicológicos e estéticos a ele posterior chega sequer aos seus pés em matéria de clareza e verdade. Só em Mateus (cap. 5, 6 e 7) ele está inteiro. Todo homem ou artista que o colocar em prática com humildade e amor dará vida ao personagem e humanizará nossa raça.

O Evangelho é o espírito da Bíblia e o Sermão a alma do Evangelho, sendo que a essência do Sermão está em seus três versículos centrais nos ordenando amar o mal ou personagem (ama teu inimigo, dele não fuja, ofereça-lhe a outra face quando por ele agredido).  É impossível pô-los em prática em nossa insegura existência produtiva se não os aprendemos e treinamos diariamente em nossa segura vida artística. A verdadeira arte só existe para nos ensinar essa prática social, para que a vivenciemos cotidianamente.

Nada do que foi dito faz sentido se enxergamos o Evangelho como a crônica histórica de um homem único havendo vivido há dois mil anos na Palestina e praticado impossíveis atos materiais, o mais inverossímel dos quais o ressuscitamento de pessoas já mortas, sobretudo o seu próprio. Realmente, o que o cristianismo faz com a imaginação humana é o pior crime cometido contra Deus. Somos cristãos e burgueses mesmo se proletários e ateus! Criadoramente estamos anulados. Somos corpos sem poder criador entregues ao horror da matéria sem poesia. As igrejas dizem-se representantes desse ET aqui na Terra afirmando que só ganhamos o céu por seu intermédio e de seus funcionários. Devemos-lhes obediência e confissão para que nos dêem absolvição e comunhão, a vida eterna em Cristo após nossa morte, nunca aqui e agora, já e a todo instante!

Recriando o mito

Todo verdadeiro artista é um recriador de mito, doce invento. Por isso e em nosso mundo é um recriador do Evangelho, o  mito de nossa era. Nelson Rodrigues não foge à regra. É um evangelista do século 20. Mas o poeta reescreveu o Drama da Paixão fazendo de seus protagonistas anti-heróis jesuítico-diabólicos correndo atraz de salvação e não heróis crísticos já redimidos. Com exceção de Gilberto em "Perdoa-me por me traíres" (1957), Edgard em "Bonitinha, mas ordinária" (62) e sobretudo Arandir em “O beijo no asfalto” (60), cujo tema vem de uma antiquíssima lenda humana sobre a vida eterna, a estória de um filho que beija a boca do pai moribundo para dele receber o mistério da morte enquanto lhe passa a seiva de vida. Há ainda Ana Maria de "Anjo negro" (46) e Bibelô de "Os sete gatinhos" (58), mas não são protagonistas. Maurício de “A mulher sem pecado” (41) e Serginho de “Toda nudez será castigada” (65) são apenas promessas de salvadores, não vingam.

Por que essa inversão em Nelson? Eis que o Filho do Homem é acusado pelos fariseus de só andar com pecadores. Ao que responde: ando com quem precisa ser salvo, quem já está não precisa de mim. É com profundo amor crístico que o nosso maior trágico cria suas criaturas satânico-jesuíticas. Ele não prega o Sermão, vive-o plenamente dando à luz do mundo os filhos perdidos de Deus com o amor do sacrifício criador de uma mãe e de um pai parindo seu filhinho doente. Por isso redime a todos que com ele comunguem. Infelizmente, seus colegas atores e diretores têm tradicionalmente medo desses personagens, não os reconhecendo em si nem os amando como o poeta os amou. Enxergam na obra de Nelson apenas o fato psicológico e social e o seu folclore, nunca o seu sentido transcendente e redentor.

As montagens de suas peças são em geral o oposto do que o dramaturgo sentiu e pensou. O Nelson artista morreu enquanto diabo para, já como Jesus Cristo satanás, dar amorosamente à luz do mundo o mal que habita os homens e salvá-los. Mas nós, infelizmente, não conseguimos morrer por nada nem ninguém. Em cena somos pessoas e só pessoas, embora  fantasiadas de personagens para melhor enganar os trouxas. Choramos e rimos, temos técnica corporal e vocal, mas não damos à vida com amor crístico, o único possível para a ocasião, o personagem diabólico-jesuítico. Não agimos como  verdadeiros pais que sofrem mas também gozam ao porem no mundo o seu bebê doente. Há algo mais belo?

Em todas as suas dezessete peças, inclusive nas duas menores, "Viúva, porém honesta" (farsa irresponsável de 57) e "Anti-Nelson Rodrigues" (escrita em 73 sob encomenda), o dramaturgo colocou como figuras centrais os personagens evangélicos principais: Jesus Cristo, satanás, Virgem Maria, Maria Madalena, São José, Apóstolo. Obviamente, com nomes brasileiros atuais, ou bíblicos para marcar claramente um sentido cristão; falando o português do Brasil das décadas de 40 a 70; morando nas zonas norte e sul do Rio de Janeiro, ou em lugar algum (em "Album de família" de 45 é Colgonhas, mistura do Gólgota evangélico com a Congonhas dos profetas); com hábitos e costumes locais, ou francamente atemporais. As duas Marias estão sempre juntas como no poema primitivo, seja numa só mulher casando em si a santa e a puta, seja em duas, uma santa e a outra puta.

Os nomes dos personagens -Lídia, coxo da Colombo, Jonas, Senhorinha, Glória, Ismael, Virgínia, Elias, Misael, Dorotéia, Carmelita, Assunta da Abadia, Sonia, Glorinha, Diabo da Fonseca, Judite, Bibelô, Celeste, Herculano, ladrão boliviano, Lígia...- são reveladores das intenções do autor e de seu profundo sentimento evangélico. Da mesma forma, os títulos das peças: "A mulher sem pecado" (nome  da mãe do Cristo) como sua primeira obra, de 41, e "A serpente" (símbolo do pecado) como sua última, de 78. Quase todos os outros quinze títulos têm um significado que é luz e guia para que seus encenadores não se percam do grande lirismo que caracteriza o artista, a par de seu entranhado realismo. Espírito e matéria que, por tão bem casados amorosa e dramaticamente, são a marca imorredoura de seu gênio. Como de todos seus colegas imortais de todos os tempos e povos.

Os personagens masculinos de Nelson são fortes e belos, mas suas mulheres são ainda melhores. O que se deve ao fato de que, tendo sido ele homem, elas personificam a alma do homem em busca de redenção. O artista Nelson é antes de tudo o biógrafo da raça humana, só depois e em consequência o biógrafo de seu povo e, por fim, de si mesmo.

Dois momentos

A obra do poeta divide-se em dois momentos complementares. 

O primeiro ocupa toda a década de 40 e o segundo vai de "A falecida" de 53 até sua morte. O lírico traço que os une é "Valsa n° 6" de 51, seu único monólogo e onde ele pinta sua alma renascida, após sua anterior descida aos infernos, personificada na adolescente Sonia vestida para o seu primeiro baile (ela diz ter nascido no Capunga, bairro do Recife onde Nelson nasceu). Menina-moça que renasce como virgem criadora ou Virgem Maria após ter sido violada e morta como virgem estéril pelo punhal de prata ou falo sagrado do velho curandeiro que a habita, sendo que o sangramento daí decorrente ocupa o fundo do palco na forma de uma cortina vermelha. Na cena nua representando sua pureza íntima há apenas um piano branco onde a heroína toca compulsivamente trechos da valsa do minuto de Chopin, essa pérola romântica do compositor polonês, ao som compassado de um bombo, as batidas de seu coração.

O primeiro ciclo vai de "A mulher sem pecado” a "Dorotéia (a dor da deusa ou sofrida alma humana) de 49. Nelson começou sua vida artística aos 30 anos, mesma idade com que o herói nazareno começou a sua. Devido ao seu profundo conhecimento e vivência do Evangelho, e para recriá-lo aos nossos dias, mergulhou dentro de si com um domínio técnico espantoso da escritura dramática para quem nunca havia escrito teatro. Depois de “A mulher sem pecado” foi descendo cada vez mais fundo em seu mundo íntimo, o mesmo de todo ser humano, passando por "Vestido de noiva" (43), "Album de família” (que termina com uma belíssima oração que é o sentido de toda a obra do autor, mas nunca notada por quem quer que seja), "Anjo Negro", obra escrita quando Nelson tinha a exata idade de Jesus Cristo ao morrer na cruz, 33 anos completos, e que ele quisera ter criado desde menino, verdadeiramente seu opus magnum (ver crônica 66 de seu livro "A menina sem estrela"), "Senhora dos afogados" (47), peça que se passa junto ao mar, símbolo do inconsciente, num ambiente de luz e sombra oriundo de um misterioso farol sobre o ambiente sombrio, e, finalmente, “Dorotéia”.

Ao fim dessa odisséia de grande introspecção, e como o próprio Jonas bíblico saído da baleia (nome do anti-herói de “Album”), o poeta deu por cumprida a sua tarefa maior, apresentando-se a partir de então ao convívio social para dar à vida dramas humanos diferentes só quanto à forma, porque quanto ao fundo tratando sempre de sua mesma obsessão ou universais arquétipos, de seus temas eternos. Não poderia ser  diverso num artista da grandeza de Nelson. Além das dezesseis peças citadas resta ainda "Boca de ouro" de 59, a estória do bicheiro que quer ser imortal pelo poder da violência, mas fracassa.

Ao lado de Gil Vicente, Nelson Rodrigues é o maior poeta dramático de língua portuguesa. Um clássico universal. À medida em que for sendo encenado fora do Brasil a dramaturgia brasileira ganhará status planetário, o que é sumamente importante. Mas muito mais importante é o fato de que, sempre que encenada com seu mesmo gênio e talento, sua obra será uma redentora de homens e criadora de uma sociedade verdadeiramente humana. Frente à arte, a religião e a política são graves doenças humanas, terríveis ilusões e megalomanias satânicas. Se não estiver governado pelo mistério criador que o habita, o homem será eternamente ingovernável por seus semelhantes. Mas, se já estiver não precisará mais ser tutelado por quem quer que seja. A utopia do socialismo só se realizará na Terra por intermédio da arte e de artistas como Nelson, o revolucionário.    

Francisco Carneiro da Cunha é ator e professor de teatro em São Paulo (SP).

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