Três artistas do Nordeste


Francisco Carneiro da Cunha

Muito instrutiva a comparação entre a obra do poeta dramático pernambucano Nelson Rodrigues com as do dramaturgo paraibano Ariano Suassuna e do artesão plástico sergipano Arthur Bispo do Rosario. Podemos dizer que a primeira redime, a segunda diverte e a terceira intriga.

Se o teatro de Nelson recria o fundamento evangélico de nossa civilização, o de Suassuna estiliza o cordel nordestino de fundo cristão e o trabalho de Bispo exprime os surtos mítico-místicos de que foi vítima.

O primeiro criou personagens, o segundo copiou o folclore de sua região e o terceiro deu forma tosca ao que o possuiu. Três respostas à vida: criação, imitação alegórica, transe semiconsciente. Só está faltando a imitação naturalística dos cultos protestantes e novelas de TV.

Bispo do Rosario viveu a maior parte de seus oitenta anos num manicômio. Nos últimos tempos o seu trabalho tem sido exposto inclusive fora do Brasil. Recentemente (1996), a jornalista Luciana Hidalgo lançou "Arthur Bispo do Rosario: o senhor do labirinto", livro que fala de sua vida e labor de interno esquizofrênico-paranóico. Aí ficamos sabendo como ele foi assombrado por suas criaturas em decorrência dos mergulhos a que se viu obrigado em seu escuro e denso imaginário. “Se dependesse de mim eu não faria nada disso, só faço porque sou obrigado, a voz ordena” “Por favor, me tranca”, pedia quando sentia que ía entrar num período de especial agitação. Durante semanas ou meses dava solitariamente forma à sua obra, pouco dormindo e comendo, o que preocupava os próprios guardas do local. Gostava de se apresentar assim: “Um dia apareci no mundo. Meus pais foram Maria Santíssima e São José, meu protetor. Era nós três. Sou Jesus Cristo, está falando com ele.”

Típico de um louco, pois não? Outros se dizem Napoleão ou Stálin, Júlio César ou Santos Dumont, etc. Há em nosso país vários deles, soltinhos da silva, que cismam serem os salvadores da pátria e assim são vistos: fhc, acm, brizola, maluf, lula, collor...Ora, Nelson Rodrigues em seu livro "A menina sem estrela" nos fala de seus 7 a 10 anos casimirianos em que desejava ser o herói nazareno, e não simplesmente um daqueles caubóis do cinema mudo adorados pela gurizada. Queria ser Jesus Cristo satanás na suburbana Aldeia Campista de sua infância, anelo plenamente realizado em seu teatro, mas nunca confundindo o artista que é com a pessoa cidadã que foi.

A loucura consiste em fazer de nossa fulgurante imaginação a medíocre realidade social, em fazer da poesia um nada ou zero à esquerda. A diferença entre essas atitudes é que a primeira não é permitida, ao passo que a segunda incentivada. 

Diz o adágio que a verdade está nem tanto à terra ou ao céu. Ignoro sua exata latitude, mas sei que em arte ela expressa a guerreira união da divina matéria com o sagrado espírito, algo que infelizmente não enxergamos na obra de Bispo, mas que é a marca da de Nelson. Os objetos deixados pelo artesão, cheios de excessiva ordem que domasse o drama que o consumia, exprimem sua luta para não perder-se completamente no caos do inconsciente. Não fossem eles, certamente teria se comportado como a maioria de seus colegas que se entregaram sem peias à insanidade e que de suas passagens pela Terra nada deixaram além do número com que foram catalogados na casa dos mortos em que estiveram confinados.

No entanto, quando Bispo se apresentava como o personagem nazareno confessava uma elementar verdade de todo ser humano, pois do ponto de vista poético somos todos filhos dos mesmos e invisíveis pais na condição de Jesus Cristo satanases. Mas, a tirania religiosa e política aboliu Jesus Cristo de nossas vidas, impondo à sociedade apenas Jesus satanás. Essa a razão de nossa civilização estar no miserável estado em que se encontra. Se é verdade que o sergipano não distinguia seu ideal do dia-a-dia das gentes, por regra essas gentes matam seu imaginário em nome de interesses pessoais.

A possessão de um Bispo do Rosario é típica da vertente espírita do cristianismo e dos rituais afros. Mas, enquanto nesses casos tal perdição é admitida, no caso do artesão ela foi penalizada. Além disso, praticamente ninguém até sua morte importou-se com o que ele fazia em seus infernos. Bispo foi mais radical que seus assemelhados médiuns e pais-de-santo porque seu temperamento sequer permitiu o aconchego num grupo livre, sua missão e aventura deram-se na mais dura solidão: em vez da reunião social numa casa espírita ou terreiro de umbanda, o isolamento numa cela de hospício. Em compensação, ele nos legou uma obra que nenhum desses gurus nos oferece. Se ela infelizmente não nos redime é porque a entrega que a presidiu foi forçada pela escuridão que o perseguiu, não teve como base o livre sacrifício criador que a genuína arte exige. Mesmo assim, é algo que nos conforta na medida em que demonstra ser possível escapar, embora ao preço de incomensurável dor, ao pior estágio da loucura.

Lá onde Nelson criou, ou seja, venceu o mundo, como dito no Evangelho, fracassou um Bispo psicologicamente desarticulado, sendo pelo mundo massacrado. Mas, enquanto sua obra basta ser exposta para ser apreciada, a do pernambucano necessita da colaboração do ator, o que infelizmente tem sido ruim ou péssimo porque raro um desses senhores da cena sintonizar com sua sublime criação.
E agora, Suassuna.

A versão católica do cristianismo, primeira e ainda hoje a mais poderosa, teve de domar pela tirania do pensamento figurado o grandioso espetáculo criador dos três primeiros séculos de nossa era para poder implantar-se como poder de Estado, ao qual chegou durante o século quarto. Na qualidade de novos césares do Ocidente já não era possível aos padres suportar a vitalidade do Evangelho que nos ensina viver sem outro senhor que o nosso íntimo Senhor. Ou seja, mostra como sermos criaturas criadoras, isto é, livres e responsáveis, ou seja, solidários com os nossos semelhantes no bem e no mal. A partir de então, a Igreja católica erigiu-se em detentora da confissão e da comunhão, no único poder capaz de receber uma como ofertar a outra. Liquidou com a introversão criadora sem a qual inexiste extroversão da mesma natureza e humanidade sadia. Matou a criatividade que havia permitido ao homem renascer frente à debacle do mundo antigo. Reimpôs a ferro e fogo a cega aceitação do poder mundano, de si mesma agora, terrível extermínio da consciência viva dos seres.

Depois de Nelson, Ariano tem sido um dos poucos a deixar obra teatral interessante. Toda ela baseada na cultura de sua região da qual está impregnado. Mas algo peca no paraibano impedindo sua escrita alçar um grande vôo. Lendo matéria do jornalista Nelson de Sá (Folha de SP, 19/01/97), a explicação vem pela boca do próprio dramaturgo. A par de seu confessado interesse por Dostoiévski, ele nos fala de sua admiração pelos carmelitas Tereza d'Avila e Juan de la Cruz. Nelson também bebeu do genial russo e ambos da Boa Nova, base criadora que os irmana, mas se conheceu a poesia prosélita do casal espanhol nada nos diz. Tudo indica que sim, pois grande foi sua admiração pelo profeta Elias, patrono da ordem dos frades, a ponto de encerrar uma de suas obras-primas, “Album de família”, mencionando esse profeta como modelo de homem, e em “Anjo negro”, sua peça seguinte e confessado opus magnum, fazê-lo um de seus principais personagens.

O trabalho dos religiosos insere-se na reforma católica reprimida pela contra-reforma da Inquisição. Tereza e João quiseram reintroduzir em sua ordem a primitiva moral, daí seu qualificativo de descalços em oposição aos seus colegas calçados. Mas nunca pretenderam romper com o Vaticano que logo após sua morte os canonizou, apesar de havê-los perseguido e encarcerado em vida. A tirania precisa fabricar santos e heróis que a absolvam! Comparada à revolução evangélica fundadora de toda uma civilização, ou à própria reforma protestante que infelizmente terminou por adotar a essência católica pelo viés de um grosseiro psicologismo, o trabalho social da parelha praticamente não deixou marcas, embora considerado por ela o fundamental do que fazia, sendo sua literatura apenas um complemento. Há já muito tempo que o que restou de seus esforços administrativos sejam conventos tão aburguesados quanto os que eles combateram, idênticos às igrejas romanas tradicionais.

Referindo-se a João e Tereza, Suassuna revela nunca ter passado, para o seu desgosto, pela experiência mística por eles experimentada, oriunda da direta união do homem com Deus. Ou seja, pela vivência simultânea e paradoxal de criador e criatura, o Cristo Jesus gerado em nosso íntimo por São José e pela Virgem Maria, único poder capaz de governar satanás, o nosso ego. Algo que só nos acontece sem a interferência de qualquer atravessador, seja ele padre ou pastor, médium ou guru oriental, terapeuta ou diretor teatral. Coragem que Suassuna aplaude, mas que, nos diz, nunca teve. Teve-a Nelson.

Desse milagre os espanhóis nos deixaram descrições. Tereza em seu livro "Moradas" e João em seus tratados de doutor da Igreja. Aí nos ensinam como atingir o cimo do monte Carmelo. Contudo, colocada lado a lado com a simplicidade do Sermão da montanha, plataforma criadora do Filho do Homem e coração da Bíblia, a invenção do casal espanhol é esotérica, nos afasta em vez de nos aproximar da criação. Seu pobre carisma não faz juz ao que a grande arte nos tem legado ao longo das eras. Em relação aos clássicos é criação francamente menor. Falta-lhe em essência o amor ao mal do qual nasce, e dele somente, a obra perene. No caso da reformadora, sua prosa cerrada é de difícil leitura hoje em dia, embora destinada então à educação de noviças. Percebemos o quanto a monja esteve possuída, mas em matéria de beleza lucramos muitíssimo mais com a conhecida estátua apresentando-a em gozo místico do que com tudo o que a parelha escreveu.

Compreende-se a atração que Tereza e João exercem sobre Suassuna, pois a atitude dos três é a estilização defensiva dos inefáveis e perigosos símbolos que criam o homem. É sua transformação em signos ou arabescos de estilo destituídos da visceral entrega dramática que, só ela, permite a criação genial. O teatro do paraibano está para o cordel da mesma forma que a obra dos canonizados para o Evangelho. Há nos versos nordestinos uma autenticidade que o drama de Ariano enfraquece, ao passo que nos fundamentos do cristianismo existe uma verdade que a poesia dos descalços apequena. Na produção de Bispo do Rosario, o vigor poético também diluiu-se mercê da perdição de que foi vítima, mas nas peças de Nelson ele está intacto porque o artista soube evitar a possessão de seus demônios tanto quanto a intelectualização do mito. Seu teatro é a magnífica recriação do Evangelho, obra que junto a outras semelhantes é indispensável fundamento à nova civilização que o próximo milênio exige.

Finalizando. A criação do maior poeta dramático de língua portuguesa, ao lado de Gil Vicente, evidencia uma transcendência na imanência que não possuem os trabalhos de Bispo e Suassuna nem os escritos de João e Tereza. No caso destes, seu misticismo temperou a esterilidade de um reformismo que não quis romper com o reacionarismo católico, ao passo que com o sergipano o transe tombou sobre a sua cabeça como uma maldição que ele suportou como pode. Já Ariano, livre de qualquer coerção maior, mas também não querendo correr riscos maiores, optou por um estilizado folclore de diversão. O que a invenção de Nelson Rodrigues tem e que falta às outras é a excelsa e dramática união de lirismo e psicologia, poesia e realismo, universalidade e particularidade. Em suma, perenidade.

Francisco Carneiro da Cunha é ator e professor de teatro em São Paulo (SP).

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