Sobre o amor - II

Giordano Maçaranduba

Diante dessa amorosa onda que tomou o INTEGRAÇÃO (com textos maravilhosos de Cleyton e Nívea, em abril; Rosângela e Alenor, em maio; Luanda e Gilberto, em julho e Gilberto, novamente em agosto). Onda em que na minha opinião Cleyton, Nívea, Luanda e Gilberto foram seus mais diletos representantes, com textos excepcionais que transbordam o sentimento e a racionalidade comum, eu me sinto tentado a dar minha contribuição a esse amável debate que tem tão credenciados interlocutores (é claro que eu sei que alguns interlocutores em especial poderiam agregar muito mais argumentos a tese e eu sinto a falta deles no INTEGRAÇÃO). Diante desses grandes interlocutores que escreveram ou que eu gostaria que escrevessem, quem sou eu para falar de amor? Ninguém. Absolutamente nada.

Mas como é permitido a todo mundo achar que sabe alguma coisa, ter suas convicções, vamos a verborréia. Há várias maneiras de se iniciar um texto, mas eu acho que é sempre bom começar pelas definições. Pelos próprios radicais latinos o amor é a negação da morte e portanto o desejo de imortalidade, quanto a isso poderia me reportar a Freud (esse senhor vem me quebrando um galho tremendo quando necessito de uma base teórica para minhas convicções, embora eu não goste muito de suas idéias no geral). É o único sentimento universal e a-histórico, embora suas manifestações sejam bem diferentes ao longo tempo e tenhamos uma enorme tendência de confundir o amor com o amor romântico, que é muito recente, só aparece como manifestação consistente no final da idade moderna e entre os nobres, e de reduzir o amor a sua manifestação mais particular e mais divina, o amor erótico ( do qual os melhores dicionários antropológicos ou filosóficos conceituam como a relação entre, usualmente, duas pessoas, ou duas pessoas por vez, e que envolve todas outras formas de amor, que mais adiante conceberei e explicarei no texto e que é claro só teve sua melhor complexidade com o advento do amor romântico, o mais perfeito até agora).

Uma preocupação me aflige, amor erótico se refere a eros, o cupido, e que portanto não se refere propriamente a sexo, embora a entrega dos parceiros seja um ápice, um clímax, e portanto parte importantíssima, necessária e natural da relação. A palavra erótico foi desvirtuada pelo moralismo absurdo que impera em nossa sociedade, que prefere reproduzir em escala pais e mães adolescentes do que esclarecer seus filhos e filhas. Uma sociedade que reproduz preconceitos, como o absurdo contra o uso da camisinha. Estou sendo muito prolixo, voltemos ao assunto.

Depois de dar uma definição ao assunto, amoroso assunto, me cumpre, fazer o contrário, até porque o contraditório também é verdadeiro, talvez até muito mais: o amor não tem definição, quem ama sabe disso e quem não ama já morreu, embora talvez não saiba disso. A contradição é verdadeira e talvez em termos de amor seja bem isso um dos eixos da essência. Recuperando mais alguma idéia sobre o amor, é uma idéia e portanto podem me questionar a vontade, amo ser questionado por mentes tão intrigantes, principalmente se o for por alguma das vozes que sinto falta no INTEGRAÇÃO, há algo mais contraditório do que agradar o outro para satisfazer a si mesmo. Ato I, dito. Proposição dois: talvez a contradição não esteja na essência do amor e sim na do ser humano, e que o seja revelada justamente por ser um sentimento tão intrínseco, mas como assim intrínseco, se o amor é um sentimento extrínseco ( um estado que liberta, quem por várias vezes amando não se sentiu livre de sua contingência terrena, dando a sua alma um pleno sentimento de potência). Outra idéia me vem, mas como assim liberta, se há um sentimento justamente contrário [o de vinculação a uma outra pessoa, vinculação a qual desejamos ardentemente, retirem quaisquer idéia mundana ou cristã disso, não estou falando de enlace, estou falando vinculação afetiva, de uma conjunção de espíritos (e de corpos, por que não?) e não de compromisso formal como o casamento, por exemplo].

Cumpre fazer uma historicidade do amor [eu sei que isso é uma idéia louca e torta, e como sou um ser gauche (lê-se guéche, eu acho), vou me propor a essa loucura de amor, pois amo profundamente esse assunto]. Eu já disse que amo muitas coisas, mas duas muito sábias já me disseram que o amor é algo singular, e que portanto tem como endereço apenas uma pessoa. Em nome da sabedoria dessas pessoas, especialmente da última que me disse isso a pouco mais de um ano, considere-se os amo anteriores e os posteriores como exagero de expressão e substitua-se por gostar muitíssimo, mas muito mesmo, deixando o verbo superlativo de lado.

Vamos a Idade Antiga ou ao Escravismo (para os historiadores econômicos ou para os marxistas), nesta áurea fase, aparece o amor platônico, que obviamente foi recolhido da sociedade grega por Platão, um amor muito restrito, muito idealístico, de máximas pretensões e nenhuma realização concreta, ou quase nenhuma. O amor platônico, de fato produz muita beleza ( e os gregos admiravam a beleza, o problema é que eles só admiravam).

Na Idade Média ou Feudalismo (vocês sabem o porque dos dois nomes, não explico mais), surge o amor cortês, agora havia uma dificuldade de se partir para o fato: a Igreja, que dominou neste período impondo o sentimento de culpa e o pecado. Se na idade antiga, havia entre os gregos uma convicção arraigada da superioridade dos homens sobre as mulheres, relegando-as poucos papeis além da reprodução; na idade média a Igreja, conservadora como sempre o foi, obrigava a manutenção do status quo, então aparece o amor cortês, que era permeado por um sentimento de culpa e um autopoliciamento que impediam a eroticidade enquanto ato em um teor mais alto (eu estou falando de namoro como o percebemos hoje, ou mesmo como o percebíamos a um século atrás).

Na Idade Moderna ou já na transição do Feudalismo para o Capitalismo, aparece o amor libertino ou das cortes (1), que é uma transição do amor cortês, onde havia uma contemplação do ser amado, mas diferentemente do platônico com alguma possibilidade de realização do amor erótico desde que respeitadas ( ou pelo menos simulado o respeito) a uma série de rígidas e doutrinárias regras, para o amor romântico, belo, pleno e realizável, que está sobre regras muito mais sutis e maleáveis. O que ocorreu é que, e eu creio que isto tenha ocorrido e explico por isto, percebendo-se a imensa vantagem do último tipo de amor vigente, em vez de uma evolução natural houve uma revolução ( portanto se a revolução sexual é da década de setenta deste século, a revolução amorosa é de dois ou três séculos passados), e como em toda revolução houve quem exagerasse, quem se contagiasse, fosse além da conta, nada mais justo.

Na Idade contemporânea, se consolida o amor romântico, quer dizer este adquire a supremacia, todos os outros tipos de amor subsistem, até porque uma forma de amor não substituiu a outra em nenhuma fase, apenas se sobrepôs (2). Sobre o amor romântico, nem é preciso enumerar suas enormes vantagens, apenas uma cito, a sua mais crucial e mais essencial, já se tinha liberdade para escolher o parceiro (maldita gramática que impõe o geral ao masculino! Um dia ainda mudo isso!).

Agora cabe-me relembrar que uma espécie de amor uma sobreposição a outro, resistem características de antigos tipos de amor em novos (mesmo numa revolução restam características de um antigo regime), daí porque hoje podemos classificar subtipos de amor (idéia de doido mesmo) no amor romântico pós-moderno. Há o amor servil, que como todos os outros é apenas uma faceta do todo e é uma herança do amor cortês medieval, o amor transcendente que é um legado muito mais próprio do cortês e do platônico, dentre estes muitas outras faces que vocês bem melhor que eu podem identificar.

Ah, sim no começo do texto eu disse que ia falar dos tipos de amor, e depois de tanto texto até eu, o autor do texto, já ia me esquecendo de citar eles, não que haja alguma polêmica na citação deles, talvez haja muitas discordâncias sim no encadeamento deles, que muitos julgam ser um absurdo.

O primeiro tipo de amor é o mais primitivo, o mais universalista em seu alvo e o mais fraco, que é o amor universal, que inclui o amor que os seres humanos sentem pelos seres de sua mesma espécie no geral e por extensão todo o universo em volta da humanidade. Talvez esse sejas o tipo mais fraco de amor por não ter um objeto em específico. Ação sem objeto claro é muito vaga, não subsiste. Teóricos da psicanálise analisam esse amor como um reflexo do amor narcísico, que obviamente é o necessaríssimo amor por si mesmo. (legal, dois numa só).

O terceiro tipo de amor, talvez parte do primeiro e do segundo ou talvez eles parte deste é o amor vital ou amor pela vida, que tem uma inter-relação muito forte e saudável com esses dois primeiros tipos de amor. Este tipo se reflete num amor mais específico pelo ambiente e pelos personagens (3) a sua volta. É de certa forma um amor pela ação, um amor político. Eu poderia puxar uma nova subdivisão nesse amor criando um amor panteísta, um amor pela natureza, mas prefiro deixar e considerar estas divisões inclusas no amor vital.

Já estou quase chegando ao êxtase, ao ponto utópico, mas antes dele tem um ou dois tipos de amor, não sei bem, deixa eu me lembrar (Afinal vocês acham que para um homem escrever e pensar ao mesmo tempo é fácil). Ah, sim! Tem o amor por afinidade, do qual faz parte a amizade, o companheirismo e de certa forma é ingrediente muito básico de qualquer amor erótico (platônico, cortês, libertino e romântico, em gradação de eroticidade (4)) e que é um segundo degrau em busca do amor supremo, vou colocar os amores anteriores na base e é fácil explicar isso, eles são naturais, quer dizer a gente já nasce com eles e eu como um estúpido louco vou considerar que sobre esse molde básico e tênue se moldam os amores mais objetivos e mais fortes. Esse segundo degrau teria uma força intermediária, que como no meio termo para Aristóteles tem gradação variada de pessoa para pessoa.

Há ainda o amor pelo supremo, muito natural desde as comunidades primitivas e propagado por diversas filosofias e pelas religiões, esse é um amor de força variável, que se configura de diversas maneiras como o deísmo, o cristianismo, o panteísmo, o antropocentrismo e quem sabe até o narcisismo (o eu-deus) e que tem força variada que vai do nulo ao absoluto.

Depois disso tudo eu cheguei aonde eu queria chegar. Cabe-me agora chegar ao ápice, ao amor supremo, o amor erótico, que se compõe da maioria dos amores anteriores e algo mais e por isso é o mais complexo e o mais gostoso. É o terceiro e último degrau da escada, destino dos seres humanos (porque se o destino do ser humano não for amar, eu não entendo nada de humanidade e já peço minha inscrição na espécie em que esse for o destino). Quanto a esse eu já falei muito do que tinha que falar, mas um pouco mais sempre é bom, até porque esse assunto é amável. O problema é que ao falar estarei falando o obvio, eu acho, o ápice, como tal é o amor mais restrito, mais objetivo e por isso mais poderoso, digamos que idealmente, numa restrição ideal do amor romântico, infinito, mas como nada é ideal e perfeito digamos que passa muito perto disso, sempre enfocando que quão mais próximo possível para determinadas pessoas e determinadas situações. Não me cabe falar mais até porque vocês sabem muito mais do amor factível do que eu com certeza. Não me cabe declarar saber o que me é nublado. Só cabe ressaltar que pela teoria que expresso agora todas essas espécies de amor são um conjunto inter-relacionante, de contíguo início, meio e fim, hierarquizados, mas interpenetráveis e não seqüenciais, que não no seu aparecimento ou hierarquia, em que o segundo degrau é decorrência do primeiro, embora elementos estranhos ao primeiro degrau também o formem e o terceiro resultado do primeiro e do segundo mais experiência e fatores múltiplos outros.


(1) Essa nomenclatura ou classificação é minha, dificilmente se encontrará em um dicionário ou compêndio etnológico, uma menção a essa transição como uma fase independente.
(2) Esse é outro conceito sem nenhum respaldo, eu acho. Mesmo assim o reafirmo.
(3) Usei o termo personagem, porque o amor se refere a muito mais que pessoas, mas também aos papéis que elas exercem.
(4) Cabe lembrar que eu estou falando de amor erótico, não de sexo por sexo, até porque se eu estivesse falando disto, a gradação seria a inversa.

Giordano Maçaranduba é estudante do 4o. ano de jornalismo da UFG.

Mande um e-mail para Giordano Maçaranduba ou para a direção do jornal.

Artigos exclusivos

© 1997 1998 1999 Jornal Integração Todos os direitos reservados
1