Mariana

Jardel Sebba Filho

Sei que vou voltar, Mariana, não para os teus braços, mas para o imaginário de esquinas e ruas que vem me atormentando todo esse tempo. Não sei como será, se estranho, ou mesmo indiferente, mas sei que vou voltar. E quando esse dia chegar, Mariana, quero te encontrar vestida como no dia em que te conheci, com aquele ar desinteressado e aquele vestido negro que fizeram daquela a melhor noite da minha vida, embora a concorrência tenha sido desprezível. Quero que personifique aquela imagem que nunca saiu da minha cabeça, e talvez só nela tenha existido. Não consigo te imaginar esperando, confesso, porque a minha imagem do dia da volta é, antes de qualquer coisa, de um realismo assustador, e qualquer criança sabe que você nunca perderia tempo a me esperar. Quando te encontrar, logo após a minha chegada, num desses encontros casuais que provam que deus existe mas se preocupa muito pouco com pessoas como eu, nada precisará ser dito. Quase nada, talvez. O tempo falou por nós, e eu lhe serei eternamente grato, pois estou cada vez mais cansado das palavras. Não sei, isso sim, se você ouviu. Talvez nos intervalos das longas noites em boates distantes ou na lembrança enraizada em nossos amigos comuns que insistem em falar de mim para você. Tente perdoá-los, são como torcedor do time derrotado que fantasia os fatos para melhor lidar com eles. Além disso, você sabe que eles sempre tiveram mais prazer em falar de mim que em falar comigo. Se existe algo que você sabe melhor que ninguém, Mariana, é que a minha ausência sempre me foi mais útil. Mas, insisto, vou voltar, e quero te ver linda e feliz como passou toda a sua vida e há de morrer, muito depois de mim. Não se acanhe em estar com alguém, eu já me acostumei com a idéia que você não consegue viver sem um homem que te dê carinho. Somos como mouros e cristãos nesse ponto, você é dependente de gente, eu quero só as esquinas e as ruas. Você vai estar com alguém que não te merece, condição mor de todos os homens do planeta. Talvez alguém que você tenha conhecido sob o mesmo fundo musical que um dia embalou a visão mais celestial da minha vida, e que para sempre vai te trazer à minha memória. Inútil te pedir para que seja feliz com esse ou com qualquer outro que, como eu, receba a graça de cruzar teu caminho. Você nasceu feliz, Mariana, e é isso que te faz tão segura de si. Voltando ao nosso encontro casual, ainda estarei atormentado pelas mudanças das esquinas e ruas que passaram esses anos fazendo a história de outros, mas vou te cantar a minha canção do exílio. Sei que não vai prestar atenção, o que vou entender. Ninguém com o seu rosto e a sua simpatia precisa prestar atenção no mundo; o mundo que preste atenção em você, o que, aliás, sempre aconteceu. Mas eu vou dizer, mesmo assim, porque preciso que você saiba o que vem acontecendo nesses dias estranhos. Não há nada de interessante, como você já poderia prever, só aquele meu verbo pouco e aquela esperança estúpida nas pequenas coisas (e entende da maneira mais ampla possível o adjetivo) que me ajudaram a sobreviver sem você. Na verdade, que me ajudaram a sobreviver sem aquela esperança, mais estúpida ainda, de te encontrar na rua algum dia. Acalme-se, não vai ser hora de te dizer tudo o que ficou por dizer, não vou te aborrecer com minhas lembranças vagas e inconsistentes, quero apenas contabilizar as perdas e contar pequenas mentiras sobre os anos de exílio. Eu prometo, nada vai mudar na sua vida, até porque não seria eu capaz de provocar qualquer ruptura na solidez da tua construção, no terreno tranqüilo e firme no qual você ergue o teu prédio. Aceite, Mariana, a idéia da minha volta como alguém piedoso que permite a um cachorro perdido que durma no quintal, ou como um conquistador espanhol que permite ao Maia que morra abraçado ao seu relógio de sol, ou mesmo como aquele aniversariante embriagado que permite a entrada dos amigos de seu irmão na sua festa. Aceite com a tranqüilidade de quem pertence a outro mundo, onde todas essas divagações mal direcionadas não fazem sentido, porque a vida é real. Talvez só pese o fardo, duro fardo por certo, como diria meu poeta maior, de saber que alguém que não vivia mais na tua lembrança passou os melhores anos da vida mergulhado na esperança, a mais estúpida de todas, de te ter novamente um dia.

Jardel Sebba Filho é estudante do 4o. ano de jornalismo da UFG.

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