NOTAS SOBRE A
ORGANIZAÇÃO DA PRODUÇÃO DE VÍDEO
David Pennington
 
 
 
 
 ÍNDICE
INTRODUÇÃO
A ESCALA DA PRODUÇÃO
A PRODUÇÃO
AS FASES DA PRODUÇÃO
ATIVIDADES DA PRODUTORA
O ROTEIRO
ANALISE TÉCNICA
CRONOGRAMA
ORÇAMENTOS
CONCLUSÃO
BIBLIOGRAFIA
 
 
 
 
 
 
INTRODUÇÃO
Seja uma produção com custos elevados, ou um pequeno trabalho comunitário, um
proproduto audiovisual de apoio à mobilização social deverá ser sempre planejado, de forma
a otimizar as relações custo-benefício, demonstrar claramente quanto vai custar o produto,
e satisfazer demandas de aplicação de recursos. Este trabalho é voltado para a produção
audiovisual, mas é válido o mesmo pensar para qualquer outro produto, como: produção
gráfica, shows e apresentações, teatro de sombrinhas, produção de rádio...
Quanto mais complexo o produto, mais essencial torna-se a organização de sua
produção. Finalmente, é fundamental um plano de produção para endossar qualquer
orçamento, e em última análise, obter recursos para a produção. O que os financiadores
querem saber é: QUANTO vai ser aplicado, ONDE, e de que MANEIRA. Este trabalho é um
primeiro esboço sobre o assunto.
Manaus, out/1994- David Pennington
 
 
 
 
 A ESCALA DA PRODUÇÃO
Estas notas contemplam um trabalho “típico profissional”, mas
devemos ressaltar que há trabalhos em escala grande, em escala pequena, e na escala
do possível. Geralmente a escala do possível acaba por ser a solução em muitos casos.
Mesmo assim, é preciso planejar: Por exemplo, se foi decidido que para uma determinada
atividade vão ser usadas faixas, é necessário ter claro o conteúdo (texto e diagramação),
fazer levantamentos de preços, ver se a primeira faixa está correta, providenciar transporte,
escada e arame de ferro galvanizado em quantidade adequada para a instalação das faixas.
Isto merece uma listagem, uma ordem de providencias, nome dos participantes e endereços
e até um plano de instalação das faixas nos lugares pretendidos. Em todas essas escalas
deve-se organizar a produção.
 
 
 
 
 A PRODUÇÃO
A produção do audiovisual é um processo complexo que envolve um conjunto de
especializações. Uma equipe típica pode contar com muitos profissionais:
- Roterista: é dele o trabalho de roteirização, texto apropriado para a
produção audiovisual.
- Produtor: providencia as condições para realizar a produção, com recursos
(dinheiro ou facilidades a partir de trocas, etc.,)
- Diretor: é o responsável pelo resultado final, pela qualidade do produto
audiovisual.
- Diretor de Fotografia: cuida das soluções e qualidade da fotografia do
trabalho. Seu trabalho é na verdade uma co-direção, quase sempre. No
Brasil, é comum o diretor de fotografia fazer também a operação de
câmara.
- Operador de Câmera, ou Câmera: faz operação de câmera, Seus
movimentos, tais como panorâmicas, travellings, zoom, etc., e nas
pequenas produções, o diretor de fotografia e o operador de câmera são a
mesma pessoa.
- Técnico ou Engenheiro de Som: assegura a gravação e qualidade do som,
munido de um parque de equipamentos adequados para a finalidade.
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- Editor ou montador: é quem reúne os componentes e destarte dá a coerência
final à obra. É tambem uma instância de direção, é o momento intelectual,
por excelência, na realização do filme. Usualmente o editor trabalha
juntamente com o diretor.
- Diretor de Arte: a seu cargo estão os aspectos artísticos envolvidos, tais
como coordenação de figurino e cenografia, música, etc
- Cenógrafo: responsável pelas soluções da cenografia, ou seja, as vistas ou
planos de fundo da ação.
- Figurinista: maneja os figurinos (roupas) sua conservação e disponibilidade.
- Técnico em Cinematografia: é o ´Magaiver´ da área técnica, o que soluciona
necessidades (principalmente mecânicas) junto à fotografia, iluminação e
técnica de som.
- Maquinista: é o alquimista dos problemas junto à mecânica da cena, tais
como a montagem e operação de carrinhos sobre trilhos, operação de grua,
instalação de praticáveis, etc.,
- Eletricista: encara os problemas de necessidades de energia elétrica, e é
um auxiliar precioso do iluminador.
Uma produção bem organizada é essencial para assegurar um fluxo de trabalho
adequado, e satisfazer as expectativas dos prazos, e estabelecer um orçamento, elemento
fundamental para angariar financiamentos. Inicialmente, será analisada a constituição de
um trabalho em vídeo típico, por exemplo, um comercial para televisão.
 
 
 
 
 AS FASES DA PRODUÇÃO
A primeira fase corresponde ao trabalho da agência, constituído de Criação,
Argumento, Pesquisa, Roteiro e Storyboard. Em seguida, vem a fase da Análise Técnica
do Roteiro. Desta análise técnica resultam listas de produção, que permitirão viabilizar e
controlar a economia do projeto. Paralelamente, o Diretor, junto com o produtor faz uma
leitura do roteiro, e isso realimenta o processo de decisão da produção. Deve ficar claro
que o roteiro é uma instância técnica, uma ferramenta de trabalho, dotado de grande
importância no processo de realização.
A segunda fase é a Pré-Produção, onde se utilizarão as Listas de Produção , e mais
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dados que forem necessários para elaborar um Mapa de Produção, que descreverá em
um único espaço de escrutínio TUDO o que é necessário para viabilizar a produção; e
também se elaborará um Cronograma, que permitirá alcançar as metas nos prazos previstos.
Associado ao cronograma está o Cronograma de Desembolso, que controla os pagamentos
por etapas.
Um aspecto importante da produção é como orçar, ou
estabelecer o custo de um trabalho, e quais os cortes orçamentários
máximos admissíveis para manter o resultado dentro de um nicho
qualitativo preestabelecido. Predominam neste caso, fatores
subjetivos nesta determinação, tornado a expressão “qualidade do
produto” um significado algo muito pessoal. Daí o nome do produtor
e diretor serem determinantes de um resultado previsível.
A terceira fase é a captação de Imagem e Gravação de Som. É quando entram o
trabalho do diretor de fotografia, o câmera, operador de som, atores... é a “Filmagem”.
Estas atividades devem ser desenvolvidasde forma mais contínua e breve possível; têm um
tempo de desenvolvimento próprio, que varia de projeto para projeto. E o rítmo de trabalho
é muito intenso e diversificado, normalmente gerando uma situação de estresse para todos
os envolvidos, e em particular, a produção. Esta é uma atividade que não deve buscar
culpados (por erros, omissões, enganos e mal-entendidos), mas sim uma orquestração de
uma equipe heterogênea com fins a um resultado coerente, de qualidade e um fluxo de
trabalho intenso e sem choques.
Resultante da Pesquisa e já a partir da pré-produção, busca-se material iconográfico,
arquivos de imagens, fotografias, objetos que ficarão à disposição da edição do trabalho.
Fotos e recortes são gravados em mesas especiais, os table-top, e objetos e maquetes
são efetivamente filmados. São encomendadas as locuções, as trilhas sonoras e direitos
autorais são resolvidos; os trabalhos de computação gráfica e outros serviços de terceiros
são contratados.
A quarta fase é a Edição. De posse de todo o material para editar, e um plano de
montagem no papel , chega-se então, à edição. E entra em cena o editor. Esta é uma
instância intelectual por excelência neste processo de trabalho; pode-se chamar a edição
de segunda direção. O alto custo de uma estrutura de pós-produção torna obrigatória a
máxima eficiência de seu uso; alguns trabalhos podem por sua natureza exigir mais tempo.
Pressões para apressar sua edição podem compromete-los.
Sempre há necessidades de pequenas complementações: Um desenho precisa ser
reproduzido, uma imagem de arquivo é procurada para aparar uma aresta na edição, e às
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vezes é necessário até produzir imagens adicionais.
Nesse meio tempo, a produção se encarrega de fechar os trabalhos correspondentes
às filmagens, devolve objetos emprestados, finalizar alugueres variados. Além disso, está
providenciando listas de créditos, locuções especiais (em outros idiomas, p. ex.) e toda
sorte de necessidades. A edição cria o produto final, a fita master, que gerará submasteres
para copiagem, sendo arquivada a master no acervo . O fluxograma anexo procura esclarecer
melhor estas idéias.
 
 
 
 
 
 
 ATIVIDADES DA PRODUTORA
Na produtora, procura-se reservar uma parte do dia, p.ex., o início da manhã, para as
atividades na casa, organização, planejamento e fechamento de produções, a saída de
equipes; até o final da tarde se desenvolvem estes trabalhos de filmagem, em externas
aproveitando a luz do dia, ou no estúdio, (o que é uma atividade mais concentrada e que
rende mais); já a noite é reservada para a edição, gravação de locuções, alguns trabalhos
mais sutís no estudio, como filmagem de documentos, table-top, e outros. A edição apresenta
um fenômeno de “partida”. Uma vez dada a partida ao processo, quanto mais contínuo o
fluxo de trabalho, maior o rendimento. Realiza-se a captação de imagens com o auxílio da
ENG, a unidade de captação externa, constituída tipicamente de câmera, tripé, monitor,
cabos de interligação, baterias e iluminação básica.
É claro que estamos falando de estruturas médias e grandes. Mas a atitude deve ser
a mesma, caso a produtora seja o lar de alguém, e o equipamento uma câmera amadora
VHS. Estas câmeras permitem a produção básica, a custos muito baixos. E é possível
alugar uma ilha de edição neste formato, por um preço acessível.
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É importante fixar critérios de trabalho, para não cair em “simplificações pragmáticas”,
que a pretexto de fugir da complexidade deste processo de trabalho, acaba por chegar a
uma má qualidade de produto, em última análise, sem competitividade no mercado.
 
 
 
 
 O ROTEIRO
O roteiro, concebido a partir de uma idéia, desenvolve-se como um argumento, pode
ser descrito sumariamente através de um story line, uma sinopse ou ainda um argumento.
O roteiro usa de uma linguagem técnica, aplica uma gramática específica. “Decupa”, ou
separa em trechos as ações que um argumento narra, de forma a ensejar soluções técnicas,
de fotografia, cenografia, locações, direção de atores, posições de camera, determina o
tipo de enquadramento, quais as cenas e com que movimentos de câmera.
Muitas vezes, a partir de uma notícia de jornal, “Um homem surra sua mulher;
vizinha tenta intervir, acaba levando uma facada”, tem-se aí um storyline pronto, que
praticamente só representa a idéia. Daí para um roteiro, há todo um trabalho de desenvolver
um conjunto de personagens (os personagens marido e mulher que não se entendem;
porque? sua condição de vida, filhos, etc, rotina doméstica. A vizinha - uma mãe de família?
Seus filhos? irmã, irmão?) - uma cenografia: casas de periferia? Bairro? mostra a vida na
periferia? E por aí afora. Ocorre também o desenrolar de um a história, um drama, cujo
clímax é uma agressão a uma boa mulher, querida por todos em seu bairro, agressão fruto
de outro drama familiar, agressão fruto da estupidez e ignorância.
Essa história permite desenvolver no roteiro várias sequências, por exemplo, a
sequência da casa da tal vizinha. Também uma sequência no bar do outro lado da rua, onde
se mostra o contexto do bairro. Naturalmente a sequência da briga do casal, e da agressão
à vizinha; esta puxa uma sequência dos personagens no hospital, etc.
 
 
 
 
 ANÁLISE TÉCNICA
O roteiro sofre uma análise técnica, que definirá viabilidades e soluções a serem
adotadas. Problemas típicos a serem trabalhados: Transporte de pessoas, equipamentos,
objetos e adereços, cenários; alimentação, hospedagens, combustível (carros, barcos, etc.),
passagens de avião; construção de cenografia, maquiagem e preparação de locações;
pinturas, trabalhos de carpinteiro, pedreiro e outros; fornecimento, instalação e desinstalação
de eletricidade; problemas especiais de iluminação; licenças e autorizações; efeitos
especiais (“chuva”, “incêndio”, “tiros”, “acidentes”).
Esta fase gera um mapa de produção e um conjunto de listas de produção, que
serão providenciados em tempos hábeis. E o mapa de produção manterá listado e atualizado
todo o andamento da produção, a nível físico

 

 
 
 
 
 
 CRONOGRAMA
Possivelmente o mapa mais importante é o cronograma, que estabelecerá prazos e
“prazos fatais” e poderá ajustar-se às características de centros de pós-produção, locadoras
de equipamentos, cronogramas e agendas especiais, como de artistas requisitados,
pessoas famosas, etc.O cronograma apresenta um espaço correspondente a cada dia da
semana, onde se explana a previsão, que pode ser atualizada. Outro campo conterá telefones
e endereços de todos os participantes. Outro campo ainda poderá conter a escala dos
deslocamentos, a quantidade diária de refeições, enfim tudo que for pertinente.

 
 As áreas mais importantes a serem cobertas são:
Necessidades técnicas
· equipamentos
· equipe
· condições técnicas de produção
· condições técnicas da pós-produção
· materiais de consumo para finalidades técnicas.
· material sensível (fitas para video, filmes, p. ex.)
Necessidades Logísticas
· transportes
· alimentação
· hospedagem
· autorizações, etc...
· eventualidades (acidentes, p. ex.)
· prazos
· contratos
· divulgação e press-releases
· aluguéis e compras
· pagamentos/honorários/salários
Necessidades Artísticas/estéticas
· direcionamento da produção
· definição/construção da cenografia/figurinos/adereços/objetos
de cena
· definição do elenco (casting)
· definição de locações
· equipamentos para efeitos especiais
 
 
 
 
 ORÇAMENTOS
A partir dos mapas de produção e do cronograma, é possível elaborar um orçamento
completo. É evidente que é possível fazer um orçamento estimativo, mas dada à quantidade
de fatores envolvidos, é possível errar grosseiramente com estimativas. De uma maneira
geral, a partir do tempo final do produto, é possível fazer uma primeira estimativa. Mas o
orçamento final sempre será detalhado. E as estimativas variam com a categoria do trabalho:
Dez minutos de documentário social são orçados de forma diferente do que um comercial
de automóvel de trinta segundos. Basicamente, um documentário social padrão profissional
(betacam), feito localmente, sem exigir grandes deslocamentos, poderá custar em torno
de USD 700,00 / min. Com deslocamentos extensos, este valor poderá ir para USD 2000,00
/ min. Já um comercial de ponta de trinta segundos pode custar USD 300 000,00. E um
documentário social rodado em VHS poderá custar USD 150,00 / min (10 min= USD
1500,00).
 
 
 
 
 CONCLUSÃO
O exposto mostra que a organização da produção é um verdadeiro processo de
engenharia, muito semelhante ao do controle de uma obra. Daí a necessidade de um
acompanhamento e documentação minuciosa do processo, do início até o fim. Como a
quantidade de detalhes e serem observados é muito grande, resumos de andamento devem
ser analisados junto a produtores e diretores com freqüência, pois pela natureza artística
dos trabalhos, modificações costumam acontecer no decorrer da realização, que deverão
ser ponderados sob aspectos estéticos e financeiros e de viabilidade de realização física,
para a tomada de decisões.
Quando a documentários, o esquema simplifica-se um pouco, mormente quanto à
cenografias, figurinos e adereços (a não ser no que se chama de ‘docudrama’, documentário
dramatizado). Por outro lado, os imprevistos que surgem durante documentários podem
merecer atenção redobrada, exigindo assim mesmo um planejamento criterioso para a sua
produção.
De toda maneira, as atividades de produção, principalmente as mais complexas,
envolvem um elemento de risco, do consumo dos recursos com resultados duvidosos, e
este é mais um fator que justifica e muito bem, uma produção bem organizada.
 
 

 BIBLIOGRAFIA

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Cinema e Televisão, Nórdica, Rio de
Janeiro, 1983
BERNADET, Jean C. O Que é Cinema?, São Paulo, Ed Brasiliense,
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CAPUZZO, Heitor, Cinema, a Aventura do Sonho , São Paulo, Ed
Nacional, 1983
CAVALCANTI, Alberto, Filme e Realidade, Rio de Janeiro, Ed Casa
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LANGFORD, Michael, Fotografia Básica, Barcelona, Ediciones Omega,
1974
MALKIEWICZ, Chris, Cinematography, New York, Prentice Hall Press,
1989
MARTIN, Marcel, A Linguagem Cinematográfica, São Paulo, Ed
Brasiliense, 1990
MILLERSON, G, Video Production Handbook, Lonodon, Focal Press,
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HALAS & MANVELL A Técnica da Animação Cinematográfica,Civilização
Brasileira/Embrafilme, s/d
SANTOS, Rudi, Manual de Vídeo, Rio de Janeiro, Ed UFRJ, 1995

David Pennington, out/94, Manaus AM
unb.prodavid@gmail.com

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