ESQUERDA E DIREITA NO MUNDO PÓS GUERRA-FRIA

     Tem sido um lugar-comum muito batido entre os neoliberais o de que após a queda do Muro de Berlim, acabou-se a distinção entre "esquerda" e "direita". Esta frase contém dois erros imperdoáveis. O primeiro é o de aventar a possibilidade que algum dia a distinção entre "esquerda" e "direita" (no sentido político do termo, claro) possa deixar de existir. Ela jamais deixou e jamais deixará de existir. O outro erro, é colocar o marco na queda do Muro de Berlim. O grande marco político do final do século XX não foi esse, mas sim o fim da União Soviética. A queda do Muro de Berlim foi só uma "avant-première", um prenúncio de que o fim da União Soviética se avizinhava.

     Contudo, embora falsa em seu sentido literal, aquela afirmação contém uma grande e importante verdade. Para entender o que isso significa, antes é importante ter uma noção precisa do significado dos termos "esquerda" e "direita". A melhor forma de fazê-lo é acompanhar toda a sua evolução semântica desde sua criação.

     Os termos "esquerda" e "direita", nos seus significados políticos, foram utilizados pela primeira vez na França. Naquele país, era tradição que os deputados que apoiavam o governo sempre se sentassem do lado direito do parlamento, enquanto que os de oposição, sempre do lado esquerdo. Com o passar do tempo, sedimentou-se a tradição de chamar-se de "direitistas" os deputados de situação e de "esquerdistas" os de oposição, em referência às cadeiras que ocupavam no parlamento. Neste período, era um contrassenso falar-se em "governo de esquerda", pois se um partido "esquerdista" (nesta acepção do termo) ganhasse as eleições, este partido passaria a ser situacionista e, portanto, a ocupar as cadeiras do lado direito do parlamento.  Automaticamente   teria galgado  a  posição  de  "direitista"   enquanto   que   o  ex-ocupante desta posição passaria a ser oposicionista e, portanto, esquerdista.

     Após a revolução francesa passou-se um longo período de tempo em que a situação ficou sob o poder dos liberais. Neste mesmo período, a principal força de oposição era comandada pelos comunistas, naquele tempo ainda sem o referencial ideológico consistente introduzido por Karl Marx em 1848. A constância de se verificar sempre os deputados "direitistas" - situacionistas - como liberais enquanto que os "esquerdistas" - oposicionistas - mais visíveis sempre eram os comunistas. A constância desta associação - direitistas (situacionistas) = liberais e esquerdistas (oposicionistas) = comunistas - passou a dar um novo significado a esses termos, passando a referir-se à tendência política e não mais seu posicionamento quanto ao apoio do grupo que exercia o poder.

     Mais tarde, surgiram novas matizes políticas. Várias ideologias diferentes passaram a reinvindicar o rótulo de "esquerdistas" e outras tantas o de "direitistas". Surgiram ainda grupos moderados que passaram a se rotular de "centristas", que não se admitiam nem direitistas nem esquerdistas. Durante a vigência da chamada guerra fria, era mais ou menos fácil identificar o "esquerdismo" do "direitismo". Os "esquerdistas" torciam pela União Soviética enquanto os "direitistas" pelos EUA nos conflitos da guerra fria. Com o fim da União Soviética e da guerra fria, perdeu-se esse referencial

     A pergunta que fica no ar é: será que todos esses movimentos "esquerdistas" ou "direitistas", que viveram momentos históricos tão diferentes, têm algo em comum que permita identificá-los independentemente do momento histórico em que se situam, algo que possa ser identificado por si só, independentemente do contexto em que se situa? A resposta é sim. Mas para identificá-lo, é preciso um certo exercício de abstração. É necessário filosofar um pouco para ver a essência - como diria Platão - "esquerdista" ou "direitista" presente em todos os movimentos "esquerdistas" ou nos "direitistas", respectivamente, independentemente de seu momento histórico.

     A vida em sociedade exige de seus membros duas atitudes opostas e complementares. É o que a filosofia chinesa chama de "yin" e de "yang". Num modo de ver mais ocidental, poderíamos comparar com os polos norte e sul de um ímã. Um não existe sem o outro. Um só age na presença do outro. No entanto são opostos. Não há como sentir a presença ou a influência de somente um deles. Contudo, pode-se aproximar-se mais de um do que de outro ou vice-versa. Assim são essas duas forças. Opostas, mas complementares. Não existem uma sem a outra. Mas a todo instante tomamos atitudes que contêm um pouco de cada uma delas. Ora uma predomina sobre a outra ora a outra predomina sobre a uma.

     Essas forças são a cooperação e a competição. Não há como viver em sociedade sem cooperar-se uns com os outros. Sem cooperação, um grupo de indivíduos está permanentemente em guerra, cada um contra todos os demais. Impossível juntar mais de um indivíduo para formar uma sociedade sem que haja cooperação entre eles. Por outro lado, a competição pelos postos mais destacados da sociedade é inevitável. Indivíduos têm capacidades diferentes. Aqueles com maior capacidade tendem a se destacar dos demais e há uma competição para atingir essas posições de destaque. A todo o instante, os indivíduos de uma sociedade têm que ficar avaliando quando é hora de aumentar a dose de competição diminuindo a de cooperação e quando é a hora de fazer o inverso.

     Movimentos, atitudes ou projetos "de esquerda" são aqueles que privilegiam a cooperação sobre a competição. Os "de direita", evidentemente são os que privilegiam a competição sobre a cooperação. Isso parece deixar de fora a primeira definição, ou seja, a que classificava como "direitista" quem estava no poder e de "esquerdista" quem estava na oposição. Na verdade, até mesmo essa situação tende a estar de acordo com a definição dada. Quem está no governo, de uma forma ou de outra ganhou uma competição. Afinal, o outro grupo tentou chegar lá e não conseguiu. Assim, quem está no poder é um vencedor. Se é um vencedor, tem a tendência de querer que o vencedor fique com tudo. É uma tendência natural. Já o que tentou vencer e perdeu, tende a querer que o prejuízo da derrota que sofreu seja o menor possível. Vai querer a maior cooperação possível com o derrotado - ele próprio. Quem acaba de vencer tende a achar que pode vencer de novo e querer mais confrontos onde o vencedor fique com tudo. Quem acaba de perder tende a achar que poderá perder de novo e a evitar confrontos, em busca da cooperação. Pode em alguns casos não ser assim. Mas essa e uma forte tendência. Portanto, na maior parte dos casos, até mesmo adotando-se a primeira definição, haverá uma coincidência dos conceitos esquerda = prioridade para a cooperação e direita = prioridade para a competição.

     Uma vez estabelecidos claramente os conceitos de "direita" e "esquerda", voltemos à questão inicial: com a queda do muro de Berlim - ou antes, com o fim da União Soviética - o conflito ideológico "direita" x "esquerda" deixou ou não deixou de existir? É evidente que, pela definição dada acima de "esquerda" e "direita", o conflito entre essas duas forças jamais deixará de existir. Assim, o sentido literal da frase é claramente falso. O que há então de verdadeiro nessa frase? Ocorre que por mais de um século o conflito direita x esquerda dominou o cenário político mundial, notadamente durante a guerra fria. Com o fim desta, embora esse conflito não tenha deixado de existir, surgiu outro que passou a ser o mais importante de todos, deixando esse para segundo plano: o projeto neoliberal globalizante. No final do século XX e início do XXI, é possível ver pessoas com perfil de "direitistas" e de "esquerdistas" apoiando esse projeto bem como também ver "esquerdistas" e "direitistas" na luta contra esse mesmo projeto. Neste momento  histórico, um esquerdista pró-globalização tem mais em comum com um direitista pró-globalização do que com outro esquerdista que luta contra esse projeto. É nesse sentido que se pode dizer que aquela frase contém uma importante verdade.

     Os líderes do movimento pró-globalização parecem já terem-se percebido disto. E estão agindo de acordo. Estão passando por cima de diferenças menores do tipo esquerda x direita em nome de uma coisa maior e mais importante para eles, que é a implementação e consolidação de seu projeto. Mais que isso! De consolidar a idéia de que não há NENHUMA outra alternativa que não a adesão incondicional a esse projeto. É hora do lado contrário fazer o mesmo. Neste momento histórico, diferenças do tipo direita x esquerda, embora existam e sejam importantes são menores, pois há um inimigo maior a se combater. De que adianta discutirmos um projeto mais à direita ou mais à esquerda para o país se quem efetivamente decide os rumos do país não são as pessoas eleitas nas eleições, e sim os donos do grande capital internacional? Enquanto não for resgatado o princípio da soberania, de que a gestão do país deve ser executada pelo governo e não transferida às empresas, como vem de fato acontecendo nos países que tiveram o mau gosto de optar pelo projeto globalizante, tal discussão é absolutamente estéril e destituída de qualquer sentido.

     A divisão esquerda x direita existe hoje, como sempre existiu e sempre existirá. Mas há outra que neste momento é dominante: a divisão dos pró globalização x os anti globalização. Os líderes pro-globalização já se deram conta disso e não se incomodam de misturar esquerda com direita nos seus quadros, desde que obtenham a adesão ao projeto globalizante. Os nacionalistas devem fazer o mesmo. Esqueçamos, por ora, divisões do tipo direita x esquerda. Haverá um momento, no futuro, em que haveremos de voltar a essa discussão. Mas se neste momento não formos capazes de passar por cima destas diferenças que, neste momento histórico, são menores para atingir um bem maior - barrar o processo te privatização da soberania dos Estados e implementar um projeto de cunho nacionalista, seremos atropelados pelos globalizantes. E talvez, então, seja tarde demais para desfazer o estrago que eles farão...
 
 


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