QUEREMOS REVANCHE
Sabe-se pouco sobre a economia
de Botsuana. Não me lembro de ter lido nada sobre botsuana escrito
por Delfim. Não há notícia de economistas vrasileiros
fazendo estágio em Botsuana ou economistas de Botsuana convidados
para seminários no Brasil. Nenhuma teoria econômica publicada
em Botsuana foi traduzida e publicada aqui. Nos departamentos de economia
da USP e da UFRJ sabe-se vagamente que Botsuana fica na África e
nem nisto estão de acordo. Há uma corrente que a coloca no
Himalaia, outra diz que é uma prima do Bussunda que ganhou na loteria.
E no entanto devem estar fazendo alguma coisa certa em Botsuana, pois este
ano eles nos passaram no ranking do Banco Mundial, categoria distribuição
de renda. Nós estávamos emm penúltimo e passamos para
último. Botsuana agora é o penúltimo e ameaça
o antepenúltimo. Perdemos tempo estudando americanos e europeus
quando deveríamos estar aprendendo com nossos iguais. Ou, agora,
nossos superiores. Eles obviamente descobriram a fórmula para diminuir
um pouquinho a desigualdade social que perseguimos há tanto tempo.
É óbvio que eles descobriram a fórmula porque a alternativa
seria concluir que não foi a Botsuana que melhorou, foi o Brasil
que piorou. Isso seria inadmissível. Nenhum governo brasileiro até
hoje tomou posse dizendo que era a favor da injustiça social. Ao
contrário, os discursos de campanha e de posse são sempre
de vibrante denúncia da desigualdade, independentemente do partido,
da ideologia ou do sobrenome do Fernando. Como não há por
que duvidar da boa sinceridade de ninguém, a conclusão é
a de que Botsuana está nos ganhando por merecimento. Só precisamos
descobrir a sua fórmula e pedir revanche. Com pequenas variações,
usamos o mesmo modelo há anos. Varia o discurso protelatório
- conhecido entre os economistas como "lengalenga" -, que antes era esperar
que o bolo crescesse para dividí-lo e hoje é esperar que
a moeda se estabilize para ver o que dá para fazer mais tarde, gente,
calma. Quem ditou o modelo brasileiro nestes anos todos foi o mesmo centrão
político e econômico qie p Éfe Agá e o Weffort
tanto admiram, e que portanto não pode ser responsabilizado pela
derrota para Botsuana.
Já
que são todos homens honrados, a única explicação
possível é a mágica. É a tese do feiticeiro.
O doping sobrenatural, sabe como são esses africanos. Para
não continuar fazendoo feio diante de Botsuana, só temos
uma opção. Mudar o modelo ou contratar o feiticeiro deles.
Luís
Fernando Veríssimo, 1/08/1995
Jornal do Brasil, 1° caderno, Pg. 9
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