2. Política de Incentivos Diversificada

A nova composição das Forças Armadas, baseadas em profissionais dos QP e voluntários em regime de contrato, vai colocar problemas especiais de relacionamento com a sociedade e com o mercado de trabalho, cuja solução terá de passar por respostas adequadas e medidas flexíveis, de natureza concorrencial, adaptadas às conjunturas.

A existência de uma política de incentivos, como suporte de uma crescente necessidade de levar os cidadãos a aderirem à prestação de Serviço Militar e de os manter por um período útil à instituição e, posteriormente, de facilitar a sua reintegração no mercado de trabalho, é a primeira exigência que se coloca.

O sistema de incentivos a propor à Assembleia da República tem de ser concebido de acordo com as necessidades, motivações e expectativas face ao Serviço Militar voluntário.

A salvaguarda dos interesses da Instituição Militar e do próprio cidadão deve ser acautelada, através de uma informação clara e rigorosa, sobre a forma de prestação de serviço e dos incentivos a que tem direito em cada período do contrato.

A política de incentivos a implementar em Portugal, tendo em conta o que ficou expresso, deve obedecer a dois princípios orientadores:

Ser diversificada (para englobar as necessidades, motivações e expectativas do maior número de potenciais candidatos);

Ser progressiva (para atribuir os incentivos segundo uma sequência lógica e de acordo com as aspirações dos cidadãos e as necessidades das Forças Armadas, em função do tempo de prestação de serviço).

Os incentivos passíveis de implementação, respondendo aos princípios acima enunciados, devem atingir três objectivos essenciais:

* Prioridade de acesso a carreiras nas Forças de Segurança através da contingentação de vagas;

* Possibilidade de ingresso em concursos internos para organismos da Administração Central, Regional e Local;

* Celebração de protocolos com associações empresariais e empresas para a monitorização dos perfis de formação profissional a prosseguir durante o serviço militar com vista à inserção mais ajustada no mercado.

Prioridade em empresas públicas, em entidades de interesse público e naquelas em que o Estado, sob qualquer forma, é maioritário.

* Aperfeiçoamento de legislação de apoio ao 1º emprego, garantindo benefícios fiscais às entidades patronais que empreguem cidadãos que prestaram serviço em regime voluntário nas Forças Armadas.

Prioridade em programas de cooperação técnico-militar e de cooperação civil com os países Africanos de língua oficial portuguesa;

* Prioridade em órgãos internacionais relacionados com a segurança e a defesa;

Apoio à criação de empresas individuais e familiares e a iniciativas locais, designadamente no interior.

A nossa opção aponta pois para uma diversificada gama de incentivos, que atenda às diferentes motivações dos jovens, que seja realista em termos de custos e que, não colidindo com as leis gerais do trabalho, considere o serviço militar como um serviço público a merecer tratamento póprio.

3. Forma e Tempo de Prestação de Serviço

Para além dos incentivos, também o regime de prestação de serviço é área que carece de ser definida, por forma a que o seu tempo de duração atenda às necessidades da Instituição e às perspectivas do cidadão.

Neste âmbito, a tendência europeia é no sentido de formas de prestação de serviço de longa duração (20/22 anos de serviço e limite máximo de idade de 40 anos).

Considera-se que a opção por tempos de prestação de serviço mais curtos (9 anos após formação inicial) que possibilitem rentabilizar a formação, será a que, numa primeira fase, melhor se enquadra na realidade nacional.

Em resultado da experiência vivida com os actuais RV e RC, em que se verificam dificuldades de gestão devido a compromissos muito diferenciados, considera-se igualmente desejável, de futuro, a existência de uma única modalidade de prestação de serviço para o pessoal voluntário não permanente, o regime de contrato.

Com base nestes pressupostos, para se poder tirar proveito da formação prestada, e permitir obter a desejável estabilidade de efectivos, será conveniente um primeiro período de prestação de serviço com uma duração mínima de 2 anos, com prorrogações sucessivas, no mínimo de 1 ano, até ao limite de 9 anos, contabilizados após a formação inicial.

4. Estabilidade dos efectivos

No modelo exposto reconhece-se que a sua maior vulnerabilidade é a incerteza da permanência dos efectivos nas fileiras. Como forma de minimizar esta dificuldade, as Forças Armadas virão a ser constituídas por um menor número de efectivos, objectivo este conseguido através da racionalização dos meios, concentração dos órgãos e serviços e diminuição dos actuais níveis de decisão.

Uma outra forma de manter a estabilidade de efectivos é garantir que parte da componente de sustentação dos ramos seja preenchida por civis, embora dando preferência aos que tenham cumprido o Serviço Militar. Esta opção possibilita a utilização do pessoal voluntário em tarefas operacionais obtendo-se, assim, uma optimização dos recursos disponíveis e uma racionalização de custos. Desta forma, será admissível prever um progressivo aumento percentual de civis nas Forças Armadas. Relativamente ao QP, proceder-se-à de modo a que haja, gradualmente, uma diminuição em valor absoluto dos actuais quantitativos, como resultado das reduções nas estruturas de recrutamento e instrução, da racionalização de vários serviços, da própria natureza dos efectivos e da eventual harmonização da componente operacional do sistema de forças.

A adesão voluntária das mulheres às Forças Armadas vai alargar, substancialmente, o universo de recrutamento, sendo previsível um acréscimo destes efectivos em serviço na instituição militar.

A incorporação de mulheres nas fileiras, incluindo a sua participação em unidades empenhadas no exterior, foi um sucesso e revela grande potencialidade para o futuro.

Prevê-se assim que os efectivos existentes, que representam cerca de 5% do total de militares nas fileiras, cresçam para percentagens que se situem entre os 8 e 10% dos quantitativos das Forças Armadas.

No quadro mostra-se a evolução dos efectivos militares no período já considerado (89 a 97) e faz-se uma primeira projecção para o ano de 2003 com quantitativos susceptíveis de análise e ajustamentos, bem como sobre a nova composição das Forças Armadas.

 
 
 
1989
1997
2003
(previsões)
QP   

RV/RC  

SEN  

TOTAL 

23.547 
 
3.409
 
45.129 
 
72.085 
20.600
 
17.328
 
 8.014
 
 45.942 
17.700 
 
22.800 
 
 
 
 40.500 
 
 
Os principais pontos a referir são: Quanto à composição das Forças Armadas, as alterações são evidentes: Como último apontamento sobre os efectivos militares, refira-se que a sua relação com a população do país se situa num valor aproximado de 4,05 militares por 1000 habitantes, o que no quadro dos países Europeus pertencentes à NATO (com uma faixa entre os 15,1 e os 3,5) é o 3º. valor mais baixo.

5. Custos do Novo Modelo

Os encargos financeiros necessários à implantação e à manutenção do novo sistema de prestação de serviço militar voluntário decorrem de vários factores já identificados em países estrangeiros que recentemente adoptaram aquele modelo. Os custos de transição, que têm sido difíceis de contabilizar "ab ínitio" nos Países em que decorre, dependem normalmente da dimensão humana que for decidida para os Ramos das Forças Armadas. Vários cenários estão já estudados.

Referem-se neste documento apenas alguns parâmetros fundamentais:

- No curto prazo, durante o período de transição, há um natural aumento de custos;

- O aumento de custos com pessoal é variável, dependendo das formas de prestação de serviço e incentivos oferecidos aos voluntários;

- A redução de efectivos, a racionalização dos meios e o redimensionamento das estruturas, são factores indispensáveis para a diminuição dos custos;

- A médio e longo prazo os encargos tendem a estabilizar, devendo o custo/benefício do novo sistema ser apreciado pela sua rentabilidade directa e indirecta.

De acordo com o referido, importa fazer algumas considerações de ordem financeira.

Assim:

- No âmbito do pessoal - No âmbito das infra-estruturas Em contrapartida, o novo modelo pode permitir reduções substanciais de custos, desde que se actue com eficácia na racionalização dos meios, na concentração dos serviços, na optimização dos recursos humanos e na retracção do dispositivo, por forma a permitir uma redução de efectivos e uma diminuição das despesas de funcionamento. Neste âmbito, podemos identificar entre outros:

- Para a redução de efectivos

- Para as despesas de funcionamento Estas premissas constituindo indicadores essenciais para formar uma opinião segura sobre as consequências financeiras decorrentes da adopção de um novo modelo assente exclusivamente no voluntariado, em tempo de paz, são elementos já suficientes para concluirmos por um aumento de despesas no período transitório e para uma diminuição progressiva após esta fase. No seu final será atingida a estabilização dos orçamentos, com montantes que irão depender fundamentalmente dos efectivos globais, da sua natureza, do leque de incentivos a implementar e de outros custos.

Será possível, no entanto, estimar valores médios anuais de custo acrescido por pessoa, em relação ao custo actual no SEN, entre os 750 cts e os 950 cts tendo por base os seguintes pressupostos:

6. Período de Transição

A transição do actual modelo misto, para o modelo baseado exclusivamente no voluntariado que teve uma duração entre três e sete anos nos países que optaram pela profissionalização das Forças Armadas, deve acautelar:

Para o efeito, será indispensável considerar uma "fase preparatória" de planeamento e programação que inclui o estudo e aprovação do quadro legal enquadrador do novo modelo, fase em que nos encontramos, e que deverá terminar em 1998 a que se seguirá uma "fase de execução" que se prevê entre três e cinco anos.

A duração do período de transição, que vai depender da adesão do jovem cidadão ao novo modelo de voluntariado e que passa inevitavelmente pela disponibilização de recursos financeiros que tornem aliciante a prestação do serviço militar, vai ter uma aplicação diferenciada nos três ramos das Forças Armadas.

A Força Aérea tem já um modelo assente exclusivamente no voluntariado e não tem sentido dificuldades na rendição dos militares em fim de contrato. É um ramo que está em condições de transitar para o sistema profissionalizado dentro de um ano, período necessário para fazer face a eventuais ajustamentos na sua estrutura.

A Marinha, que recorre ainda ao SEN recrutando cerca de 1800 militares por ano, necessitará de um período de cerca de dois anos para a sua substituição por voluntários.

O Exército é o ramo que mais dificuldades vai ter na transição, não só pelo número elevado de militares em SEN que necessitarão de ser substituídos, obrigando a um período mais dilatado, como por previsíveis maiores dificuldades na adesão de voluntários a especialidades que, pelas suas características, serão menos aliciantes para o jovem cidadão.

Nestas circunstâncias, considera-se o período de três a cinco anos, como o mais ajustado para a profissionalização do Exército.

7. A Viabilização do modelo

Em síntese, poderemos afirmar que a viabilidade do modelo de Forças Armadas assentes exclusivamente no voluntariado, depende de três ordens de factores:

- A uma redução global de efectivos, à custa de um redimensionamento da estrutura territorial dos ramos e da criação de serviços comuns e comandos conjuntos, em suma a adopção de medidas de racionalização com o propósito de evitar duplicações e redundâncias;

- A uma maior qualificação dos efectivos que permita aumentar os níveis de prontidão e uma maior flexibilidade de emprego, proporcionando um melhor rendimento dos equipamentos e sistemas de armas de complexidade crescente;

- À adesão dos recursos humanos necessários e à sua "conservação", que exige formas de prestação de serviço atractivas, incentivos diversificados e progressivos e medidas legislativas cautelares que garantam a estabilidade dos efectivos;

- A um modelo de mobilização eficiente que exige um recenseamento universal e medidas legislativas enquadradoras das obrigações militares dos cidadãos, em tempo de paz, e em situações de excepção, para fazer face às necessidades do completamento e crescimento do sistema de forças, tendo como pano de fundo a natureza do conflito e os meios, equipamentos e infra-estruturas disponíveis;

- A um período de transição que garanta uma mudança sem sobressaltos e sem prejuízo dos objectivos estruturais estabelecidos, tendo em atenção a necessidade de substituir, de forma progressiva, militares em SEN por militares voluntários em RC e de proceder às reformas do sistema.

- A actualidade dos valores de defesa da Pátria, das instituições democráticas, da independência nacional no quadro das alianças, do valor da liberdade e segurança da pessoa humana no exercício pleno da cidadania;
- O factor militar tem contribuído de forma significativa para a visibilidade e prestigio internacional que Portugal desfruta actualmente nas organizações de segurança colectiva;
- A participação das Forças Armadas em missões internacionais, integradas em forças multinacionais, com o objectivo de salvaguardar, afirmar e construir a Paz e a solidariedade entre os povos, deu-lhes uma dimensão mais construtiva e geradora de uma articulação constante entre a Política Externa e a Segurança e Defesa. - Um aumento de custos directamente relacionados com a nova natureza dos recursos humanos;
- A necessidade de dar satisfação aos requisitos de modernização que continuadamente se colocam;
- A reorganização do sistema com a alteração das estruturas e a adequação da componente territorial ao novo modelo.
Ministério da Defesa Nacional, 02 de Abril de 1998
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