A substituição do serviço militar obrigatório (SMO) pelo voluntariado tem sido objecto de vigorosa polémica, em Portugal, mas circunscrita a meios restritos de especialistas. O debate, no entanto, necessita de ser alargado porque está em causa uma reforma estrutural do Estado com consequências importantes para a Defesa Nacional e para os cidadãos.
As razões pró e contra a conscrição dividem-se em dois grandes grupos: as de carácter militar estrito, tomando o SMO apenas como uma técnica de recrutamento e as de carácter cívico, sociológico e ideológico.
Os principais argumentos, "militares" a favor da manutenção do SMO são os seguintes:
· uma vez na tropa, com contratos anuais, depois de um primeiro contrato de 2 ou 3 anos, como manter os voluntários nas fileiras o tempo óptimo de rentabilidade de 5, 6 ou até 9 nalgumas especialidades? É o desafio da permanência;
· não se ensinando no manejo das armas a maioria dos mancebos, não será possível, em caso de guerra, aumentar o número de militares rapidamente e na quantidade necessária. É o desafio da mobilização para crescimento de forças.
· umas FFAA de profissionais a quem se tem de pagar uma remuneração, condições de vida e serviços sociais adequados obrigam a despesas insuportáveis ao país. É o desafio dos custos.
Os dois primeiros desafios são resolúveis com remunerações e condições de vida adequadas no quartel, formação profissional e facilidades de reinserção profissional e incentivos de carácter social.
Tendo em conta a situação actual (Quadro
1) só o Exército tem um problema sério de recrutamento
de voluntários a resolver, tanto mais que depois não pode,
como até agora, recrutá-los facilmente a partir dos militares
do SMO, nos quartéis.
Para a mobilização de reservas haverá que fazer contratos com os ex-voluntários e optar por algumas das soluções já testadas noutros países. Aliás, hoje, não temos reservas de mobilização credíveis em virtude de o SMO de quatro meses não dar instrução militar suficiente.
O aumento de custos com as remunerações e condições favoráveis terão de ser compensados com a diminuição de efectivos (que já se verificou em parte), com a restruturação das FFAA que centralize serviços que se repetem em cada ramo das FFAA, com a optimização de meios e as poupanças no recrutamento, fardamento e desgaste de material de dezenas de milhares de recrutas que anualmente deixam de existir. No entanto, o aumento de custos será inevitável no período de transição.
Os argumentos cívicos, sociológicos, e ideológicos que têm sido evocados contra o fim do SMO são os seguintes:
São receios e dúvidas legítimos que importa submeter à prova do debate para que cada um avalie se resistem ou se passam à categoria de fantasmas. Ou, se alguns constituírem perigos potenciais, poderem ser prevenidos com medidas adequadas.
Que contrapõem os adeptos do voluntariado?
A ideia de que o SMO é de esquerda ou republicano, etc. surgiu com o ideário que levou à revolução francesa e identificava o SMO como um dever e direito de cidadania, identificação nacional e como forma de retirar à nobreza a exclusividade do poder das armas.
O fim da conscrição é assim tomado como um retrocesso, o que, fora do contexto histórico, não tem sentido.
É certo que ficaram tristemente célebres os exércitos de profissionais da restauração monárquica e imperial, pós-Napoleão, que passaram o tempo a combater levantamentos populares e revoluções dentro das fronteiras dos seus países em vez de combaterem uns contra os outros. Mas não consta que o exército prussiano do SMO tivesse comportamento mais democrático.
Aliás, a conscrição nunca foi um antídoto dos "quartelazos" na América Latina ou na Europa. O papel dos militares conscritos na condução das FFAA, fora dos períodos revolucionários é nulo, como se sabe. Para o movimento dos capitães, no 25 de Abril de 1974, o SMO teve algum papel, através principalmente dos oficiais e sargentos milicianos, como agentes de anseios da sociedade civil, no contacto com os oficiais do quadro permanente. Mas foram estes, voluntários e profissionais, que realmente fizeram o levantamento militar e derrubaram o Governo.
A mercenarização é outro perigo irrealista para o tipo de exército profissional que se projecta para Portugal. O isolamento das FFAA relativamente à nação depende, nomeadamente, das missões civis que o poder político lhes atribuir e da formação dada nas escolas militares e nos quartéis, aos voluntários de curto prazo, os que substituem os do SMO, e mais ainda aos voluntários/profissionais, os militares do quadro permanente, que são quem determina a natureza das FFAA.
Quanto à questão das missões externas das FFAA (de Paz, etc.), para aqueles que receiem poder elas virem a "transformar os actuais Ministros da Defesa em Ministros do Interior no exterior", repare-se que elas estão a ser executadas pela França, Itália, Alemanha, Espanha, Portugal, que têm as suas FFAA assentes na conscrição.
Relativamente à cidadania e identificação
nacional é uma realidade que o SMO teve um papel importante no fim
do século passado e ao longo deste século. Juntando sob uma
mesma bandeira e valores comuns os algarvios e os beirões, os alentejanos
e os minhotos. Mas será a conscrição hoje ainda um
factor necessário à identificação nacional?
Na era da comunicação? E as mulheres que não iam à
tropa têm menos consciência nacional que os homens e foram,
ao longo da História, menos patriotas ou nacionalistas? Excluídos
os períodos de guerra, 1ª e 2ª guerras mundiais e as guerras
coloniais, os portugueses e portuguesas que cumpriram o SMO, não
deve chegar aos 25 % (quadro 3).
Só cumpriram serviço militar o número de cidadãos necessário às FFAA. Nunca ninguém quis saber dos atributos marginais do SMO, cidadania, republicanismo, democracia, educação cívica ou física dos cidadãos!
A razão mais longínqua e determinante para a obsolescência do SMO é a evolução científica e tecnológica, como ao longo da História, em geral para as estruturas sociais.
As armas nucleares, os mísseis inteligentes, o visionamento por satélite de todo o planeta, os computadores, fizeram depender o desfecho das guerras cada vez menos do número de militares e cada vez mais do número de cientistas. Na guerra actual, para o Estado Maior, pode valer mais ter um Bill Gates do que um exército de carabineiros!
As razões próximas que estão
a acabar com o SMO na Europa decorrem das alterações políticas
e militares, resultantes do fim da guerra fria com o consequente desaparecimento
de perigo de guerra de nações contra nações
que requeriam a mobilização total da população.
O SMO parece estar a atingir, nas actuais circunstâncias, o prazo
de validade.
* Artigo publicado na revista "Janus 98" - Suplemento Especial; Novembro de 1998.