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Parte
I
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Há algum tempo, embora eu construísse - sob encomenda - aparelhos de áudio, estava prestes a encerrar tal atividade (ver nota 1), mas não gostaria de deixar os amantes da boa música sem alternativas. Inicialmente, pensei em criar e publicar uma lista com os modelos de aparelhos mais adequados aos audioentusiastas (audiófilos) brasileiros, a qual poderia ser consultada livremente, auxiliando assim na escolha de um bom aparelho. Por este motivo procurei fazer um balanço dos equipamentos novos industrializados de alta qualidade, disponíveis no mercado. Porém, embora estivéssemos às vésperas do ano 2000, não muito distante de um novo milênio, em termos de equipamentos de áudio não encontrei uma única opção de alta qualidade e economicamente viável. Assim, na época, com o objetivo de auxiliar os audioentusiastas, decidi publicar o projeto completo de um amplificador, muito superior a todos os projetos até então disponíveis no site. Naquele ano, projetei especialmente para os diyers brasileiros um amplificador que denominei FM-2101. Devido à relativa complexidade do projeto, levei algum tempo desenvolvendo os diversos textos e respectivos desenhos a respeito de sua construção. Um total de cinco páginas estavam escritas, as primeiras prontas para ir ao ar. Todavia, naquele período tive o dissabor de ver partes de meu trabalho copiadas e publicadas por terceiros, sem minha autorização. Naquele momento, tomei a decisão de cancelar a publicação do projeto 2101. Observe que, devido ao fato mencionado, deixei de publicar o projeto de um excelente aparelho. Todos perdemos: eu por dedicar tempo e dinheiro a um projeto que nunca foi publicado, e você por não poder usufruir a qualidade do 2101 e demais projetos que já estavam separados para serem publicados neste site. Hoje, passado algum tempo, vejo que no Brasil a situação não mudou muito para os audioentusiastas. Pois, recentemente, apenas três fabricantes brasileiros anunciaram a produção de amplificadores destinados à área de áudio. Sendo que, embora existam bem poucos modelos, há exemplares valvulados, transistorizados e híbridos. Entretanto, até o momento não tive a oportunidade de analisar esses aparelhos. Conseqüentemente, não tenho como expressar comentários. Já os aparelhos artesanais fogem ao objetivo deste texto. Boa parte dos audioentusiastas, brasileiros, continua sonhando com os poucos e caros equipamentos de alta-fidelidade, disponíveis no mercado, em especial o europeu. No Brasil, o preço desses equipamentos é muito alto e poucos possuem condições financeiras de adquirí-los. Como exemplos, citaria as conhecidas marcas Gryphon, Sphinx, Accuphase e algumas outras que construíram alguns modelos de aparelhos analógicos de alta qualidade. Nunca é demais relembrar que boa parte dos fabricantes disponibiliza aparelhos com diferentes níveis de qualidade. Com isso, é mais acertado mencionar o modelo do aparelho de um determinado fabricante a generalizar. Assim, poderia citar o Gryphon Antileon (com reserva ao excesso de energia dissipada em forma de calor), o Accuphase P-370, cuja relação custo/benefício é muito boa, e o excelente A-60 (desde que não utilizado em modo balanceado ou ponte), como exemplos de aparelhos respeitáveis. Cada qual, felizmente, com filosofias e características distintas (ver nota 2 ). Digo felizmente porque áudio não é uma ciência exata, e as pessoas possuem diferentes gostos e desejos. Cada fabricante procura se identificar com um determinado tipo de consumidor e oferecer um produto compatível com a expectativa deste. Ao menos assim agem alguns fabricantes proporcionando, desse modo, alguma opção de escolha, que não existiria se todos os fabricantes de aparelhos pensassem da mesma forma ou compartilhassem da mesma topologia de circuitos. Alguns fabricantes de semicondutores, entretanto, objetivando valorizar suas ações, utilizam os mais diversos ardis para convencer ou pressionar os projetistas a utilizarem uma única linha de componentes. É o caso, por exemplo, de uma companhia que produz uma variante dos amplificadores "classe D" e, oferece tais produtos como tendo qualidade "audiófila" (isto está explícito na documentação técnica disponibilizada pela empresa), quando não a tem. O som diferenciado desses aparelhos deve-se em parte ao fato da resolução diminuir com o aumento do nível do sinal de áudio e da potência - característica mensurável. Ou seja, a capacidade de resolução do amplificador sofre variações constantes durante a audição. O som pode ser agradável para alguns, mas existe uma considerável distância entre o que vou chamar de "agradabilidade" e a "alta-fidelidade". No presente caso, o termo "agradabilidade" é mais adequado que o termo "musicalidade", comumente utilizado pelos articulistas. Devemos observar que não necessariamente o que é agradável é bom. Curiosamente, um certo número de revistas dedicadas à análise subjetiva de aparelhos e que representam um poderoso veículo de publicidade, têm classificado tais aparelhos como sendo de ótima qualidade. Há produtos tecnicamente reprováveis, que estão sendo anunciados como "melhor compra" ou até mesmo recebendo a classificação "referência", enquanto produtos de superior qualidade, por vezes, recebem classificações menos expressivas. Não é nada animador abrir uma revista e ler desmerecidos elogios a determinados produtos. É com freqüência que encontro comentários incongruentes e afirmações desacertadas a respeito de teorias, aparelhos, componentes e topologias de circuitos. Embora reprováveis em publicações técnicas, alguns desacertos podem ser até considerados toleráveis; no decorrer deste texto, alguns exemplos serão citados, a título de esclarecimento. Outros, contudo, são inadmissíveis, causando transtornos não apenas aos leitores, mas a toda a comunidade de audioentusiastas. Escrever para revistas é uma grande responsabilidade, tendo em vista que, por questão cultural, o leitor deposita confiança nas publicações e utiliza as informações disponibilizadas em sua aprendizagem. Na segunda parte deste texto veremos alguns exemplos a respeito do assunto. ------------------------------ Nota 1 - Em janeiro de 2008, Fábio Maurício Timi retornou à atividade de construção de equipamentos de áudio, agora com a marca Timi Audio. Nota 2 - Muito embora a filosofia adotada em meus projetos seja diferente daquelas utilizadas por esses fabricantes, reconheço as qualidades individuais de cada produto.
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audio
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2006.03 |
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