A nova nobreza...

.....O mundo passa por uma transformação séria. As mídias passaram a encarar o público de uma forma um pouco diferente. "Pouco" é, na verdade, um eufemismo para uma segmentação no "mercado de informação" que está mudando radicalmente o modo como a comunicação deve ser vista e tratada. Esse período que alguns podem denominar "Internet - TV por assinatura" descreve bem essa cena. As pessoas cansaram-se do velho formato da TV. Os programas ultrapassados, a falta de opção, a obrigatoriedade de se divertir de acordo com as regras da "indústria cultural", dominada por 1 ou 2 emissoras em particular. Some-se a isso a péssima recepção de muitas emissoras e um pouco da novidade que a coisa oferece, e teremos um bom motivo para assinar uma TV a cabo. Para os que gostam de desenhos animados, Cartoon Network O dia inteiro. Se o seu gosto está mais para os documentários, Discovery Channel. Mas vamos supor que você prefere notícias ou filmes de cinema. E vamos considerar que você se encheu do jornalismo Globo-SBT e cansou de esperar 2 finais de semana para conseguir alugar aquela fita na locadora. Então você, agora assinante de uma TV a cabo, poderá ter encontrado o seu lugar no paraíso, a meros metros de sua televisão, bem na sua poltrona favorita. E então você pensa: "Estava ali o tempo todo!!!".

.......A grande verdade é que as pessoas resolveram assumir aquilo que sempre desejaram: a possibilidade de escolher o que querem ver. A TV a cabo trouxe ainda uma grande possibilidade: Assistir aos melhores programas da Europa e dos Estados Unidos. Acabaram-se as barreiras físicas. Sua antena, que antes não captava nem a emissora do bispo, agora capta vejam só: A CNN! Isso mesmo, aquela emissora que fez nome mostrando ao vivo e à cores toda a confusão armada pelo Sr. Saddan Hussein durante à pirotécnica "Guerra do Golfo". E não é só isso, sua TV capta também o Das Nachrichtenmagazin , da Alemanha e o La Rivière Esperance, transmitido originalmente lá da França! Uau! Isso significa que de agora em diante basta ligar a sua TV e abrir uma janela pro mundo!!! A tão falada globalização acaba de se hospedar em sua casa!


.......E como se isso não bastasse, há ainda uma outra novidade. Aliás, novidade não, Meganovidade, com "M" maiúsculo mesmo. Ela também traz o mundo pra dentro da sua casa, mas por aqui ele entra por outra janela: O monitor do seu micro. E tem uma vantagem que a TV a cabo não tem. Mesmo com todas as opções de canais, sistemas pay-per-view e "você-decides" da vida, a interatividade com as TVs por assinatura é um embrião, ainda dos mal-formados, perto desta nova mídia. Trata-se da Internet. Uma gigantesca teia universal onde milhões de computadores estão interligados numa razão variável de bits por segundo. Na Internet a informação viaja nos dois sentidos: Vem da fonte até você, e volta, com a sua opinião, novamente pra fonte. Isso significa que na Internet, você manda de verdade. Ou pelo menos tem a impressão de que manda mais do que na programação das outras mídias. Aqui você conversa, em tempo real com pessoas do mundo todo, ao preço de uma ligação local. Sites bem produzidos apresentam "chats" para viabilizar esse diálogo. Pra você discutir os mais variados assuntos com o resto das pessoas que habitam este mesmo planeta azul, há os "fóruns de discussão". E tem também o ICQ e o seu e-mail, pra acelerar esse contato.
.......Na Internet não há o que você procure que não encontre. "Então a confusão por ali deve ser equivalente àquela que vai acontecer no dia do juízo final...", você pode pensar. E antes que eu possa dizer alguma coisa, você completa: "...Você voa pro Japão pra escapar do fim do mundo e quando chega lá, descobre que não tem ninguém no Japão porquê os japoneses todos voaram pro Brasil...". Não, não é nada disso. Sites denominados "de busca" já trataram de colocar ordem no barraco. Uma procura da palavra "elefante" em qualquer um deles por exemplo, vai lhe apresentar todos os lugares da Web onde se fala desses paquidermes. Através da Internet você pode conhecer o Louvre, o MIT e até a NASA. Pode aprender idiomas, geografia e história. Pode conhecer melhor o seu ídolo preferido e saber como anda a economia em Blangadesh. Tudo isso na hora que você achar melhor. O surgimento da Internet já era considerado por muitos especialistas em comunicação, como um fenômeno tão ou mais importante quanto a Revolução Industrial. E isso antes do governo americano anunciar a chegada da Internet 2 para meados de 2002. A Internet 2 resolverá o grande problema da velocidade de transmissão de dados que aflige aos atuais navegadores da rede. Ela vai reunir qualidades de multimídia, e então poderemos acreditar que a TV a cabo vai ter um grande concorrente, capaz de passar os mesmos programas que ela com vários "plus" a mais. E com isso, acabará o domínio do governo sobre as concessões de emissoras de TV. A democracia finalmente surgirá, brotando de cada monitor plugado na teia do mundo.
.......Mas toda essa informação traz um problema: O que fazer com ela? A maioria das pessoas não tem acesso à TV a cabo e muito menos à Internet. São muitas barreiras a serem demolidas antes que elas atinjam a grande massa. Poder aquisitivo para poder comprar micros e linhas telefônicas, além de pagar provedores de acesso, contas de telefone e assinaturas de TVs, soma-se à fobia ignorante para com a tecnologia e a falta de habilidade no seu uso por uma população que hesita em comprar coca-cola de uma máquina e até pouco tempo tinha dificuldade para utilizar telefones públicos com cartão. Mas há pessoas que podem ter acesso às duas mídias. Tudo bem, mas elas também são um problema, com raras excessões. A maioria simplesmente é incapaz de absorver as informações mais importantes e obter algum "lucro" com isso. O nível básico de informação e cultura necessário para se tirar alguma conclusão em cima de tudo àquilo a que se tem acesso, através de um simples silogismo está longe do ideal. Grande parte dos estudantes, bem como de todas as pessoas que têm acesso a todas essas mídias, têm dificuldades em acompanhar os processos de desenvolvimento tecnológicos e manter sua cultura em dia ao mesmo tempo.
......A conclusão óbvia de tudo isso está na ponta da nossa língua: As pessoas não estão preparadas para isso. O filme passou muito rápido e a maioria não entendeu a história direito. As informações estão aí, mas é como se não estivessem. A população fala com o mundo, mas o mundo fala uma língua diferente. O Estado não preparou o seu exército para a guerra. Vamos lutar contra metralhadoras de assalto munidos de estilingues. Não nos basta analisar a situação de longe. O dragão é um pouco maior quando visto de perto. As universidades não preparam seus alunos para esta orgia tecnológica da informação. Brincamos com um Atari quando poderíamos brincar com um Silicon. Entendemos a metade quando poderíamos entender tudo. Só escrevemos o começo da frase quando poderíamos escrevê-la inteira. Potencial não falta. O problema é que somos um Vectra com motor 1000. E sem os acessórios. O mundo está girando cada vez mais rápido e a tecnologia não pára. É como escreveu o poeta Arthur Rimbaud em "Uma temporada no inferno":

"A ciência, a nova nobreza! O progresso.
O mundo anda! Por que não giraria?"



<<< B a c k

 

N e x t >>>

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