FORMAÇÃO: UMA RESPONSABILIDADE SOCIAL
Marina Patrício de Arruda
O conjunto de mudanças que ora assistimos desencadeado pelo avanço tecnológico, globalização da economia e conseqüente internacionalização do conhecimento, nos instiga a pesquisar como os periódicos vêm garantindo a construção de concepções e práticas relativas à formação no decorrer dos últimos anos tendo em vista as atuais demandas desse fim de século. Importante ressaltar que a formação é um fato eminentemente histórico e suas modificações vão aparecendo na medida em que os modelos adotados revelam-se inadequados para satisfazer as necessidades emergentes.
Podemos então, discutir nesse artigo resultados parciais de um projeto em desenvolvimento. O referido projeto tem como objetivo maior fazer um levantamento das principais orientações do periódico sobre as práticas e concepções relativas à formação.
Formação, hoje compreendida como um conceito capaz de designar as qualidades sociais que a escola e diversos outros modos de socialização desencadeados na sociedade industrial desenvolvida que garantem aos indivíduos desenvolverem outros tipos de competências específicas Em assim sendo a categoria formação, em contexto de globalização passa a envolver várias outras dimensões referentes à vida social, como aprendizagem, reciclagem, aperfeiçoamento, formação profissional, o que em outras palavras pode significar um processo de formação contínua, ou como vem registrando os periódicos; a exigência de um perfil mínimo que permita acompanhar as mudanças tecnológicas.
Vem sendo vinculado pela imprensa de um modo geral, a idéia de que a formação é um dos fatores mais importantes para a recuperação do emprego e a sociedade como um todo já a considera como sinônimo de melhora profissional. O discurso de que a formação seja um fator fundamental de garantia de emprego , faz com que as pessoas busquem "na formação a chave para alcançar suas expectativas laborais"
De fato nem a literatura sociológica nem o debate social, registrado pela imprensa deixa claro o uso do conceito de formação, sabe-se, porém que ela envolve conhecimentos abstratos e técnicos, saberes adquiridos dentro e fora dos sistemas educativos. A formação não é mais patrimônio exclusivo desses sistemas, sua aquisição se dá através de um processo contínuo e múltiplo, em assim sendo podemos incluir dentro desse conceito as experiências e a socialização adquiridas em outras esferas sociais.
Esse conceito multidimensional também inclui uma disposição da sociedade em oferecer a cada um oportunidades de educação a cada momento, conforme as necessidades sentidas. Abrange também a articulação entre escolaridade e experiência, visando capacitar para as diferentes atividades profissionais de maneira flexível e conversível às necessidades atuais.
Ao perseguirmos o objetivo maior dessa pesquisa organizamos um sistema de hipótese desencadeado a partir da reorganização do mercado de trabalho atual que tendo em vista o avanço tecnológico e a globalização da economia passa a demandar um novo perfil de profissional. Nessa perspectiva, vamos encontrar o periódico enfatizando a necessidade de formação contínua para um mundo que muda tão depressa, formação esta que supera a acadêmica não envolvendo apenas conhecimentos técnicos, mas também a articulação entre escolaridade e experiência. E, como investir em capital humano é vital para a economia moderna, o periódico, frente a demanda tão emergente, também não se furta a veicular informações sobre o surgimento de uma gestão socializada que inclui ações do Estado , empresários e redes sociais comprometidos com a facilitação das condições para a inserção profissional. Ao final desse sistema de idéias, encontramos o periódico enquanto agente formador de opinião produzindo num movimento constante e infinito conceitos e práticas relativas à formação, em assim sendo, essa pesquisa inclui a necessidade de investigarmos a formação sob um prisma definido em diferentes espaços sociais, onde intervém atores sociais também distintos cuja lógica de atuação se dá de maneira conflitiva e interativa tendo em vista o sistema produtivo capitalista.
Embora o atual estágio dessa pesquisa não nos permita ainda nenhum tipo de conclusão, podemos entretanto, nesse momento comentar o dado mais significativo levantado até então: a necessidade de formação contínua. Encontramos nos periódicos uma divulgação extensiva de cursos de formação para o mercado de trabalho e de programas de reciclagem profissional que mostram o empenho da sociedade em investir em formação, seja através das práticas do Estado; reformas do ensino, nova LDB, reestruturação de cursos técnicos, ou seja através das práticas dos empresários na implantação de vários projetos de qualificação de recursos humanos ou na organização do primeiro canal educativo de TV. Enfim várias são as frentes ou movimentos desencadeados contra o analfabetismo financiadas por Ongs, empresas privadas ou órgãos públicos. Assim a maneira como este assunto vem sendo tratado pelos peródicos, retrata a importância que esta demanda tem sido priorizada dentro da nova organização do trabalho. O assunto é tratado como "ordem do dia", na maioria dos veículos de comunicação de massa. Isso porque houve nas últimas décadas o reconhecimento da complexidade do campo da formação, que abrange desde a instrução até amplas questões de política educacional do país tendo em vista o relevante aspecto da automação das formas de produção.
Isso nos faz refletir sobre a questão crucial de nossa época; a globalização econômica. Na sociedade global a capacidade dos Estados nacionais para resolver problemas fica reduzida. O Estado não detém mais o monopólio do espaço público, existem novas orientações para as políticas globais e os novos problemas passam a exigir novas instâncias de decisão. Em assim sendo, tornou-se necessário também investigarmos a noção de sociedade civil, mesmo porque anteriormente, nos referimos à disposição da sociedade em oferecer oportunidades de inserção profissional em se tratando de formação contínua.
Foi a partir da década de setenta a noção de sociedade civil sofre uma mudança considerável. Novas dimensões passaram a ser a ela associadas, expressões como; autonomia, autogestão, participação, direitos humanos e cidadania. Surge então uma maneira diferente de pensar a sociedade, sob a perspectiva da igualdade de direitos, o que sugere uma sociedade civil organizada.
Nas últimas décadas podemos observar que a noção de sociedade civil se transforma e pode ser compreendida em oposição ao mercado e ao Estado, além de representar uma terceira dimensão da vida pública, passa a significar "um campo onde prevalecem os valores da solidariedade".Nessa esfera social-pública, ainda emergente, encontram-se os movimentos e instituições, que embora privados, tem objetivos sociais, como é o caso das organizações não-governamentais.
É nessa perspectiva que podemos acompanhar através do periódico a reorganização de diversos setores da sociedade ao desenvolver estratégias voltadas às práticas de formação que visam a inserção profissional num mercado cada vez mais competitivo.
É evidente que o processo de formação sofreu mudanças ao longo dos anos, em decorrência das atuais exigências de mercado. Se até à metade desse século a formação tinha um cunho totalizante, rígido e autoritário, hoje a formação se firma em moldes mais globalizantes, porque a tecnologia impõe um ritmo acelerado de mudanças sociais e econômicas, implicando uma constante reposição de saberes.
Hoje, os diversos espaços voltados à formação, pela natureza do trabalho que desenvolvem, têm um sério compromisso com a liberdade da sociedade brasileira portanto, é preciso determinar novas finalidades para a Formação. Trata-se de uma revolução qualitativa da formação, o que exigirá esforço da sociedade como um todo.
Além do mais é preciso pensar que "Há um desejo que não pode ser anulado por nenhum outro: compartilhar a responsabilidade com nossa contemporaneidade"( Heller, 1982, p.222). É dessa maneira que a sociedade estará preparando o profissional demandado pelo século XXI e construindo a história. Com essas reflexões objetivamos contribuir para um melhor entendimento das práticas relativas à formação evidenciando sua implicação na responsabilidade social .
BIBLIOGRAFIA:
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HELLER,Agnes. Teoría de la história. Barcelona: Editorial Fontamara ,S.A., 1982.
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RÉGNIER, Erna Marta. Desafios da Educação para o Terceiro Milênio: Breves Considerações in Boletim Técnico do Senac 19 (1) : 2-15 jan./abr. 1993.
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Além de várias outra leituras realizadas nas várias disciplinas cursadas durante o Mestrado em Serviço Social.