Gente
que BG conheceu
Pedro Luís Pereira de Sousa
Do site da Universidade
Federal de Santa Catarina
Jornalista, poeta, deputado, administrador, ministro e homem da mais fina
sociedade fluminense, pertencia este moço à geração que começou por 1860.
Chamava-se Pedro Luís Pereira de Sousa e nasceu no
município de Araruama, Província do Rio de Janeiro, a 15 de dezembro de 1839,
filho do Comendador Luís Pereira de Sousa e de D. Maria Carlota de Viterbo e
Sousa. Era formado em ciências sociais e jurídicas pela Faculdade de S. Paulo.
Começou a vida política na folha de Flávio
Farnese, a Atualidade, de colaboração com Lafayette Rodrigues Pereira,
atualmente senador, e com Bernardo
Guimarães, mavioso poeta mineiro, há pouco falecido. Ao mesmo tempo
iniciou vida de advogado no escritório de F. Otaviano.
Essa primeira fase da vida de Pedro Luís dá
vontade de ir longe.
A figura de Flávio Farnese surge debaixo da pena e
incita a recompor com ela uma quadra inteira de fé e de entusiasmo liberal. Ao
lado de Farnese, de Lafayette, de Pedro Luís, vieram outros nomes que, ou
cresceram também, ou pararam de todo, por morte ou por outras causas. Sobre tal
tempo é passado um quarto de século, o espaço de uma vida ou de um reinado.
Olha-se para ele com saudade e com orgulho.
Conheci Pedro Luís na imprensa. Íamos ao Senado
tomar nota dos debates, ele, Bernardo Guimarães e eu, cada qual para o seu
jornal. Bernardo Guimarães era da geração anterior, companheiro de Álvares de
Azevedo, mas realmente não tinha idade; não a teve nunca. A nota juvenil era
nele a expressão de humor e do talento,
Nem Bernardo nem eu íamos para a milícia
política; Pedro Luís dentro de pouco foi eleito deputado pelo 2.º
distrito da Província do Rio de Janeiro com os conselheiros Manuel de Jesus
Valdetaro e Eduardo de Andrade Pinto. A estréia de Padre Luís na tribuna foi um
grande sucesso do tempo, e está comemorada nos jornais com a justiça que
merecia. Tratava-se de um projeto concedendo um pedaço de terra a um Padre
Janrard, lazarista. Padre Luís fez desse negócio insignificante uma
batalha de eloquência, e proferiu um discurso cheio de grande alento liberal.
Surdiram-lhe em frente dous adversários respeitáveis: Monsenhor Pinto de Campos,
que reunia aos sentimentos de conservador o caráter sacerdotal e o Dr. Junqueira
queira, atual senador: eram dous nomes feitos e tanto bastava a honrar o estreante
orador.
As vicissitudes políticas fizeram-se sentir em
breve.
Pedro Luís não foi reeleito na legislatura seguinte. Em 1868 a situação
liberal, o Conselheiro Otaviano tratou da funda Reforma, e convidou Padre
Luís, que ali trabalhou ao lado flor do partido.
Então, como antes, cultivou as letras, deixando
algumas composições notáveis, como "Os Voluntários da Morte",
"Terribilis Dea "Tiradentes" e "Nunes Machado". A
primeira destas tinha sido r citada por ele mesmo em uma casa da Rua da Quitanda,
onde se reuniam alguns amigos e homens de letras; e foi uma revelação de
primeira ordem. Recitada pouco depois no teatro e divulgada pela imprensa, correu
o império e atravessou o oceano, sendo reproduzida em Lisboa, donde o
Visconde de Castilho escreveu ao poeta dizendo-lhe que essa ode era um rugido de
leão.
Todas as demais composições tiveram o mesmo
efeito. São, na verdade, cheias de grande vigor poético, raro calor e movimento
lírico.
Não tardou que a política ativa o tomasse
inteiramente. Em 1877 subiu ao poder o Partido Liberal e ele tornou à Câmara dos
Deputado, representando a Província do Rio de Janeiro. A 28 de março de
1880, organizando o Sr. Senador Saraiva o seu ministério, confiou a Pedro Luís a
pasta dos negócios estrangeiros, para a qual parecia indicá-lo especialmente as
qualidades pessoais. Nem ocupou somente essa pasta: foi sucessivamente ministro
interino da marinha, do império e da agricultura.
No ministério da agricultura, que ele regeu duas
vezes, e a segunda por morte do Conselheiro Buarque de Macedo,
encontramo-nos os dois, trabalhando juntos, como em 1860, mas ele
agora era ministro de Estado, e eu tão-somente oficial de gabinete. Cito esta
circunstância para afirmar com o meu testemunho pessoal, que esse moço suposto
sibarita e indolente, era nada menos que um trabalhador ativo, zeloso do cargo e
da pessoa; todos os que o praticaram de perto podem atestar isto mesmo. Deixou o
seu nome ligado a muitos atos de administração interior ou de natureza
diplomática.
Posta em execução a reforma eleitoral, obra do
próprio ministério dele, o Conselheiro Pedro Luís, que então era ministro de
duas pastas, não conseguiu ser eleito. Aceitou a derrota com o bom humor que lhe
era próprio, embora tivesse de padecer na legítima ambição política; mas
estava moço e forte, e a derrota era das que laureiam. Não ter algumas centenas
de votos é apenas não dispor da confiança de outras tantas pessoas, cousa que
não prejulga nada. O desdouro seria cair mal, e ele caiu com gentileza.
Pouco tempo depois foi nomeado presidente da
província da Bahia donde voltou enfermo, com a morte em si. Na Bahia deixou
verdadeiras saudades; era estimado de toda a gente, respeitado e benquisto.
O organismo, porém, começou a deperecer, e o
repouso e tratamento tornaram-se-lhe indispensáveis; alcançou a demissão
do cargo e regressou à vida particular.
Faleceu na sua fazenda da Barra Mansa, às 4 horas
da madrugada do dia 16 de julho do corrente ano de 1884.
Era casado com D. Amélia Valim Pereira de Sousa,
filha Comendador Manuel de Aguiar Valim, fazendeiro do município Bananal e
chefe ali do Partido Conservador. Um dos jornais Rio de Janeiro mencionou esta
circunstância:
Tal era a amenidade do caráter de Pedro
Luís, que, a despeito de suas opiniões políticas, seu sogro o prezava e
distinguia muito, assim como outros muitos fazendeiros importantes daquele
município, sem distinção de partido.
Ninguém que o praticou intimamente deixou de
trazer a impressão de uma verdadeira personalidade, podendo acrescentar-se que e
não deu tudo que era de esperar do seu talento, e que valia ainda mais do que a
sua reputação.
Posto que um tanto céptico, era sensível,
profundamente sensível; tinha instrução variada, gosto fino e puro, nada
trivial nem choco era cheio de bons ditos, e observador como raros.
Lembrar-me-ei de ti
Ahora e siempre.
Bernardo Guimarães
Lembrar-me-ei de ti, e eternamente
Hei de chorar tua fatal ausência,
Enquanto atroz saudade
Não extinguir-me a seiva da existência;
E recordando amores que frui,
Por estes sítios sempre entre suspiros
Lembrar-me-ei de ti.
De noite no aposento solitário
Cismando a sós, verei a tua imagem
Aparecer-me pálida e saudosa
Dos sonhos na miragem;
E então chorando o anjo que perdi,
Meu leito banharei de ardente pranto
Chamando em vão por ti.
Quando a manhã formosa alvorecendo
De seus fulgores inundar o espaço,
Demandarei saudoso
Esse lugar em que no extremo abraço
Teu lindo corpo ao peito meu cingi;
E deste vale os ecos acordando
Perguntarei por ti.
Quando por trás daqueles arvoredos
O sol sumir-se, vagarei sozinho
Por essas sombras, onde outrora juntos
Nos sentamos à borda do caminho;
E às auras que suspiram por ali,
Inda teu doce nome murmurando,
Hei de falar de ti.
Além, onde sonora a fonte golfa
À sombra de um vergel sempre viçoso,
Que sobre nós mil flores entornava,
Irei beijar a relva em que ditoso
Sobre teu seio a fronte adormeci,
E com a clara linfa que murmura,
Suspirarei por ti.
E quando enfim secar-se a última lágrima
Nos olhos meus em triste desalento,
Bem como a lira, em que gemendo estala
A extrema corda com dorido acento,
No sítio em que a primeira vez te vi,
Exalando um suspiro, de saudades
Hei de morrer por ti.
Araxá, 1856.
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