Vida e Obra de Bernardo Guimarães
  poeta e romancista brasileiro [1825-1884 - biografia]

 
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Gente que BG conheceu
Flávio Farnese

Do site do BG e da ABL
 
[Farnese foi o fundador do jornal carioca "Atualidade", onde B.G. trabalhou de 1859 a 1860]

PEDRO LUIS   []

JORNALISTA, poeta, deputado, administrador, ministro e homem da mais fina sociedade fluminense, pertencia este moço à geração que começou por 1860.

Chamava-se Pedro Luís Pereira de Sousa e nasceu no município de Araruama, Província do Rio de Janeiro, a 15 de dezembro de 1839, filho do Comendador Luís Pereira de Sousa e de D. Maria Carlota de Viterbo e Sousa. Era formado em ciências sociais e jurídicas pela Faculdade de S. Paulo.

Começou a vida política na folha de Flávio Farnese, a  Atualidade, de colaboração com Lafayette Rodrigues Pereira, atualmente senador, e com Bernardo Guimarães, mavioso poeta mineiro, há pouco falecido. Ao mesmo tempo iniciou vida de advogado no escritório de F. Otaviano.

Essa primeira fase da vida de Pedro Luís dá vontade de ir longe.

A figura de Flávio Farnese surge debaixo da pena e incita a recompor com ela uma quadra inteira de fé e de entusiasmo liberal. Ao lado de Farnese, de Lafayette, de Pedro Luís, vieram outros nomes que, ou cresceram também, ou pararam de todo, por morte ou por outras causas. Sobre tal tempo é passado um quarto de século, o espaço de uma vida ou de um reinado. Olha-se para ele com saudade e com orgulho.

Conheci Pedro Luís na imprensa. Íamos ao Senado tomar nota dos debates, ele, Bernardo Guimarães e eu, cada qual para o seu jornal. Bernardo Guimarães era da geração anterior, companheiro de Álvares de Azevedo, mas realmente não tinha idade; não a teve nunca. A nota juvenil era nele a expressão de humor e do talento,

Nem Bernardo nem eu íamos para a milícia política;  Pedro Luís dentro de pouco foi eleito deputado pelo 2.º distrito da Província do Rio de Janeiro com os conselheiros Manuel de Jesus Valdetaro e Eduardo de Andrade Pinto. A estréia de Padre Luís na tribuna foi um grande sucesso do tempo, e está comemorada nos jornais com a justiça que merecia. Tratava-se de um projeto concedendo um pedaço de terra a um Padre Janrard,  lazarista. Padre Luís fez desse negócio insignificante uma batalha de eloquência, e proferiu um discurso cheio de grande alento liberal. Surdiram-lhe em frente dous adversários respeitáveis: Monsenhor Pinto de Campos, que reunia aos sentimentos de conservador o caráter sacerdotal e o Dr. Junqueira queira, atual senador: eram dous nomes feitos e tanto bastava a honrar o estreante orador.

As vicissitudes políticas fizeram-se sentir em breve.
Pedro Luís não foi reeleito na legislatura seguinte. Em 1868 a situação liberal, o Conselheiro Otaviano tratou da funda Reforma, e convidou Padre Luís, que ali trabalhou ao lado flor do partido.

Então, como antes, cultivou as letras, deixando algumas composições notáveis, como "Os Voluntários da Morte", "Terribilis Dea "Tiradentes" e "Nunes Machado". A primeira destas tinha sido r citada por ele mesmo em uma casa da Rua da Quitanda, onde  se reuniam alguns amigos e homens de letras; e foi uma revelação de primeira ordem. Recitada pouco depois no teatro e divulgada pela imprensa, correu o império e atravessou o oceano, sendo reproduzida  em Lisboa, donde o Visconde de Castilho escreveu ao poeta dizendo-lhe que essa ode era um rugido de leão.

Todas as demais composições tiveram o mesmo efeito. São, na verdade, cheias de grande vigor poético, raro calor e movimento lírico.

Não tardou que a política ativa o tomasse inteiramente. Em 1877 subiu ao poder o Partido Liberal e ele tornou à Câmara dos Deputado,  representando a Província do Rio de Janeiro. A 28 de março de 1880, organizando o Sr. Senador Saraiva o seu ministério, confiou a Pedro Luís a pasta dos negócios estrangeiros, para a qual parecia indicá-lo especialmente as qualidades pessoais. Nem ocupou somente essa pasta: foi sucessivamente ministro interino da marinha, do império e da agricultura.

No ministério da agricultura, que ele regeu duas vezes, e a segunda por morte do Conselheiro Buarque de Macedo, encontramo-nos  os dous,  trabalhando juntos, como em 1860, mas ele agora era ministro de Estado, e eu tão-somente oficial de gabinete. Cito esta circunstância para afirmar com o meu testemunho pessoal, que esse moço suposto sibarita e indolente, era nada menos que um trabalhador ativo, zeloso do cargo e da pessoa; todos os que o praticaram de perto podem atestar isto mesmo. Deixou o seu nome ligado a muitos atos de administração interior ou de natureza diplomática.

Posta em execução a reforma eleitoral, obra do próprio ministério dele, o Conselheiro Pedro Luís, que então era ministro de duas pastas, não conseguiu ser eleito. Aceitou a derrota com o bom humor que lhe era próprio, embora tivesse de padecer na legítima ambição política; mas estava moço e forte, e a derrota era das que laureiam. Não ter algumas centenas de votos é apenas não dispor da confiança de outras tantas pessoas, cousa que não prejulga nada. O desdouro seria cair mal, e ele caiu com gentileza.

Pouco tempo depois foi nomeado presidente da província da Bahia donde voltou enfermo, com a morte em si. Na Bahia deixou verdadeiras saudades; era estimado de toda a gente, respeitado e benquisto.

O organismo, porém, começou a deperecer, e o repouso e tratamento  tornaram-se-lhe indispensáveis; alcançou a demissão do cargo e regressou à vida particular.

Faleceu na sua fazenda da Barra Mansa, às 4 horas da madrugada  do dia 16 de julho do corrente ano de 1884.

Era casado com D. Amélia Valim Pereira de Sousa, filha Comendador Manuel de Aguiar Valim, fazendeiro do município Bananal  e chefe ali do Partido Conservador. Um dos jornais Rio de Janeiro mencionou esta circunstância:

 Tal era a amenidade do caráter de Pedro Luís, que, a despeito de suas opiniões políticas, seu sogro o prezava e distinguia muito, assim como outros muitos fazendeiros importantes daquele município, sem distinção de partido.

Ninguém que o praticou intimamente deixou de trazer a impressão de uma verdadeira personalidade, podendo acrescentar-se que e não deu tudo que era de esperar do seu talento, e que valia ainda mais do que a sua reputação.

Posto que um tanto céptico, era sensível, profundamente sensível;  tinha instrução variada, gosto fino e puro, nada trivial nem choco era cheio de bons ditos, e observador como raros.


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A morte de Flávio Farnese

Bernardo Guimarães

Musa infeliz, ah! que sinistro fado
Te cinge a fronte de funérea rama,
E entre sepulcros pranto amargurado
Hoje a chorar te chama?...

Já não te é dado mais vibrar na lira
De flores enramada
As meigas cordas, em que amor suspira,
Nem por valente vôo arrebatada
Tecer hinos de glória
Aos filhos prediletos da vitória,
Nem por tardes formosas
À sombra descantar entre os vergéis
Da natureza as cenas graciosas,
Das solidões os mágicos painéis.
Ah! não, que o gênio, que te inspira agora,
Por sobre as campas entre sombras mora.

Nem mirtos, nem rosais bordam-te as sendas;
Hoje te obriga inexorável sorte
A vaguear por entre as mudas tendas
Dos arraiais da morte.
A cada instante lúgubre ruído
De lápida, que tomba,
A teus ouvidos tétrico ribomba,
- Eterno, último adeus de um ser querido.
A cada passo um túmulo abalroas
Nessa, que trilhas, senda ltituosa.
Não mais canções, - só fúnebres coroas
Cumpre-te hoje tecer com mão saudosa,
E entre gemidos do sepulcro à borda
Estalar do alaúde a extrema corda.

Despe os louros, ó musa, e do alaúde
Arranca a última flor,
E vem comigo ao pé de um ataúde
Gemer trenos de dor.

***

Quem é, que nesse chão ali repousa
À sombra de pacíficos troféus,
Sob essa simples lousa,
Sem pompa de soberbos mausoléus?...
Que nome tão saudoso
Este arvoredo fúnebre murmura?
Que eco doloroso
Do seio dessa fria sepultura
Aos ouvidos me chega, e triste vibra
Do coração na mais sentida fibra?...
É este de Farnese
O derradeiro, gélido aposento;
E bem que sobre as cinzas não lhe pese
Custoso bronze, ou mármore opulento,
Só esse nome vale um monumento.

Que grande coração, que alma tão nobre
Perdeu-se ali tão cedo !..
Quanta esperança morta ali se encobre
Debaixo desse fúnebre lajedo?
Quanto anelo viril, que peito forte
Jaz esmagado pelos pés da morte!...
Hoje a família, a pátria, a liberdade
Do ilustre morto a ínclita memória
Pranteia com saudade
E aos confins da mais remota idade
Seu nome recomenda envolto em glória.

A larga testa de palor tingida
Era bem como lâmpada velada,
Em que a luz sagrada
Da inteligência em torno difundida
Sem ofuscar fulgia derramando
De sãs idéias o reflexo brando.

De nobre crença apóstolo extremado
Para guiar o povo entre as tormentas
O havia Deus fadado.
Do porvir pelas sendas nevoentas
O verbo do progresso ele entrevia
Nesta palavra só Democracia.

Ninguém com mais denodo desfraldara
A flâmula brilhante
Da bela causa, que lhe foi tão cara;
Ninguém mais anelante
Em liça entrou, e deu com próprio punho
De sua fé mais amplo testemunho.

Era um atleta; desd'a verde idade
Lutando sem cessar em liça aberta
Nos santos arraiais da liberdade
O vimos sempre alerta.
Era um atleta, um lidador valente
Esse, que aí jaz dormindo eternamente.

Inda no primo albor da juventude
O austero moço via com tristeza
Naufragar da nação toda a virtude
No charco da baixeza;
E embaída por pérfidos afagos
De um poder ominoso
Da corrução sorver a longos tragos
O ópio venenoso.

E o leão popular curvado ao solo
Em perro humilde e vil se convertendo,
De quem o esmaga, e lhe comprime o colo
Submisso os pés lambendo.

E os pilotos do estado em fim de contas
Do validismo à mesa embriagados
A nau já podre irem jogando às tontas
Por mares desastrados.

Via a pátria em letargo vergonhoso
Adormecida à beira de um abismo,
E a conjurar lançou-se audacioso
Tão feio cataclismo.

Dos filhos do progresso ei-lo na frente
Contra o oculto inimigo se revolta,
E ao perigo, que antolha-se eminente,
Do alarma o grito solta.

Ei-lo, que se dedica generoso
De nobre luta às escabrosas lidas;
Brande da imprensa o facho luminoso
Ante as turbas dormidas
Da indiferença na letal modorra.
Como réstia de luz, que o sol enfia
Entre as grades de lúgubre masmorra,
Da frase sua o ardor e a valentia
Do povo ao coração levou a crença,
E os gelos derreteu da indiferença.

Audaz empunha o cálamo de ferro,
E com pujante frase
Afronta a corrução, fulmina o erro,
E ataca pela base
Da autocracia o velho baluarte,
Que, em mal! - inda vigora em tanta parte.

Por seu talento másculo movida
A pluma se converte em férrea dava,
Que o servilismo e a corrução trucida,
E a sepultura ao despotismo cava.

Da inteligência na sublime arena
Muito ele pelejou;
E no torpe convício a nobre pena
Jamais, jamais manchou.

Curto na vida foi o estádio seu;
O astro refulgente,
Quando luz dardejava mais ardente,
Ao tocar no zenith se esvaeceu.

Foi curto o estádio, que correu na vida;
Foi apenas esplêndida manhã,
Em prol da pátria rápido volvida
Em glorioso afã.

Agora à sombra de incruentos louros
Tranqüilo ele repousa;
Seu nome inscrito nessa simples lousa
O recomenda aos séculos vindouros,
Enquanto nela a pátria e a liberdade
Vertem gemendo o pranto da saudade.

Descansa pois, amigo; assaz lidaste;
A vida foi-te só luta e provança;
Nem um só passo deste sem contraste;
Amigo meu, descansa.

Perdoa, se o teu sono sempiterno
Eu vim turbar no fúnebre jazigo...
Meu pranto aceita de pesar eterno,
E adeus, querido amigo...

 
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