C O N H E Ç A A
S U A T E R R A * Manuel Augusto Dias
A LAGARTEIRA (XIII)
A obra do
Padre Saúl Pires Teixeira (continuação)
No último número começámos a tratar da importante obra
do Padre Saúl Pires Teixeira, enquanto Pároco da Lagarteira. Referimos a
reconstrução da Residência Paroquial, concluída em finais de 1967, e vimos como
o próprio Padre Saúl iniciou a campanha para a construção do Salão Paroquial,
em Janeiro de 1970.
Três meses mais tarde, o correspondente do Serras
de Ansião, na Lagarteira, informava os leitores do ponto da situação face a
essa iniciativa, considerada muito importante, quer para permitir reuniões do
povo da freguesia, quer para dar melhores condições físicas às aulas de
catequese, quer ainda para proporcionar actividades de dinamização da juventude
local: «Com este número vamos abrir hoje a lista dos amigos da nossa terra
os quais não deixarão de contribuir para a obra que nos propusemos construir,
ou seja a construção do salão paroquial.
Os primeiros a escutar o nosso apelo foi o casal Josué
da Encarnação Dias e sua esposa D. Ilda Dias Baeta, residentes em S. Paulo
(Brasil), que ofereceram o terreno o qual como todos sabem, é junto da igreja.
O segundo casal a ouvir a nossa voz foi o Sr. António Lourenço Castela e sua
esposa D. Maria do Carmo Castela, residentes na América do Norte, que acabam de
nos enviar a quantia de quinhentos
escudos para o mesmo fim.
Esperamos que outros nomes se venham a juntar a estes,
a fim de aquela obra seja uma realidade (...)».
Efectivamente, os donativos para a o Salão Paroquial
nunca chegaram a atingir os valores necessários, pelo que a obra não atingiu
exactamente os desideratos do Padre Saúl. O periódico de Ansião, em Janeiro de
1971, volta a referir mais uma oferta para o Salão Paroquial e para os pobres
(3000$00 a dividir em partes iguais para a Conferência de S. Vicente de Paulo e
para o Salão Paroquial), mais uma vez proveniente de emigrantes no Brasil, que
muito têm ajudado a Lagarteira e o concelho de Ansião, os Srs. Carlos Dias,
Manuel Dias e Armindo Dias.
Melhor sucedida foi a campanha que o Padre Saúl
encetou, desde que chegou à Paróquia, contra a pobreza que encontrou em alguns
lares da sua Paróquia. Para minorar os efeitos dessa pobreza, e, de certo modo,
para poder auxiliar com um carácter de permanência as famílias mais
carenciadas, fundou a Conferência de S. Vicente de Paulo da Lagarteira.
No dia 2 de Fevereiro de 1969 (já lá vão 31 anos!),
a nova instituição de caridade reuniu pela 2.ª vez, e cada membro informou dos
casos de pobreza que conhecia na sua área de residência, de modo a inventariar
as famílias verdadeiramente pobres, e a precisarem urgentemente de ajuda, que a
Conferência de S. Vicente de Paulo se prontificou a dar, com base nos donativos
que ia angariando junto das famílias que viviam um pouco melhor.
Foi neste trabalho de pesquisa, que a Conferência de
S. Vicente de Paulo, detectou uma família numerosa a viver em péssimas
condições, no Maxial. Tratava-se de um casal com 7 filhos menores, com a
agravante de o chefe de família ser um homem doente, sem possibilidade de
trabalhar. A instituição benemérita logo pensou em canalizar o seus esforços
para “salvar aquela família”. Para além de tentar arranjar alimentos e
agasalhos para aqueles infelizes seres humanos, importava, sobretudo, pensar na
compra ou construção de uma casa onde instalar com um mínimo de dignidade
aquela família. É que o casebre onde viviam não passava de uma “pobre
choupana”, que uma pedra dizia ser de 1668.
O jornal Serras de Ansião - dando provas de que
a imprensa pode ter nestes casos um papel particularmente relevante – difundia,
a 15 de Maio de 1969, a seguinte circular: «Caro amigo e conterrâneo: /
Existe na nossa freguesia, no lugar do Maxial, uma família que é muito pobre e
que se encontra a braços com sérias dificuldades, pois além da pobreza tem
doenças em sua casa. / O chefe dessa família, em virtude da enfermidade que
tem, não pode trabalhar e a pobre esposa é que tem de ganhar o sustento para
si, para seu marido e para 7 filhos todos menores. Ganha 20$00 por dia e nem
sempre tem trabalho; além disso não pode abandonar as crianças. / Ainda se ao
menos esta família tivesse uma casa condigna!, mas nem isso. Vivem todos numa
barraca por esmola e essa mesma barraca está a desfazer-se aos poucos. /
Atendendo a esta situação que é uma autêntica miséria, a comissão abaixo
assinada comprometeu-se arranjar dinheiro para construir uma casa à qual aquela
família pudesse chamar sua e poderem ter o conforto dum lar embora modesto. / É
nesse sentido que estamos a bater à sua porta, certos de que V. Ex.ª irá contribuir com o seu donativo para a
obra acima mencionada o que, desde já, em nome da família António da Conceição
Fernandes, Maria Marques e seus filhos agradecemos. E que Deus o recompense pela
sua generosidade». Assinam a circular, o Pároco (Padre Saúl), a Professora
da Escola do Maxial (D.ª Celeste Gaspar) e os Srs. Manuel Freire e Diamantino
Duarte.
(continua no próximo número)