FALANDO
NISSO
QUARTA-FEIRA,
04 DE OUTUBRO, 2006
TV
BAND de S. JOSÉ DOS CAMPOS
USO
MEDICINAL DA MACONHA
ENTREVISTADO:
DR
SILVIO SAIDEMBERG (PSIQUIATRA E PSICOTERAPEUTA)
Entrevistadores:
Solange Moraes e Cláudio Nicolini; organizador: Marcos Limão
OS ESTADOS
PATROCINARAM UM ESTUDO COM OBJETIVO DE AVALIAR AS EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS DOS
BENEFÍCIOS E DOS RISCOS DO USO DA MACONHA NA MEDICINA. AFINAL DE CONTAS O QUE É
VERDADEIRO E O QUE É FALSO A RESPEITO DO EFEITO TERAPÊUTICO DA MACONHA. ?
Todos os
estudos são bem vindos desde que obedeçam às normas éticas na realização de
pesquisas. O que se sabe nos tempos atuais é que a maconha possue princípios
ativos que merecem ser estudados pela medicina. Em realidade a cannabis
índica tem figurado na farmacopéia por 4000 anos, tendo sido removida das
especialidades farmacêuticas em 1941 nos Estados Unidos por medida de segurança
à saúde pública. De qualquer forma, o fumar maconha é fortemente
desaconselhável pelo forte impacto negativo para o funcionamento cerebral e
pelo impacto biológico devido às substâncias cancerígenas contidas na fumaça da
maconha. O THC (sigla de delta 9 tetrahidrocanabinol) que é o princípio
ativo mais estudado pelas propriedades farmacêuticas tem sido sintetizado
com o nome de dronabinol e doses terapêuticas orais foram determinadas na faixa
de 10 a 20 mg para náuseas e vômitos decorrentes da quimioterapia para o
câncer.
QUAIS OS
LOCAIS DE AÇÃO DA DROGA?
O
dronabinol atua em receptores cerebrais e cerebelares denominados CB1 e em
receptores CB2 mais dispersos pelo corpo, particularmente mais cocentrados, nos
nódulos linfáticos e no baço. Originalmente, esses receptores eram naturalmente
presentes para uma outra substância moduladora de funções do sistema nervoso
central e do sistema imunológico. O nome desta substância é anandamida, um
derivado do ácido aracdônico. Nos olhos também há receptores CB1, já se
discutiu a possibilidade do dronabinol ou um futuro derivado ser de utilidade
no tratamento do glaucoma. A ação terapêutica do dronabinol para o tratamento
do glaucoma não tem confirmação e aprovação científica.
O USO
MEDICINAL DA MACONHA PODE PROMOVER ALTERAÇÕES DO ESTADO MENTAL, AS MUDANÇAS DE
HUMOR E AS ALTERAÇÕES DA COORDENAÇÃO MOTORA?
Sim, elas
ocorrem quando a via é pulmonar para a fumaça aspirada. Já no caso do
dronabinol, que é ingerido, essas alterações ocorrem principalmente se as
doses estiverem acima da recomendada para combater náuseas e vômito. Para
pessoas acima de 65 anos, os sintomas colaterais mais acentuados, sejam as
alterações psíquicas ou problemas de tonturas e perda de equilíbrio fazem que
essa medicação não seja recomendada. Esta medicação também não está aprovada
para indivíduos de idade inferior a 18 anos.
E SEUS
EFEITOS SOBRE O SISTEMA IMUNE AINDA NÃO SÃO BEM CONHECIDOS?
O
dronabinol tem um efeito de reduzir a resposta imunológica, este é um efeito de
breque. Não há uma aplicação bem estabelecida para este efeito. Por enquanto,
esta resposta nos faz acautelar quanto a este impacto imuno-supressor do
dronabinol, afinal de contas, o tratamento com agentes quimioterápicos traz
também o indesejável efeito de imuno-supressão, o que torna o paciente mais
vulnerável a doenças infecto-contagiosas.
A MACONHA
PODE PRODUZIR UM EFEITO ANALGÉSICO?
Os
canabinóis, componentes químicos da maconha, particularmente o THC têm também
um efeito analgésico, isto é de reduzir a percepção da dor. Este efeito é
explorado no dronabinol, se o paciente recebendo quimioterapia para câncer
também tiver um quadro de dor. Mas, o dronabinol não tem seu uso aprovado para
o tratamento de quadros álgicos ou seja de dor. No passado, a cannabis índica
foi muito usada no tratamento de enxaquecas. No entanto, modernamente, outros
medicamentos têm sido indicados para o tratamento de enxaquecas.
QUAIS OS
PACIENTES QUE PODERIAM SER BENEFICIADOS COM O USO DESSA DROGA?AQUELES EM USO DE
QUIMIOTERAPIA, POR EXEMPLO?
A indicação
única aprovada do dronabinol tem a ver com náuseas e vômitos causados pela
quimioterapia. Poderá ser prescrito para prevenir quadros leves a
moderados de náuseas e vômitos, naquelas circunstâncias, havendo outros
medicamentos muito eficientes para o mesmo propósito. Para quadros mais severos
existem medicamentos mais indicados, os chamados medicamentos de primeira
linha, entre eles estão o ondansetron, o granisetron e outros
medicamentos análogos. Dronabinol está entre os medicamentos de segunda linha.
E OS
EFEITOS COLATERAIS PODEM SER AUMENTADOS?
Sim, eles
são dependentes da dose, da faixa etária, sendo particularmente, mais
inconvenientes nas pessoas idosas.
ESTUDOS
SOBRE OS EFEITOS DA MACONHA SUGEREM QUE ESTA DROGA PODE SER IMPORTANTE NO
TRATAMENTO DA DESNUTRIÇÃO? COMO É ISSO?
Desde a
década de setenta, têm-se confirmado que os canabinóis, particularmente o THC
causam aumento do apetite. No entanto este não é um efeito aprovado para fins
terapêuticos, existem numerosos medicamentos orexígenos, isto é que aumentam o
apetite e que são mais seguros para o sistema imunológico. No caso de algumas
pessoas portadoras de Aids, isto é apresentando manifestações clínicas do vírus
HIV, e estando em fases mais avançadas da doença, já bastante
emagrecidas, elas se auto reportaram como apresentando aumento de
peso como resultado de fumarem maconha. Volto a afimar, esta não é uma
prática medicamente aprovada. Existe uma preocupação de se usar substâncias imuno-supressoras
como o THC em pessoas já imuno-suprimidas. Portadores de AIDS não necessitam
piorar ainda mais a sua resposta imunológica, isto é, piorar as suas defesas
orgânicas contra infecções e câncer.
ESTUDOS JÁ
MOSTRARAM TAMBÉM QUE ESSA SUBSTÂNCIA PODE SER BASTANTE ÚTIL NO COMBATE AOS
EFEITOS COLATERAIS DA QUIMIOTERAPIA DO CÂNCER, PODENDO SER USADA TAMBÉM NO
TRATAMENTO DE PACIENTES TERMINAIS COM AIDS E EM CASOS DE ESCLEROSE MÚLTIPLA?
Só há
confirmaçào através de pesquisas mais abrangentes a respeito do uso de dronabinol
como medicação que pode ser útil no tratamento e prevenção de náuseas e vômitos
relacionados à quimioterapia. No caso de pacientes terminais com AIDS, o
uso não é aprovado e é considerado desaconselhável e no caso de esclerose
múltipla e outras doenças auto-imunes, efeitos dos canabinóis poderão ser
explorados no futuro e até mesmo, alguma medicação similar e mais segura poderá
vir a ser testada e aprovada. Ainda é cedo para uma confirmação, só se tem
conjecturas.
A MACONHA
PODE AJUDAR NO CONTROLE DO ESPAMO MUSCULAR ENCONTRADO NA ESCLEROSE MÚLTIPLA?
Existem
outros espasmolíticos, ou seja medicamentos para espasmos musculares, com
indicação confirmada, por enquanto, os canabinóis apesar de seu efeito ter sido
constatado em espasmos musculares não têm sua ação aprovada para uso medicinal.
E NO
TRATAMENTO DA EPILEPSIA?
Não
contamos com uma confirmação através de pesquisas abrangentes a respeito da
efetividade dos canabinóis no tratamento das epilepsias e de quadros
convulsivos. Este é um outro campo a ser explorado em pesquisa. E novamente, é
possível que uma nova linha de medicamentos anti-epilépticos venha a ser
desenvolvida no futuro, que tenha a ver com os receptores CB1 no cérebro.
NO SÉCULO
19, ESCRAVOS JÁ USAVAM A MACONHA EM CRISES DE ASMA E BRONQUITE CRÔNICA
PRINCIPALMENTE NAS CRIANÇAS, DE ACORDO COM ELISALDO CARLINI, CHEFE DO CENTRO
BRASILEIRO DE INFORMAÇÕES SOBRE DROGAS PSICOTRÓPICAS.
Uso da
maconha tem sido historicamente muito variado, já se usou no passado para
enxaquecas, no tratamento da dor e certamente, para outros problemas de saúde.
No entanto, são usos não aprovados medicamente, particularmente seria
desaconselhável fumar-se maconha em quadros de asma e bronquite devido aos
efeitos irritativos da fumaça sobre a mucosa dos brônquios. É bom nos
lembrarmos que 4 a 5 cigarros de maconha são equivalentes a 20 cigarros de
tabaco em seu impacto sobre os sistema respiratório. A fumaça da maconha contem
de 50 a 70% mais hidrocarbonetos com ação cancerígena que a do cigarro, além
disto, usualmente, inala-se mais profundamente e retem-se a
fumaça da maconha por um tempo mais prolongado nos pulmões.
COMO O USO
MEDICINAL DA MACONHA PODE SER CONTROLADO? ... SÓ EM HOSPITAIS?
O
dronabinol poderia ser prescrito para os quadros de náusea e vômitos a critério
clínico e somente médicos lidando com o sofrimento de seus pacientes e olhando
para riscos e benefícios próprios de cada tratamento e de cada medida
profilática poderão decidir sobre o uso de dronabinol que poderia sim ser usado
em casa, enquanto perdurar a náusea pós tratamento quimioterápico.
AS
CAMPANHAS EDUCACIONAIS AJUDAM?
Deverão
ajudar, principalmente, porque este assunto tem sido algumas vezes apresentado
de forma a mobilizar a opinião pública a considerar a maconha como um produto
vegetal que não causa prejuízo aos usuários. Isto é falso e tem desarmado a
população em relação aos riscos do abuso de substâncias.
AQUI NO
BRASIL O USO MEDICINAL DA MACONHA É TOTALMENTE PROIBIDO. ISSO É UMA
CONTRADIÇÃO, POIS O GOVERNO BRASILEIRO ASSINOU A CONVENÇÃO DA ONU QUE PERMITE
ESSE USO, MAS ESSA MEDIDA NÃO É APLICADA NO TERRITÓRIO NACIONAL. O SENHOR ACHA
QUE ESSA DETERMINAÇÃO DEVERIA SER MODIFICADA?
Na
realidade, a aprovação do uso de substâncias seguras para a prescrição médica é
uma função do ministério da saúde, que só pode atuar mediante confirmações
científicas confiáveis. A convenção da ONU se refere à obrigação dos estados
signatários a controlar substâncias com potencial de uso abusivo. Há
substâncias aprovadas para uso farmacêutico em alguns países que não são
aprovadas em outros, mesmo quando há forte evidência científica para a sua
utilização. Uma substância é considerada também de alta periculosidade,
particularmente quando ela possa vir a ser utilizada para efeitos recreativos
ou de auto-intoxicação. O dronabinol está entre as substâncias classificadas
como "psicotrópicas" e que precisam de receita especial do tipo A,
isto é sofre restrição prescritiva mais severa de forma semelhante como
sofre a anfetamina, em ambos casos existe o potencial para abuso. Finalmente,
as modificações na legislação só deveriam ocorrer com o avanço do conhecimento
médico. A medicina não se responsabiliza pelo uso recreativo de substâncias e
nós médicos precisamos alertar a população parar os seus riscos.
HÁ UM
CONSENSO QUE PERMITA ESSA ALTERAÇÃO?
Não há um
consenso científico.
E A TESE DA
REDUÇÃO DE DANOS E DA SUBSTITUIÇÃO DO USO DO CRACK PELO USO DA MACONHA? COMO O
SENHOR AVALIA ESSA QUESTÃO?
Estudos são
bem vindos desde que obedeçam a normas éticas. Informação tem sido registrada
de que alguns usuários de crack passaram a fazer um uso menor do mesmo e
atribuíram isto ao uso de maconha. Todo registro de ocorrências é um ponto de
partida para pesquisas que tentam avançar no conhecimento de como podemos
melhor controlar a dependência química a alguma substância. Tanto o uso de
cocaína quanto a de seus derivados como é o caso do crack ocorrem em quantias
variáveis por dependentes químicos com diferentes perfis de personalidade,
sexo, idade e problemas psiquiátricos concomitantes, além disto as drogas de
rua possuem graus diferentes de impureza. Esses fatores precisam ser melhor
estudados no Brasil. A maconha não é uma substância sem riscos para a saúde, o
seu uso habitual é preocupante. Quando se constata que os seus efeitos
psicotrópicos não se limitam às primeiras horas de alterações da percepção do
ambiente, de tempo e distância, mais a lentidão de movimentos e piora de
movimentos reflexos. Sob a influência de maconha fumada uma vez por semana o
pensamento fica mais lento de forma mais contínua e isto é particularmente
problemático para crianças e adolescentes que precisam de agilidade mental para
desenvolver o seu potencial de aprendizado e habilidade para raciocinar. Ainda,
maconha é um fator importante que contribui para a eclosão de episódios
esquizofrênicos e depressivos e mais frequentemente episódios ansiosos. Existe
uma síndrome bem caracterizada de abstinência à maconha, ela se manifesta como
inquietação, irritabilidade, alguma agitação, insônia, transtornos
eletroencefalográficos do sono, náusea e espasmos musculares.
O CANADÁ
FOI O PRIMEIRO PAÍS NO MUNDO A PERMITIR LEGALMENTE O USO DA MACONHA PARA FINS
MEDICINAIS. AGORA OS CANADENSES PODERÃO CULTIVAR MACONHA E CONSUMIR A ERVA SE
TIVEREM RECEITA MÉDICA E UM DOCUMENTO DE AUTORIZAÇÃO EMITIDO PELO GOVERNO. NO
BRASIL ISSO FUNCIONARIA?
A questão é
se isto funciona realmente no Canadá. Em primeiro lugar, fumar maconha tem a
ver com uso recreativo e não com uso medicinal, mesmo que o usuário desta
planta acredite estar melhorando seus sintomas de náusea e vômitos, espasmos
musculares ou dor de cabeça. Até o dia de hoje, isto é 4 de outubro de
2006, a única apresentação de canabinóis para uso médico é o dronabinol
que nas dosagens terapêuticas tem poucos efeitos psicotrópicos e não causa
geralmente incapacitação para dirigir veículos ou para executar tarefas que
requeiram mais habilidades motoras e intelectuais. Os direitos individuais e
leis vão sofrer influência de muitos grupos de pressão, não somente da medicina
e da pesquisa médica responsável. Há também aqueles profissionais dentro da
área médica que mantêm opinião de que o controle legal de drogas é pouco
prático e em si causa outros males devido à resistência da população em aceitar
ser educada e aplicar medidas de controle. Porém, o combate a doenças sempre
esbarra com impedimentos práticos, nem por isto vamos desistir de combater a
varíola, a febre amarela e as doenças vasculares. Em relação à liberação
da venda de drogas, temos o exemplo do álcool e do cigarro, ambos liberados
para venda para fins recreativos, ambos sendo causa de doenças gravíssimas e de
alta prevalência na população, ainda o álcool por causar acidentes é
responsável por pelo menos metade das vítimas fatais de acidentes nas estradas,
muitas delas abstêmias. Álcool e cigarros são bons exemplos do uso não
medicinal de substâncias.
A FDA,
AGÊNCIA FEDERAL AMERICANA QUE REGULA ALIMENTOS E PRODUTOS FARMACÊUTICOS NOS
ESTADOS UNIDOS, CONSIDERA QUE NÃO EXISTE BASE CIENTÍFICA QUE JUSTIFIQUE O USO
MEDICINAL DA MACONHA.
A FDA tem uma preocupação muito grande com a segurança dos medicamentos
propostos para serem usados na população dos Estados Unidos; além de eficácia
comprovada, há a necessidade de se comprovar que esses medicamentos não causem
problemas para a gravidez, para o desenvolvimento fetal, para o aleitamento
materno, para o desenvolvimento humano, ainda verifica-se a existência do
potencial para abuso, causar acidentes, promover mutaçòes genéticas etc.
A única apresentação de canabinóis aprovada nos EUA pelo FDA é o
dronabinol de uso restrito para náuseas e vômitos causados por quimioterapia.
Em medicina, toda a substância pode ser louvada pelo seu potencial
terapêutico, a diferença entre o veneno e o medicamento está na dose e no modo
em que se administra essa substância. Há outras substâncias utilíssimas
que são bastante controladas pelo seu potencial de uso inapropriado e abuso,
entre elas encontra-se a morfina, fantástica no combate à dor severa, trágica
quando é usada de forma irresponsável.
e-mail: ssaidemb@yahoo.com
Dr. Silvio Saidemberg
Consultório:
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