Nascido em Penacova em 1866, foi sempre bom aluno nos seus estudos secundários no Liceu de Coimbra, tendo cursado Medicina nesta cidade, no qual alcançou as melhores classificações. Desde jovem distinguiu-se pela sua eloquência e pelas suas ideias republicanas, tendo colaborado em diversos jornais e revistas. Ainda estudante universitário, conheceu a sua primeira prisão política.
Terminado o curso, António José de Almeida viu-se impedido de leccionar na Universidade, por motivos políticos. Assim, decidiu ir exercer medicina para a ilha de S. Tomé, onde mostrou uma dedicação inexcedível aos seus doentes. Nessa antiga colónia e, mais tarde, em Lisboa, eram muitos os pacientes a quem não cobrava honorários e, por vezes, ele próprio lhes oferecia os medicamentos e até dinheiro. Ainda em S. Tomé fundou a associação de assistência "Pro Pátria", que prestou durante anos excelentes serviços.
Com 38 anos veio viver para Lisboa, dedicando-se à medicina com grande sucesso (era chamado o "médico dos pobres") e à vida política, fazendo prevalecer a sua eloquência nos comícios republicanos da época. Enérgico defensor da liberdade de pensamento, em 1906 foi eleito para o parlamento pelo círculo de Lisboa. Em 1910, proclamada a República, foi escolhido para Ministro do Interior do primeiro Governo Provisório chefiado pelo filósofo e historiador Teófilo Braga. Foi um dos principais dinamizadores da ampla reforma legislativa então levada a cabo. Foi depois várias vezes ministro e deputado.
António José de Almeida liderou a mais moderada das três facções do partido Republicano, que originou o partido Evolucionista, antagonizando com o partido Democrático de Afonso Costa e com o partido Unionista de Brito Camacho. Criou o diário "República" de que foi director, tendo também fundado e dirigido o periódico "Alma Nacional".
Em 1919, ao aceitar a sua candidatura à Presidência da República, dissolveu o seu partido, para que pudesse presidir à vida política do país com severa isenção. Eleito Presidente, exerceu o cargo até 1923, sendo o único, no período da primeira República, a cumprir todo o mandato. Desempenhou as suas funções com superior critério, sabendo manter a sua autoridade muito acima do tumulto das paixões partidárias e tendo conseguido fazê-la respeitada e sempre ouvida.
Em 1922, no primeiro centenário da independência do Brasil, lá se deslocou em memorável viagem, tendo sido o primeiro supremo magistrado de uma das nações europeias colonizadoras da América a visitar um antigo domínio emancipado, levando-lhe a homenagem do respeito pela sua soberania e o preito da admiração pelo seu progresso. Ganhou fama o discurso de improviso que na altura fez perante o congresso brasileiro, em que afirmou: "não tenho dúvida em lhes dizer que estou aqui, em nome de Portugal, para agradecer aos brasileiros o favor que eles nos prestaram, a nós, proclamando-se independentes no momento em que o fizeram".
Intitulava-se um livre-pensador "fora do grémio das religiões reveladas, mas um livre-pensador profundamente religioso". Senhor de marcada personalidade, ao terminar a sua existência física em Lisboa - no ambiente de pobreza material para que se conduziu ao dar aos outros tudo o que tinha -, afirmava: "morro cristão, mas não católico".
António José de Almeida terá sido um caso exemplar na cena política portuguesa. Por ter sabido manter os interesses da pátria acima dos seus próprios interesses. Por ter resistido às tentações de ordem económica e de bem-estar social. Por ter rejeitado o narcisismo e a prepotência. Por ter conseguido manter-se dinâmico e dinamizador dos projectos em que se envolveu. Por ter sabido assumir, com independência, a sua própria linha de pensamento, consonante com uma forte personalidade.
Como deve ser difícil aos políticos, portugueses ou de qualquer outra nacionalidade, saberem assumir valorosa e verticalmente a defesa do Estado! Saberem ser idolatrados e saberem ser rejeitados! Saberem fugir à mediania, sem que, muitas vezes, o povo o entenda.
Porque nós temos muita dificuldade em distinguir o político normal do sobredotado. Deixamo-nos envolver nas pequenas coisas, perdendo de vista o essencial com certa facilidade.
Sabemos como a Humanidade tem sido complacente
com líderes vulgares que se têm procurado impor como superiores;
e como tem sido injusta para com seres verdadeiramente superiores, só
posteriormente valorizados pela História.