Sentado a uma das mesas do "Café de Paris", em Genebra, reparo que a empregada que me serve é espanhola. Na mesa ao meu lado almoça um casal certamente inglês. Lá mais adiante um grupo maior e mais barulhento, que me parece ser de norte-americanos.
Estou sentado onde mais gosto de ficar: junto à janela. Enquanto aguardo o meu "entrecôte", aprecio um grupo de jovens árabes, do lado de fora, na esplanada, brincando uns com os outros e rindo. Por detrás deles, os suíços, subindo e descendo a "Rue du Mont Blanc", serenamente, sem correrias, sem atropelos.
Gosto muito de Genebra. É uma cidade calma, onde tudo parece bem organizado. As pessoas parecem respeitar-se mutuamente, assumindo o cumprimento dos seus deveres e dos seus horários com uma naturalidade espantosa. Este povo, apelidado de frio e monocórdico pelos latinos, aparentemente não sente necessidade de elevar a voz para se fazer ouvir.
Cerca de seis milhões de pessoas dispõem de uma área de aproximadamente 40 mil metros quadrados (menos de metade de Portugal), sendo que as regiões montanhosas ocupam 75% do território, as quais se mantêm cobertas de neve mais de metade do ano.
País de pequenas dimensões e de parcos recursos naturais (apenas conheço a beleza das suas paisagens e a muita água destas paragens), onde o povo se mantém dividido pelas suas quatro línguas oficiais: alemão, francês, italiano e romanche.
Porém, esta gente soube desenvolver a agricultura, utilizando todos os cantinhos possíveis, e a pecuária, que leva ao aproveitamento subsequente do leite, para a fabricação dos conhecidos queijos tipo gruyère e emmenthal e do famosíssimo chocolate. Foi desenvolvida também uma indústria diversificada de produtos de qualidade, tais como a de relojoaria e aparelhos científicos de precisão, óptica, etc., a química farmacêutica e a têxtil, para além da alimentar, já referida. O seu turismo, graças a uma sábia organização de infra-estruturas hoteleiras e outras, é uma enorme fonte de riqueza. Finalmente, os suíços souberam montar um dos principais centros bancários do mundo.
Hoje, este povo tem um dos mais elevados níveis de vida em todo o Globo terrestre. Dizem-se independentes e neutrais. Situados no centro da Europa, nunca puderam sair por mares já ou nunca navegados à procura de melhores condições, mas também nunca terão ficado à espera que os outros povos lhes enviassem apoios ou subsídios para o seu desenvolvimento.
Têm a sua via própria. Dizem-se independentes e neutrais e (repita-se) assumem o cumprimento dos seus deveres e dos seus horários com uma naturalidade espantosa, dando um belo exemplo a muitos outros povos e, nomeadamente, aos portugueses.
Estou já quase a acabar a minha refeição,
saboreando uma "poire belle-Helène". Fico com o desejo de que também
os portugueses saibam encontrar uma via própria, independente, assumindo-se
na sua própria dimensão, sem complexos, sem lamentações.
Também sem neve, sem frio, antes com muito sol e todo o nosso calor
humano.