Estava-se na "gravana", a temperatura era amena - 26 graus centígrados - e o céu estava enevoado. Eram cerca de nove horas da manhã quando avistámos uma mancha verde no oceano. Palmeiras, muitas palmeiras em terrenos montanhosos bordados por algumas pequenas praias. Quase nenhumas casas, a não ser ao fundo uma linda baía, onde se avistava uma pequena povoação. Estávamos a sobrevoar a ilha do Príncipe.
Ocupando uma extensão de cerca de cem quilómetros quadrados, esta pequena ilha tem actualmente um pouco mais de cinco mil habitantes, quase todos de raça negra. Gente simpática, acolhedora, simples, humilde.
No Príncipe a floresta tropical assume toda a sua pujança. As árvores do café e do cacau, os coqueiros, as bananeiras, as palmeiras e outras, muitas outras, árvores e plantas as mais diversas desenvolvem-se por todos os lados.
As praias são paradisíacas: areia fina e branca, água transparente e tépida, coqueiros a oferecerem alguma sombra, imprescindível quando as nuvens desaparecem, pois os raios solares aqui queimam mesmo.
As casas existentes, as estradas, a pista do pequeno aeroporto, são as que os portugueses deixaram em 1975, aquando da independência de S. Tomé e Príncipe.
As condições de vida da população são deprimentes. As rossas não funcionam. As culturas perdem-se em grande parte. O desenvolvimento agrícola é muito precário. A indústria é algo inexistente e a vida comercial é extremamente débil. Nada se exporta e pouco se importa.
Vale-lhes este clima, onde tudo frutifica e onde basta estender o braço para colher umas bananas (que são de graça) ou só é necessário dar alguns golpes de catana num coco para lhe beber o sumo e comer o miolo (tudo gratuito também).
No meio destes contrastes, ocorre-nos - uma vez mais - o tipo de colonização portuguesa e a posterior descolonização. É marcante no Príncipe como em S. Tomé, ou em qualquer dos outros países de expressão portuguesa, a forma de estar simpática e hospitalar das populações. As pessoas mostram uma razoável formação moral, apesar das fracas bases culturais, geralmente não são racistas e apresentam-se algo subservientes perante os estrangeiros.
Mas a busca de eficiência, as preocupações de ordem laboral, de organização, de qualidade, de cumprimento de horários, são demasiado frouxas ou inexistentes.
Ponderamos que o tipo de colonização portuguesa terá sido talvez mais humana nos aspectos de relacionamento, mas menos humana nos aspectos de formação para a sobrevivência, a liberdade e a independência. A colonização e/ou a descolonização.
Esta população, este país e outros não foram preparados para sobreviver de uma forma verdadeiramente independente. E o aprendizado que estão a fazer é, nalguns casos, doloroso.
Os portugueses precisam de saber que são aqui desejados, porque têm ainda muito que fazer nestas terras. E têm condições óptimas para ajudarem - com benefícios mútuos - este povo a crescer no contexto internacional. Por isso alguns portugueses (ainda só alguns) estão a regressar a África.
Compreendemos e concordamos com o então
Embaixador de Portugal em S. Tomé e Príncipe, quando nos
dizia que agora é que nós estamos a iniciar de facto a descolonização
exemplar.