Amigos, cento e dez, ou talvez mais,
Eu já contei. Vaidades que eu sentia:
Supus que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais!
Amigos, cento e dez! Tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia
Que, já farto de os ver, me escapulia
Às suas curvaturas vertebrais.
Um dia adoeci profundamente.
Ceguei. Dos cento e dez houve um somente
Que não desfez os laços quasi
rotos.
Que vamos nós (diziam) lá
fazer?
Se ele está cego não nos
pode ver.
- Que cento e nove impávidos marotos!
Camilo Castelo Branco
A nossa passagem pelo mundo Terra é rica de experiências as mais diversas. De entre elas, o sentimento da amizade sobressai por poder estar na origem de alguns dos nossos mais belos momentos, mas por também nos poder causar sensações terrivelmente desconfortantes, em quadros de muito sofrimento.
Será curioso recordar que a amizade se pode estabelecer entre seres vivos os mais diversos, individual ou colectivamente. Não tem que ver com raças, níveis de cultura, estratos sociais, poder económico ou interesses materiais. Não conhece distâncias. E perdura no tempo, sem o intenso e perturbador calor das paixões, mas com a força do eterno presente.
Quantos de nós descobrimos na relação com um cão, um gato ou um cavalo, uma lealdade de atitudes, uma confiança bívoca, um antever o desejo do outro, preparando-lhe previamente a satisfação desse desejo!
A amizade entre os homens é capaz de unir fortemente seres do mesmo sexo ou de sexos diferentes, de idades semelhantes ou de gerações diferentes, vizinhos ou habitando continentes diferentes. É capaz de os motivar para acções de grande valor, de os fazer ultrapassar sem desfalecimento o limiar da dor, permitindo-lhes uma superior capacidade de realização.
Também é de assinalar o relacionamento favorável que, por vezes, se desenvolve entre determinados grupos. Famílias que mantêm entre si laços de amizade durante várias gerações. Associações desportivas ou recreativas que criam relações preferenciais entre si. Até a amizade que se enraíza entre certos povos, de que vale a pena citar o exemplo luso-brasileiro.
A amizade normalmente desenvolve-se nos dois sentidos, podendo, contudo, não ser correspondida. Aí há que ter em atenção que ela não obriga à correspondência, porque , nesse caso, deixaria de ser desinteressada, como essencialmente a concebemos e definimos. Então, para evitar situações de desencanto, de sofrimento e de conflito é conveniente que o ser humano encare a realidade com naturalidade.
No relacionamento amigo há muito a receber, a gozar, a desfrutar. Todavia, a amizade é algo que se conquista dando, semeando, entregando-se. De acordo com as leis naturais que regem o Universo, como poderemos colher os frutos daquilo que não semeámos?
Tantas vezes o homem espera encontrar compreensão, apoio, amizade daqueles a quem nunca nada deu... O egoísmo, a presunção, a vaidade, o orgulho, individuais ou colectivos, afastam-nos da realidade, criando-nos falsas expectativas. O encontro com essa realidade é, nalguns casos, doloroso, mas apenas porque não soubemos raciocinar e actuar da forma mais conveniente.
Quando somos capazes de ser simples e despretensiosos, tudo dando e nada esperando em troca, desfrutamos da felicidade possível neste mundo. Sentimo-nos realizados nos nossos objectivos altruístas e satisfeitos com toda e qualquer reacção positiva do meio envolvente.
E, se podemos assumir de uma forma poeticamente bela os momentos de sofrimento, não poderemos realizar-nos superiormente na busca do equilíbrio de atitudes e do relacionamento harmonioso e amigo?
Então, para criarmos sólidas
amizades, será provavelmente apenas necessário sorrir ao
vizinho antes que ele no-lo faça, estender a mão ao colega
de trabalho sem esperar o seu apoio numa promoção, apoiar
uma associação de utilidade pública esquecendo os
nossos eventuais interesses pessoais ou familiares. Assim, criaremos em
torno de nós um ambiente de simpatia, propício ao desenvolvimento,
entre os muitos conhecidos, de alguns verdadeiros amigos.