Na viagem de comboio de Kyoto para Osaka, ao terminar o programa de uma visita turística à antiga capital do Japão, o guia perguntou-me o que mais me tinha impressionado em Kyoto.
Rememorei rapidamente a beleza dos milhares de cerejeiras em flor que tinha visto; alguns daqueles vários milhões de habitantes, ainda mais delicados do que a generalidade dos nipónicos; a exótica comida oriental e as cerimónias em que é servida nos tradicionais jardins-restaurantes; a bonita faiança pintada à mão; os incomparáveis arranjos florais; a música de Kyoto e os milhares de templos religiosos da região.
Retive momentaneamente o pensamento nos vários templos xintoístas e budistas que visitei.
Heian Shrine, com os seus pilares cor-de-laranja contrastando com o telhado verde. Os milhares de papéis embrulhados, contendo os desejos dos crentes, e atados nos ramos das árvores. Os belos jardins e lagos. O bater das palmas dos fiéis, logo após atirarem as suas moedas para caixas de madeira e imediatamente antes de orarem com um ar muito compenetrado. Os longos trajos dos monges e o seu aspecto ainda mais compenetrado. Os imensos objectos à venda para evitar os acidentes de automóvel, para conseguir arranjar um bom casamento, para se conseguir boa e longa saúde, etc., etc., etc.
Sanjusangendo, com as suas 1.001 estátuas em madeira de Buda, todas semelhantes, mas algo diferentes. As excursões organizadas para visitarem este famoso templo. A bilheteira à entrada. O ar distante e enlevado dos monges. A forma como toda aquela gente (e também eu) tirámos os sapatos para fazer a visita descalços, no cumprimento de um ritual de alguns milénios. As velas de diversos tamanhos e feitios e a diversos preços. O aroma daquelas substâncias que são lentamente queimadas no templo. As crianças a orarem ao lado dos pais, aparentemente bem condicionadas em todos aqueles rituais.
Kiyomizu, com a sua larga varanda, oferecendo uma belíssima panorâmica das cerejeiras em flor, ali perto, e da cidade de Kyoto, ao fundo, num ambiente propício à meditação. As imensas lojas de artesanato e bugigangas as mais diversas. As três fontes de água: uma favorável à saúde, outra à beleza física e outra à inteligência (note-se que o seu efeito se anula mutuamente, pelo que os crentes têm de optar apenas por uma). Os sinos e a forma solene como os peregrinos os tocam. Ainda as caixas das esmolas em madeira. Os papéis artisticamente desenhados pelos monges, que crédulos compram religiosamente e os turistas descontraidamente, mas todos com yenes.
-"Os templos". Respondi finalmente ao guia. Ele não me tinha perguntado de que é que eu mais tinha gostado, mas o que mais me impressionara.
O homem sorriu e disse:
-"Pela sua beleza ou pelo ambiente transcendental?"
Olhei para ele. Tinha vinte e tal anos. Vestia um fato Príncipe de Gales e usava gravata, o que confirmava a sua condição de finalista universitário que procurava amealhar algum dinheiro para começar a vida. Era sereno de atitudes e parecia fresco de ideias. Pensei que não se ia zangar com a minha resposta.
-"Não. O que mais me impressionou foi o ambiente profundamente comercial que rodeia os templos e que se encontra no seu próprio interior."
O jovem japonês lançou-me um longo
sorriso oriental e fez-me a última pergunta:
-"E na Europa não é assim?"
Lembrei-me de Fátima e de Lourdes. Imaginei Meca e Jerusalém. Lembrei-me das excursões organizadas aos locais de culto. Das imagens de madeira ou de barro. Dos papéis com desenhos de santos ou orações, dos terços e dos inúmeros objectos vendidos nos templos e à sua volta. Ocorreu-me que as velas têm formas diferentes das utilizadas no oriente. As caixas das esmolas também têm um desenho diferente. O sino é tocado de forma diversa e a água santificada é utilizada de outra maneira. Mas... eu tinha que voltar a ser honesto na minha resposta.
-"É. É mais ou menos a mesma coisa."
Até o comboio estancar em Osaka, ainda
tive tempo para pensar que, à medida que os séculos passam,
o homem parece ir evoluindo também nas suas concepções
existencialistas, afastando-se cada vez mais das primitivas ideias animistas,
do politeísmo e das cenas espectaculares a rodearem os seus momentos
de meditação em conjunto. Provavelmente, também o
aproveitamento comercial das diversas formas de religião se irá
esbatendo no tempo, até ao seu total desaparecimento. É possível
até que esse seja o momento em que as diversas concepções
se fundam numa só, possibilitando o encontro com a Verdade.