Há dias pensei que vivia num país onde havia ministros que mentiam descarada e impunemente. Lembrei-me de um intelectual que realizava filmes pornográficos com as mulheres dos amigos. Ponderei a existência de tráfico de droga e de um número crescente de drogados.
Ocorreram-me as salas de bingo que vão proliferando, cheias de gente mais ou menos remediada, a gastar o seu tempo e o seu dinheiro. Reflecti que muita gente gasta grande parte do seu ordenado em bares, discotecas, campos de futebol. Lembrei-me de proventos ditos fabulosos auferidos por alguns jogadores desse e de outros desportos.
Admiti a existência de incendiários capazes de, num acto tresloucado, destruir a floresta, pagos por empresários impregnados de ambição material sem limites. Meditei nas razões de tantos de nós pretendermos passar à frente de outros na fila do autocarro. Perguntei a mim próprio se ainda haverá quem se arrependa dos seus "pecados" ao domingo, para os repetir na semana seguinte.
... E quase me sentia infeliz...
Quase. Porque a seguir pensei que estou num mundo-escola onde não há ninguém perfeito. E, infelizmente, por má utilização do seu livre-arbítrio, muitos homens são capazes de assumir atitudes que repudiam aos próprios animais que chamamos irracionais.
Procurei, então, encarar a realidade no seu todo. Tive e tenho a certeza da existência de políticos honestos, capazes de se sacrificarem em prol dos superiores interesses da nação, abdicando do seu bem-estar e dos seus interesses pessoais.
Lembrei-me daqueles que lutam no anonimato das organizações de investigação científica, industriais, agrícolas, de ensino, de saúde, de recuperação social, de combate à droga e ao banditismo e tantas outras, para que este povo e este país sejam amanhã melhores que hoje.
Pensei nas mães e nos pais que, com muita força interior, procuram criar aos filhos melhores condições do que aquelas de que puderam usufruir, objectivando proporcionar-lhes o caminho do aperfeiçoamento e da realização material e espiritual.
Ponderei em quantos empresários honestos, operários conscienciosos, profissionais livres competentes, escriturários empenhados, agricultores dedicados e tantos outros estarão trabalhando, criando, construindo.
O Homem parece ser um ser imperfeito, mas com o desejo de se aperfeiçoar. Capaz de cometer erros, mas também de os identificar e de os corrigir.
Então, será positivo, realista, construtivo, mantermo-nos infelizes com as desgraças que vimos, vemos e veremos acontecer à nossa volta? Sentirmo-nos impotentes para corrigir o mundo (que nessas alturas até nos parece apocalíptico)? Lamentarmo-nos de tudo isso e de mais alguma coisa?
Ou será preferível assumirmos
com espírito de tolerância que os outros têm defeitos
como nós próprios? Aceitarmos o resto do mundo como é
e procurarmos - com muita convicção em todo o seu potencial
- corrigir apenas aquela parte do mundo que nos é mais acessível:
o nosso eu? Confiarmos que outros também estão construindo
e que, com o nosso apoio, a situação neste país e
neste planeta irá sendo progressivamente (talvez de uma forma tão
lenta que se torna difícil de perceber) melhorada? Serenamente...
Construtivamente...