Escola Higashi
Resumo de reportagem do Sunday Times, de Wallace M.

            A escola HIGASHI foi fundada em 1964 pela professora Kitahara, graduada em Direito, infelizmente já falecida. Ali ela teve o seu primeiro contacto com um autista, o garoto Masao, então com 4 anos de idade, que ela, piedosamente, admitiu na escola. Com incrível dedicação, ela se entregou à tarefa de tentar compreender o que se passava na mente do garoto e descobrir como vencer os bloqueios que o incapacitavam. Desenvolveu um método, conhecido como "Terapia da Vida Diária", em que as crianças autistas, que ela passou a atender, são fortemente estimuladas, num processo basicamente educativo. O seu sucesso foi reconhecido pelas autoridades e se tornou tão significativo que a sua pequena escola privada se ampliou para abrigar mais de 1.800 alunos, dos quais cerca de 500 são diagnosticados como autistas.
            O seu sistema, segundo ela, se destina a acalmar e organizar o cérebro, de forma que a criança possa aprender as atividades básicas da vida, se tornarem independentes, tanto física quanto emocionalmente. A Dra. Kitahara acreditava que, uma vez conseguido um controle sobre a instabilidade comportamental e estabelecido um padrão e um ritmo, as crianças podem aprender a voltar-se para o mundo real e ocupar um lugar na sociedade. "Primeiro ele deve aprender a ficar quieto e prestar atenção, de modo a ser capaz de receber educação apropriada, o que leva, pelo menos, uns 3 anos", segundo ela.
            Hoje o jovem Masao, aos 20 anos, está apto a falar, ler, escrever e está se profissionalizando como oleiro. Além disto cerca de 80% das crianças que ela educou foram capazes de atingir os primeiros objetivos e se tornarem emocionalmente estáveis. Destas, aproximadamente 60% atingiram um comportamento quase norma e a maioria deixou a escola com qualificações suficientes para obter um emprego. Outros, que não apresentaram melhoras significativas, eram portadoras de lesões muito graves ou só foram levados para a escola tardiamente, quando os seus comportamentos bizarros estavam já fortemente estabelecidos e não se conseguia mais modificá-los.
            A fama da escola atravessou o Pacífico e algumas dezenas de cidadãos americanos para lá levaram seus filhos. Finalmente, em setembro de 1987, abriram uma filial da escola em Boston, Massachussets, como resultado do empenho direto de Jerome Cagan, professor de Psicologia do Desenvolvimento da Universidade de Harvard, Paul Millard Hardy, neurologista comportamental do Centro de New England, de pais e professores.
            A cerimônia de abertura do ano escolar é feita com esplendor e extravagância. O espetáculo começa com a transmissão, por auto-falantes, da música "It's a Small World".  Um grupo de crianças traz um ovo decorativo, que é aberto liberando balões que sobem aos céus. Crianças, usando capacetes protetores, patinam com "skates" ou seguem em filas de ciclistas. Os mais novos desfilam pelo palco com roupas especiais, cintilantes, em estilo de "SuperHomem",  enquanto outros se dão as mãos ou se sentam, com olhar distante, mais feliz, até que seus instrutores os guiem para frente. Há a representação de "Branca  de Neve" e demonstrações de "KendÔ",  arte marcial japonesa.
            O ponto alto de cerimônia é aquele em que todas as crianças entram no palco e tocam variados instrumentos, desde violinos e tambores até harmônicas. Esta é a primeira orquestra do mundo feita com crianças autistas. Há interpretações de peso, como da "Ode de Alegria" de Beethoven e um ovem autista, de 14 anos, toca ao piano músicas de Mendelsohn.
            De fato, o trabalho escolar, durante todo o ano, é motivado para a preparação para este espetáculo, que leva às lágrimas muitos pais. O dia de trabalho na escola Higashi é extremamente estruturado, com períodos em salas de aula, em que se ensina, em especial, como se manterem quietos, intervalados com atividades físicas vigorosas ou desportos em grupos. Isto é dirigido por energéticos professores japoneses, que intervém fortemente. A idéia básica do método da Dra. Kitahara é que o esforço físico libera a intensa ansiedade sentida pelas crianças autistas e que as leva ao pânico e à falta de controle. A imposição de exercícios as acalma e canaliza positivamente suas energias. Uma das primeiras coisas que um aluno novo aprende é a correr. A "maratona" fortifica os músculos das crianças, melhora sua saúde e as prepara para as aprendizagens seguintes.
            Numa das salas de aulas um pequeno grupo de crianças entre 3 e 5 anos, sentadas em pequenas cadeiras de plástico, olham para o quadro, acompanhando o desenho de um leão que o professor Takamatsu traça enquanto canta, acompanhando a música transmitida por um gravador. Enquanto ele o faz, seus olhos procuram incansavelmente contacto com as pequeninas faces ausentes, à sua frente. Há um sentido de tensão: se ele falha por um momento, a sua força sobre elas se desvanece. Elas ficam ali, ligadas ao mundo real através de seus dedos, dasua voz e da força de seu olhar, que os impede de retornarem ao mundo perdido da escuridão e do isolamento.
            - Olha, que é isto?
            - Macaco, responde um rapazinho. Os restantes se mantém calados. Esta é uma diferença nítida. Não há tagarelice, como nas escolas normais. As crianças repetem as mesmas palavras ou fazem eco àquilo que o professor lhes diz. É estritamente um diálogo com uma pessoa só.
            - Levantem as mãos, diz Takamatsu. Alguns poucos erguem seus braços. Agachado, por detrás da fila de cadeirinhas, um segundo professor levanta as mãos dos outros. O uso de pessoas para ajudar nas respostas é uma parte integral do sistema. Pode levar meses, mas finalmente as crianças acabarão levantando os braços por si próprias. Enquanto não o fazem, um auxiliar lá estará, para ajudá-las.
            O dia de trabalho na escola Higashi é seriamente estruturado, com períodos em salas de aula, para aprender a "ficar quieto",  intervalados com atividades físicas e desportivas vigorosas. O esforço físico libera a intensa ansiedade sentida pelas crianças e as acalma. O desporto organizado, especialmente em grupos, é altamente terapêutico porque ajuda a criar um sentido de ordem, identidade e companheirismo.
            A maioria dos mais jovens que vêm para a escola são incontinentes, "molhando" frequentemente suas calças. É importante que todas as crianças aprendam a usar o banheiro. Para facilitar esta tarefa, junto a cada sala de aula existe um toalete e é feito um trabalho persistente para ensiná-las a usá-lo. As crianças também são ensinadas a lavar suas próprias roupas e a se trocarem.
            Um outro problema que recebe muita atenção é o das birras e comportamentos anti-sociais. Muitas crianças autistas ficam profundamente ligadas a determinados objetos, tais como um pedaço de fio ou pequenas coisas, que conservam com determinação entre seus dedos. Muitas vezes ficam obsecadas por certos rituais e qualquer coisa que mude no mundo exterior induzirá manifestações de descontrole e terror. O sistema da Dra. Kitahara luta contra estas manifestações, trabalhando com as crianças em grupos. Quando uma criança fica agitada é retirada rapidamente da sala de aula e levada a libertar sua energia em atividades físicas.
            Uma das áreas em que há muita insistência é a das "boas maneiras". As crianças têm que agradecer ao final de cada refeição e ao fim de cada lição. Cada criança, não importa quão jovem seja, tem de levar de volta o seu próprio prato. Após o jantar as crianças mais velhas arrumam o refeitório, limpando meticulosamente tudo. Os alunos não só mantém os dormitórios e salas limpos e arrumados, como aparam a grama e fazem pequenos serviços. Os jovens são distribuídos emnúmero de 3 ou 4 por quarto e inexistem portas trancadas a chave, não há locais de "exclusão" e ninguém é dopado com drogas.
            Muitas crianças autistas são hiperativas e não dormem a noite, perambulando por suas casas, destruindo coisas ou automutilando-se. Este problema não existe alí. As horas de corrida de maratona, as pranchas, bicicletas, ginástica e desportos queimam toda a energia que poderia ser aplicada em destruição, tranquilizando-as.
            Há um cuidado muito grande na seleção dos professores e a disciplina é rígida, quase militar, o que talvez dificilmente seria aceit apor um ocidental, mas está bem dentro do espírito japonês.
            O aspecto mais severo da Terapia da Vida Diária é que o regime é de internato e a Dra. Kitahara não admite que os pais visitem a escola, pelo menos durante os três primeiros meses e, depois disto, os contactos devem ser feitos somente a critério do pessoal técnico e muitas vezes conduzido sob condições restritas e desconfortáveis, tais como 15 minutos, de pé, no pátio de acesso à escola. Ao contrário de outros métodos utilizados, a Dra. Kitahara não espera e não quer o sacrifício dos pais. Ela acredita que programas que envolvem a mãe, numa rotina diária de 24 horas, apenas destroem a vida familiar, sem benefícios para nehuma das partes.

Nota do editor:
            A importância da educação física na terapia de crianças problematizadas (ou não) vem se confirmando na prática, em diversos estudos realizados, e deve ser encarada como parte indispensável.

 

Pedro Paulo Rocha
Pres. da APARJ


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