O vendedor de imagens
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Hilal Iskandar aos muçulmanos perdidos pelo Kafiristan Um amigo de um amigo meu me contou esta pequena historieta, pouco importa se verdadeira ou falsa, que julguei bastante interesante para uma crônica. Este amigo do meu amigo tinha alguns negócios com uma mina de cobre num certo país latino-americano. Enquanto estava lá a negócios ficava num hotel e a maior parte dos seus amigos eram árabes cristãos, em especial maronitas. Um dia ele saia do hotel quando deparou com um homem enorme de fisionomia abatida, enregelado pelo tempo hostil das altitudes. O homem tinha uma banca repleta de imagens e quadros de santos católicos dos mais variados tipos. Quando viu o primeiro sair do hotel foi logo até ele e lhe ofereceu algumas imagens. O primeiro balançou a cabeça de forma negativa e o outro insistia. Quando viu que a presa lhe escapava o vendedor disse quase chorando: "meu bom homem, estou sem comer há dois dias, tenho frio, não tenho aonde dormir, compra um quadro por favor". O primeiro vendo o quanto era sincero o sofrimento do primeiro abriu a carteira e lhe estendeu uma nota. Alegre o vendedor pediu que ele escolhesse um quadro, o primeiro rejeitou. Diante da inisistência do mascate o amigo do meu amigo lhe disse: -Minha religião não permite que eu use ou tenha em casas tais imagens, se quer o dinheiro toma! O mascate reagiu rápido: -Minha religião não permite que eu mendigue se posso trabalhar, não posso aceitar o seu dinheiro se não leva alguma mercadoria. E a conversava não avançava além dos escrúpulos religiosos dos dois homens. O dono da mineradora cansou-se e já ia indo embora quando o mascate lhe perguntou: -Senhor, qual é a sua religião? -Graças a Deus, sou muçulmano! -Al hamdulillah (graças a Deus), disse o mascate, eu também! Uma certa sensação de surpresa tomou conta dos dois, lágrimas brotam nos olhos e um largo abraço substitui qualquer palavras. O dono da mineradora convidou o outro a almoçar e só depois de muito tempo tocaram no assunto. O dono da mineradora comentou: -Mas como você trabalha vendendo imagens cristãs, você não sabe que isto é Haram (ilícito)? -Eu fiquei perdido neste país, preciso juntar dinheiro para voltar e só três tipos de trabalho existem neste país: mendicância, tráfico de drogas e religião. -Quem pode trabalhar, continuou ele, não deve mendigar, tráfico de drogas causa mal não só para mim como para outras pessoas, pelo menos com as imagens o crime é só meu e não prejudico ninguém! II Uma sensação que talvez os muçulmanos que vivam em países islâmicos - ou melhor, em países com grande número de muçulmanos nele - jamais poderão ter a exata dimensão é a de encontrar outro muçulmano pela frente em terras estranhas. Eu já tive esta grata experiência algumas vezes e a cada vez é como se encontro um velho amigo ou um parente querido que há anos não se vê. O sentimento da fraternidade que deveria unir os muçulmanos é muito forte neste momento, ainda que nem se tenha a idéia de quem é a pessoa. Há alguns dias fui a São Paulo encontrar um grande amigo, Yakzan. Nunca tinhamos nos visto, apenas trocávamos correspondência pela Internet, traçavamos planos para a divulgação do Islam. Era a primeira vez que nos encontrávamos, não tinhamos muito nem idéia de como cada um era. Nos momentos de agonia ansiosa da espera mirava cada rosto tentando descobrir traços árabes em algum dos passantes, interrogando cada um que parecia estar procurando alguém, aguçando os ouvidos para tentar pescar alguma palavra, alguma frase em árabe. Naquele momento ouvir alguma expressão em árabe, creio, seria como alguém que há anos distante da terra natal de repente ouvisse alguma frase perdida na sua lingua materna. E eu nem tenho qualquer ascendência árabe... |