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Os desafios ambientais do crescimento populacional
Liana John Nos últimos 50 anos, a população mundial praticamente dobrou, passando dos 2,5 bilhões de 1950 aos 5,9 bilhões contabilizados em 1998 pelas Nações Unidas. Em outras palavras, a população humana aumentou mais de 1950 para cá do que nos 4 milhões de anos anteriores. E tende a chegar quase aos 9 bilhões em mais 50 anos, no ano 2050. Esta constatação impressionante é o tema central da mais recente publicação do WorldWatch Institute, organizada por Lester Brown, Gary Gardner e Brian Halweil e lançada no dia 10 de abril passado. Com o título de "Beyond Malthus: Nineteen Dimentions of the Population Challenge" (ou Além de Malthus: Dezenove Dimensões do Desafio Populacional) , a publicação reflete sobre as conseqüências de tal crescimento para a própria população, para as espécies que conosco dividem o Planeta Terra e para o meio ambiente que nos sustenta. O primeiro capítulo logo alerta para o fato das Nações Unidas terem reduzido, pela primeira vez, as projeções de crescimento populacional para 2050: ao invés dos 9,4 bilhões anteriormente projetados, agora são 8,9 bilhões. É um sinal evidente de mudança e conscientização da população, já que dois terços desta redução devem-se ao controle de natalidade. Mas traz também um claro sinal de alerta no terço restante, atribuído ao aumento dos índices de morte. "Tragicamente, o mundo está se dividindo em duas partes: uma em que a redução de população se dá pela queda da fertilidade e outra em que esta redução está associada ao aumento da mortalidade", diz Lester Brown, um dos autores. As regiões onde o aumento da mortalidade é significativo são o sub-Sahara africano e o sub-continente indiano. Mas não só. "Embora o crescimento populacional tenha diminuído o ritmo na maioria dos países em desenvolvimento, ainda não desacelerou suficientemente para evitar sérios problemas", diz a publicação. A demanda por comida, água e produtos florestais desta imensa população está simplesmente superando a quantidade de recursos disponíveis. O surgimento de doenças e a incapacidade dos sistemas de saúde, de lidar com as necessidades crescentes de atendimento médico é outra grande preocupação. Para os autores, pelo menos três questões, hoje já críticas, deverão contribuir para o aumento da mortalidade: a epidemia de AIDS, a depleção da água potável e a redução da área cultivada por pessoa. Na África sub-sahariana - sobretudo no Zimbabue, Botsuana, Namíbia, Zambia e Suazilândia - a infecção pelo vírus HIV, causador da AIDS, chega a atingir de um quinto a um quarto da população. A mortandade anunciada, se não foram tomadas medidas de emergência - poderá se comparar à causada pela devastadora peste bubônica, que eliminou um terço da população européia no século XIV. O desafio da água é ainda maior e mais amplamente distribuído pelo mundo. O desperdício de água doce e sua contaminação por resíduos industriais, pesticidas, esgotos domésticos e lixo já está revelando suas conseqüências dramáticas em todos os continentes. Os autores lembram, ainda, os efeitos secundários da redução na oferta de água, na medida em que pelo menos 40% da produção mundial de alimentos depende da irrigação. Assim, a falta d'água ajudará a diminuir ainda mais a quantidade de comida disponível por pessoa, prenunciando a transformação em guerras e graves conflitos as disputas já existentes pela água. Neste quadro geral, o Brasil se considera numa posição confortável, detentor de um dos territórios melhor abastecidos de água do planeta, com possibilidades reais de expansão agrícola. Textos governamentais, mesmo os disponíveis no Ministério do Meio Ambiente, MMA, ressaltam a diminuição da taxa de fecundidade total, mas como um valor em si, sem relação direta com as preocupações ambientais. Tanto na política nacional de meio ambiente como na Agenda 21 brasileira, a tônica é a racionalização no uso dos recursos naturais. Mas ainda falta o necessário vínculo com as políticas populacionais e educacionais dos outros ministérios. Liana John, 41 anos, é jornalista profissional desde 1977 e especializou-se em Ambiente, Ciência e Tecnologia a partir de 1983. Responde por esta área na Agência Estado há 11 anos. |
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