31 de agosto de 1999
Acordei às oito e meia. Conversei com Marcus ontem e
ele disse para eu passar na sua casa para que pegássemos
ônibus juntos, pois ele tinha que ir no Mackenzie. Eu disse
que sairía muito cedo e não passaria lá,
mas, como acordei já depois das oito, resolvi que iria
lá.
Cheguei na sua casa e ele estava com seu pai, mexendo em seu
equipamento de pesca. Fiquei lá esperando ele acabar e
conversando um pouco. Sua mãe desceu na cozinha, onde
estávamos e eu conversei com ela. Contei sobre minha ida
à Brasília e ela me falou que Marcus tinha ido
para o Rio, se vingando de quando, há muito tempo, nós
quisemos ir sozinhos para Minas Gerais e ela não o deixou.
Marcus acabou de fazer o que tava fazendo, trocou de roupa, para
ir ao trabalho e tiramos umas fotos para acabar com o filme que
estava na sua máquina. Foi legal, pois fazia muito tempo
que a gente não tirava uma foto juntos, desde que fomos
ao Pico do Jaraguá... faz tempo. Saímos para pegar
o ônibus e quando a gente estava quase chegando no ponto
de ônibus passaram três ônibus que serviam
para a gente, um atrás do outro. Marcus olhou para mim,
rindo e disse:
- Ô piada sem graça...
Ficamos no ponto, conversando e ele me contou que está
de saco cheio do seu emprego. É, ele tá com a Síndrome
da Volta, que eu diagnostiquei em mim mesmo assim que voltei
de Batatais e depois confirmei com Ângela a existência
da doença. Ela se apresenta em uma repulsa violenta por
São Paulo sempre que se viaja para um lugar que se gosta
e, na maioria dos casos, até se quer mudar para o lugar
em que se foi. Fomos conversando e ele desceu do ônibus
quando passamos pela Consolação.
Cheguei na faculdade cedo e fiquei na biblioteca, adiantando
o trabalho de sociologia, que tínhamos que resolver naquele
dia mas eu ainda não tinha feito nada. Quando deu a hora
da aula, que era hora do grupo se reunir, desci, embora não
tivesse feito nada ainda.. fiquei só enrolando, mas não
estava com vontade de fazer o trabalho. Desci para o saguão
do prédio.
Lá estava meu grupo, Laura, Rafaela, Patrícia
e Nívea (não a japonesa, da história de
Brasília, uma outra). Nívea sugeriu para o grupo
que fossemos fazer o trabalho fora do prédio, da sala,
fora daquele lugar. Ela tinha levado uma canga (acho que é
esse o nome), uma espécie de toalhona para a gente forrar
o chão e não sentar na grama, pois Laura e Patrícia
têm medo de insetos. Depois de convencer todo mundo a ir
para lá, Rafaela teve um ataque de histeria. Quando nós
tentamos argumentar com ela sobre ir estudar lá fora,
onde estava um sol gostoso, fora daquelas paredes, ela virou
para nós em tom agressivo e disse:
- Não, eu não vou lá não. Lá
tem bicho, eu não quero! Se vocês quiserem ir, vão,
tá aqui minha parte do trabalho, podem levar!
Todos ficaram pasmos com aquele ataque súbito de estupidez
e então eu me sentei no chão, fiquei em posição
de yoga e disse:
- Olha, stress não leva a lugar nenhum.
E fiquei lá sentado até elas resolverem. Fomos
para o bar.
Dividimos tudo e Paulo chegou. Nívea quis ir dar uma
volta comigo e com o Paulo, para a gente conversar. Ela estava
muito, muito puta com o ataque da Rafaela. Saímos, meio
que disfarçando, pois não queríamos mais
companhia. Foi então que Fábio e Patrícia
nos chamaram, perguntando onde iríamos. Nós disfarçamos,
fizemos o possível, mas eles acabaram indo com a gente.
Fábio é uma pessoa, digamos, de difícil
convivência. É um mala, maçante, inconveniente,
cheio de si, espalhafatoso, metido e burro, com um leve toque
que vulgaridade. Acho que nem a mãe dele o descreveria
melhor. Mesmo assim, sempre fica com alguém nas festas
em que eu vou com ele. Talvez eu tenha algo a aprender.
Nívea estava toda hora dizendo que ela deveria ser muito
antipática, pois as meninas sempre davam mancadas desse
tipo com ela, eu disse que não e quando ela começou
a insistir não quis deixar ela terminar de falar. Foi
o bastante para eu ser mandado ir à merda... tudo bem...
O dia já não estava lá essas coisas e ainda
isso. Continuamos andando até voltar para a Sociais.
Chegamos lá, Fábio foi ao banheiro e Nívea
foi pegar suas coisas para ir embora. Quando ela voltou eu disse:
- Olha, seria uma boa hora para a gente sair para dar aquela
voltinha que a gente queria dar, agora não tem ninguém
olhando para ir com a gente.
- Pô, você podia ter me avisado antes, para eu não
pegar minhas coisas, né?
- Não, foi só uma sugestão, a gente não
precisa ir não, agora já não dá mais.
- Você quer que eu volte e guarde?
- Não, se você fizer isso o Fábio já
vai ter saído do banheiro e vai te ver, aí não
adianta nada.
Fomos em direção à escada e, quase que
simultaneamente, chegaram o ônibus que ela ia pegar e uma
menina com quem Paulo precisava conversar. Quer dizer, me despedi
dos dois e fiquei ali, sem saber o que fazer. Ainda procurei
alguém pra conversar na faculdade, mas todos já
tinham ido embora. Eu estava órfão de amigos. Resolvi
ir para a biblioteca, mas não queria ler. Fiquei lá
um tempão até não aguentar mais e descer.
Nisso encontrei duas amigas minhas e fiquei conversando. Uma
menina chegou para a gente e perguntou:
- Vocês não estão fazendo nada?
- Não, por enquanto. - respondi.
- É que a gente tá precisando de gente pra ajudar
a carregar as cervejas para cá, pois hoje vai ter a terça
musical.
A terça musical é, como o próprio nome
já diz, um dia em que, no fim da tarde, vai um conjuntinho
tocar música e tem cerveja pra vender.
Sem jeito, pois realmente não iríamos fazer nada,
aceitamos dar a ajuda. Ela disse que iria encontrar um cara,
ainda, pra acertar tudo com ele e depois voltaria.
Continuamos conversando por um tempo. Uns quinze minutos depois,
ela ainda não tinha voltado. Olhei para a menina que estava
comigo e disse:
- Se a gente sair daqui agora e quando ela voltar não
nos encontrar, o que vai acontecer?
- Nada. - respondeu ela, sorrindo.
- Então...
Eu me levantei e ela também. Fomos cada um para um lado.
Eu voltei à biblioteca. O dia tava muito, muito, muito
ruim. Até o ar tava pesado. Mais tarde resolvi que iria
jantar no bandeijão e encontrei Roberto e Nívea
(a japonesa). Eles tinham voltado de lá. Não encontrei
ninguém para ir jantar comigo. Geralmente eu não
ligo a mínima pra isso, mas naquele dia eu não
estava com tanta fome assim e, do jeito que estava o dia, se
eu comesse lá era bem capaz de me dar uma indigestão.
Comi um salgadinho na lanchonete e saí. Encontrei com
Paulo, que disse que, enquanto resolvia seu assunto com sua amiga,
Fábio chegou e ficou enchendo o saco... típico.
Fomos para a aula, que estava especialmente chata... Eu fiquei
inquieto lá dentro. Percebi que tinha perdido a revista
do Roberto (que ele deixou comigo desde o dia em que fomos à
Brasília) e não tinha dado jeito de conversar com
Nívea. Eu tinha levado os textos para falar com ela. Aqueles
textos, que eu escrevi e num outro deu uma discussão e
eu tinha dito que iria lhe provar que ela não era exceção
à regra das mulheres. Na verdade, eu iria usar a discussão
do texto como gancho para resolver minha situação
com ela, para ver se realmente eu tinha chance ou não.
Depois do intervalo, ela veio até onde eu estava sentado
e perguntou se eu queria sair para discutir. Eu aceitei. Fui
contente, pois tinha a certeza de que naquele dia meu assunto
pendente ia acabar. Assim que nos sentamos, chegou um amigo dela...
eu não acreditei. Não deu três minutos, chegaram
Fábio e Aretha. Ela começou a discutir, mas eu
já tinha perdido completamente a noção.
Ela falava, falava, mas eu não conseguia me prender às
palavras dela. Aliás, isso foi motivo para uma lavada.
Perdi a discussão feio e acabei sendo chamado de otário.
Só lembro que ela disse que mulher gosta mesmo é
de homem canalha e que eu não era assim, portanto ficava
difícil. É, eu sou muito bonzinho, mas o dia estava
tão ruim, mas tão ruim, que quando eu reclamei
do calor me zoaram falando que era menopausa. Nada dava certo
e eu não tinha como resistir. Levei uma paulada dela porque
não conseguia prestar atenção no que se
passava... era como se eu tivesse saído do meu corpo e
observasse a situação de fora. Era incrível
como as coisas aconteciam comigo. Por que teve que juntar aquele
monte de gente ali? E não era a primeira vez que aquilo
acontecia. E quando eu reclamo com Paulo, ele diz que sou eu
que causo aquilo. Eu não chamei ninguém. Parece
até que minha vida está sendo observada e quando
eu vou tentar algo, mandam um para me atrapalhar. Eu não
podia acreditar e foi então que eu tive a sensação
de que não tinha mais forças para lutar. No começo
do ano eu fiz uma promessa de não terminar 99 do jeito
que eu comecei, mas tudo o que eu fiz para mudar, falhou. Paulo
diz que o fato de eu me achar azarado é motivo para as
coisa que acontecem comigo, mas, na verdade, ele está
tomando o efeito pela causa. Quer dizer: quando eu era pequeno,
me achava perfeito, não acreditava que as coisa iriam
ser ruins para mim, logo , me achava sortudo. De repente, muitas
coisas começaram a dar errado, muitas. Isso me levou a
me achar azarado, pois aquilo não podia ser coincidência.
Logo, eu me achar azarado, foi efeito da situação
e não é a causa... bom, continuando. No mais, aconteceram
algumas coisas mas eu não vou perder meu tempo falando.
Fui embora com o Paulo e uma amiga sua. Ele não encontrou
sua namorada e eu tive a primeira oportunidade de conversar direito
com sua amiga, pois a gente tinha deixado ele para trás,
para procurar sua namorada. Comecei a perceber que é possível
eu estabelecer laços de amizade com o pessoal da noite.
No ônibus, tinha um monte de amigos do Paulo e eu fiquei
numa situação muito desconfortável. Não
conseguia entrar no assunto e me sentia estranho. Parecia que
eu estava travado, foi muito ruim... Cheguei em casa meia noite
e meia, fui dormir às duas da manhã... que droga
de vida...


