28 de agosto de 1999Acordei às sete da manhã. Meu pai me chamou para que eu fosse trabalhar com ele. Ele tinha que instalar um corrimão de elevador e, para isso, era preciso entrar no poço do elevador e parafusá-lo por trás da cabina. Meu pai está meio fora de forma pra isso, por isso precisava de minha ajuda. Me troquei rapidamente para não atrapalhá-lo e saímos. Era num condomínio em frente à linha que sai do metrô Bresser e de cinco em cinco minutos passava o trem, fazendo um barulhão. Não consigo imaginar como as pessoas convivem com aquilo, mas acho que elas acabam acostumando e depois nem percebem mais.
O prédio seria pintado e por isso o porteiro estava chamando todos os donos dos carros que ficavam estacionados perto da parede que seria pintada aquela manhã. Alguns desciam rapidamente, outros reclamavam, pelo interfone, que ainda estavam dormindo. O porteiro disse:
- É, eu que me prepare, pois isso não fica assim não. Vai pra assembléia. Vão falar que eu chamei eles às seis da manhã, que devia ter colocado um comunicado de que nesse dia seria pintado o prédio. Veja se é hora de estar dormindo.
Já eram umas nove da manhã, eu acho, pois não tinha levado relógio. Eu ri, pois quando saio com meu pai pra trabalhar não me sinto à vontade de conversar com as pessoas que passam pelo dia. Quase tudo o que perguntam eu falo pra falarem com meu pai, como se ele realmente fosse meu chefe e eu, na posição de ajudante, não tivesse habilitação pra explicações detalhadas de nada. De repente eu falo uma coisa errada e a culpa cai no meu pai. Apenas ri do que o porteiro disse e concordei.
- É, o pessoal não acorda cedo que nem a gente não, né amigo? - disse meu pai.
Ele concordou e pegou o elevador para subir até o apartamento de uma mulher que pediu para que ele retirasse seu carro, que ela ainda estava deitada.
Meu pai preparou tudo, me explicou o que eu devia fazer e eu desci pela escada que meu pai prende atrás da cabina, até os parafusos que eu tinha que parafusar. Instalado o corrimão, guardamos as ferramentas no carro e meu pai me explicou como se chegava no metrô. Ele iria até o gasômetro e eu não quis ir, pois tinha coisas pra fazer pra faculdade. Fui embora. Eu estava sujo, cheio de graxa na roupa, mas, engraçado, não me sentia envergonhado de andar na rua. Às vezes eu estou arrumadinho e me sinto feio, hoje eu estava todo sujo e me sentia bem... Freud explica, eu acho. Fui pra casa.
Cheguei, tentei fazer musculação, mas meu pulmão está meio ruim depois da viagem. Estou com uma tosse chata e juntando catarro. Tá uma merda. Desisti e fui tomar banho. Tomei e fui fazer inalação com soro fisiológico, pra ver se melhorava. Minha mãe comprou comida aqui num restaurante perto de casa e eu comi, depois fui para o quarto ler, mas que nada, dormi. Acordei com o Paulo no telefone. Conversamos um pouco sobre a manifestação, sobre a posição contrária do Maurício, sobre nossos grupos de estudos e sobre o que faríamos para nos divertir amanhã. Maurício quer ir assistir A Múmia, mas Paulo e eu preferimos ver Matrix mais uma vez. Tive que desligar, pois Paulo estava de saída para encontrar a namorada. Aliás eu não tinha contado isso ainda. Ele está namorando uma menina da Faculdade de Letras, que fica do lado da nossa. Eu não me lembro dela, mas devo conhecê-la, pois, segundo ele, ela pega ônibus com ele e como eu também já peguei, devo tê-la visto alguma vez. Fui fazer inalação novamente e minha mãe foi no mercado com meu pai. A velhinha, dona da casa onde eu moro, quebrou o braço, tadinha. Minha mãe tá ajudando ela. Eu acabei a inalação e voltei a dormir. Quando acordei e comecei a ler, Maurício ligou. Fiquei falando com ele e discutindo sobre a manifestação que ele, aliás, manifestou uma posição tipicamente alienada dos fatos. Embora ele não admitisse, pois se julga muito esperto por fazer Direito, está completamente influenciado pela opinião da mídia. Ele acha que não foi válida por que algumas pessoas lá nem sabiam o que estavam fazendo lá e eu disse que se fosse esperar pela politização completa da população para se tomar alguma atitude, nada seria feito, nunca. A maioria absoluta do pessoal que estava lá tinha consciência do que acontecia e a minoria despolitizada não deslegitimava de maneira nenhuma o ato. Eu fiquei discutindo até ele dizer que preferia o golpe militar do que aquela manifestação, a partir daí eu disse que uma pessoa que sustentava aquela opinião, não merecia réplica e aí comecei a concordar com tudo o que ele falava, encerrando a discussão. Ele ficou de ligar aqui amanhã pra vermos o que vamos fazer.
Meus pais chegaram do mercado e eu fui comer algumas coisas que eles trouxeram. Batata frita, torta de maracujá. Mas a torta não era muito boa. Depois fiquei lendo e finalmente adiantei bastante a leitura da faculdade.
Aconteceu outra coisa também, mas eu não me lembrei a hora pra poder colocar na ordem. À tarde encontrei com Lilian na internet e ficamos conversando. Ela me pediu, do nada, para eu dizer o que imagem tinha dela e eu disse: "uma garota legal, que tem paciência pra me ouvir falar sem parar. Bonita, mas que não tá sabendo usar sua beleza pra conseguir namorados. Inteligente. Às vezes fala a verdade quando não precisa e isso nem sempre é legal, embora louvável... sei lá o que mais". Ela pensou que eu tinha dito esse negócio sobre dizer a verdade porque ela falou que não gostou do meu cabelo novo, mas não foi. Difícil foi convencê-la disso. Depois eu pedi pra que ela me descrevesse e ela disse: "Você é um cara legal..... todo mundo adora conversar com você, é daqueles caras que não tem inimigos e que todo mundo gosta, embora você não seja popular. É bonito, mas inseguro e cego..... procura sempre pessoas que não o estão interessadas em você e se esquece das outras... assim se acha feio, por não saber escolher..... Anda meio que necessitado então está "catando papel na ventania", papel errado! E só pra completar, já que eu só falo a verdade mesmo, é egoísta...." Discutimos sobre eu ser egoísta, mas o exemplo que ela me deu não era um bom exemplo. Ela disse que via isso pelo fato de eu nunca perguntar como ela está, e sim, ela é quem pergunta sempre. Eu tentei falar que isso é por que às vezes eu tenho medo de ela dizer que está mal e eu não saber a ajudar, mas acho que ela não se convenceu. Depois eu tive que sair.
Meu dia acaba assim. Vou dormir.